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Henrique Meirelles: o homem que vai tentar endireitar o Brasil

Lula ainda tentou trazê-lo para o governo de Dilma, Temer conseguiu-o. Conheça Henrique Meirelles, o novo ministro das Finanças do país que mais encolhe no mundo depois da Venezuela.

Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 12 de Maio de 2016 às 18:29
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Fará em Agosto 71 anos. Foi presidente do banco central durante os oito anos de governo de Lula da Silva. Era tido como o seguro de vida das reformas deixadas por Fernando Henrique. Travou guerras duras com os ministros da Fazenda do ex-presidente, Antonio Palocci e Guido Mantega.

Quando em 2015, pouco depois da reeleição de Dilma Rousseff, se percebeu que a economia brasileira tinha gravemente descarrilado, Lula tentou recuperá-lo para as Finanças. Não se sabe se foi ele que não aceitou ou Dilma que se opôs. Certo é que Henrique Meirelles está de regresso a Brasília, agora para comandar a Fazenda no governo provisório de Michel Temer, o presidente interino que, ainda nesta quinta-feira, assumiu o poder depois do afastamento de Dilma que será agora julgada pelo Senado num processo político-jurídico que terá de ser concluído no prazo máximo de 180 dias.

 

Com o país mergulhado na maior recessão de que há memória, a economia é a frente de batalha mais urgente. E Meirelles, tanto ou mais do que Temer, tenderá a ser o verdadeiro protagonista nos próximos meses - que poderão ser apenas seis ou até 30, caso o até agora vice-presidente conclua o mandato para o qual foi eleito ao lado de Dilma em Outubro de 2014.

No final deste ano, o PIB brasileiro terá caído 8%; segundo o FMI o Brasil é o país do mundo onde a economia mais encolhe depois da Venezuela; a inflação disparou para dois dígitos e o desemprego está já acima dos 10%: o país tem hoje lá dentro um Portugal de desempregados, 10 milhões.

Nas contas públicas, a amplitude da hemorragia ainda não é completamente conhecida e há quem admita que será necessário voltar a recorrer a empréstimos do FMI. No espaço de pouco mais de dois anos, o défice orçamental quase quadruplicou para 10% do PIB, a dívida pública passou de 60% para quase 80% (e seria aqui preciso acrescentar o endividamento directo de bancos e empresas públicas não cotadas), o Brasil perdeu o grau de investimento que havia conquistado em 2008 com todas as agências de rating a classificar hoje de "lixo" a dívida emitida pelo Tesouro brasileiro, que está a ser transaccionada no mercado secundário com "juros" na casa dos 14%.

 
"Meirelles é muito admirado pelos mercados financeiros por sua ortodoxia. À frente do banco central, ele entregou por três anos a inflação abaixo do centro da meta oficial e adoptou uma política que elevou as reservas internacionais em 250 mil milhões de dólares", escreve  a revista brasileira Exame, que recorda que Meirelles, tal como Lula, remete boa parte dos brasileiros para tempos áureos. No seu período de gestão da política monetária, o Brasil viveu o mais longo ciclo de crescimento da história recente do país, com uma taxa de 3% ao ano por mais de 60 meses.

Novo ministro é próximo de Bill Clinton
 

Neto e sobrinho de políticos, Meirelles nasceu em Anápolis, município brasileiro do interior do Estado de Goiás, em 31 de Agosto de 1945. Formou-se em engenharia e estudou administração em Harvard. Foi nos Estados Unidos que construiu uma carreira de sucesso à frente do BankBoston, tendo sido um homem do ciclo próximo de Bill Clinton. O seu regresso ao Brasil e, sobretudo, o ingresso na política é tardio - assim como o seu casamento, em 2000, com Eva Missine, uma médica psiquiatra alemã que passou a adolescência no Brasil. Contava-se já o tempo neste novo século quando se filiou no primeiro partido. A escolha recaiu no PSDB, fundado por Fernando Henrique Cardoso, mas hoje está no PSB, depois de ter estado no PMDB e "namorado" com o PP. 

Estava agora no Conselho de Administração da J&F, dona do Banco Original e da JBS, um dos maiores conglomerados agro-alimentares da América Latina, e era também membro do Conselho de Administração da Azul Linhas Aéreas, cujo dono, David Neeleman, é um dos membros do consórcio comprador da TAP.


Entre as medidas económicas prioritárias, os analistas esperam que proponha, tal como agora se discute na Zona Euro, um limite para o crescimento da despesa pública. Essa ideia fora já avançada pelos ex-ministros Joaquim Levy (que não teve o apoio de Dilma para a implementar), e por Nelson Barbosa (que acaba de deixar a Fazenda) que a propôs quando não havia mais base parlamentar a favor do governo.

 

Meirelles deverá, em simultâneo, ter de fazer cortes nos gastos. O primeiro, simbólico, está feito: Temer apresentou um Governo mais reduzido, com 21 ministros, menos dez do que o último Executivo de Dilma. Ao contrário desta, as maiores batalhas terão seguramente um preço político muito maior: reformar o sistema pensionista, disciplinar os benefícios dos funcionários públicos, cortar a fundo nos investimentos previstos para manter as obras em andamento e poupar programas emblemáticos como o Bolsa Família. Em entrevista ao Negócios, Jairo Nicolau, analista político, diz acreditar que essas "medidas amargas" não tardarão dada a situação económica "assustadora" do país. Meirelles, uma estreia no governo federal, não terá lua de mel.  




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