Américas Lula diz ser vítima de "sacanagem homérica"

Lula diz ser vítima de "sacanagem homérica"

"Não sei, querido" foi a resposta que Lula da Silva mais deu à Polícia Federal que acusa de lhe ter montado uma "sacanagem homérica".
Lula diz ser vítima de "sacanagem homérica"
Eva Gaspar 14 de março de 2016 às 19:06

A transcrição do inquérito a que o ex-presidente do Brasil foi submetido no início deste mês foi tornada pública nesta segunda-feira, 14 de Março, pela operação "Lava Jato". Por mais de uma centena de vezes, Lula da Silva responde "não sei", "não sei, querido" ou abana a cabeça ao delegado da Polícia Federal, instituição que diz estar por detrás da "sacanagem homérica" de que se considera vítima.

"Eu acho que eu estou participando do caso mais complicado da história jurídica do Brasil, porque tenho um apartamento que não é meu, eu não paguei, estou querendo receber o dinheiro que eu paguei, um procurador disse que é meu, a revista Veja diz que é meu, a Folha diz que é meu, a Polícia Federal inventa a história do triplex que foi uma sacanagem homérica, inventa história de triplex, inventa a história de uma off-shore do Panamá que veio pra cá, que tinha vendido o prédio, toda uma história pra tentar me ligar à Lava Jato, toda uma história pra me ligar à Lava Jato, porque foi essa a história do triplex", responde ao delegado que conduziu o inquérito que se prolongou por quase quatro horas numa sala reservada no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.


Questionado sobre quem tomava decisões e como se assegurava o financiamento do Instituto Lula e da LILS, empresa sua de palestras - que a investigação concluiu terem recebido quase 10 milhões de reais de empreiteiras ligadas à rede de corrupção centrada na Petrobras, designadamente a Camargo Correa, Odebrecht, OAS, UTC e Queiroz Galvão - Lula disse não saber de nada. Embora tenha admitido que o Instituto Lula possa ter recebido doações de "todas" as construtoras, garantiu que as empresas não o procuravam para fazer doações e negou que as tenha pedido.

E não sabe de nada porque "não gosta" de participar das decisões da sua fundação (isso cabe ao director Paulo Okamotto e demais membros da direcção) e porque nem das finanças de sua casa cuida. Disse também não saber porque o seu instituto fazia transferências avultadas para as empresas G4 Entretenimento e Tecnologia Digital, do seu filho Fábio.


"Não pergunte para mim essas coisas financeiras porque eu não cuido disso. Faço questão de não fazer ideia". "Nem no instituto e nem em casa eu cuido disso, em casa tem uma mulher chamada dona Marisa que cuida e no instituto tem pessoas que cuidam", afirmou.

Quanto às palestras, diz que cobrava "nem mais nem menos" do que o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, 200 mil dólares, mas a factura, juntando viagens e alojamento – seu e dos seus seguranças – podia chegar a um milhão. "Nós pegamos um valor do Bill Clinton e falamos o seguinte: ‘Nós fizemos mais do que ele, então nós merecemos pelo menos igual’".

 

Sobre a fazenda de Atibaia e o triplex Guarujá, repetiu que não é dono da propriedade (só a usa) e que em tempos desistiu da compra do imóvel de 215 metros quadrados em frente à praia porque era "pequeno" e desadequado.

No meio do inquérito, Lula chega, no entanto, a dar a entender de que era ainda Presidente e já frequentava o sítio de Atibaia – que diz ter sido comprado por amigos seus para "não só que eu tivesse um lugar para descansar, mas também que tivesse alguma coisa pra guardar as tralhas de Brasília, que é muita tralha que a gente ganha" - mas depois corrige. "Vou falar uma coisa para você, eu não pedi para entregar no sítio nada porque o Presidente é o último a saber das coisas. O Presidente tinha que presidir o país, tinha que ficar ocupado. Mas certamente roupas, certamente algumas garrafas de vinho..." Mas o senhor frequentava o sítio enquanto era Presidente?, pergunta o delegado da Polícia Federal. "Não, não sabia que existia o sítio. Eu só fiquei sabendo do sítio dia, já falei para você isso", responde.

Em relação às denúncias de Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenhara, segundo as quais a campanha presidencial de Lula de 2006 recebeu financiamento oculto de 2,4 milhões de reais das grandes empreiteiras, Lula também não deu resposta. "Deixa eu lhe falar uma coisa, um Presidente da República que se preze não discute dinheiro de campanha, se ele quiser ser presidente de facto e de direito ele não discute dinheiro de campanha", respondeu à Polícia Federal.

 

Por diversas vezes, Lula queixa-se da investigação e de indícios serem divulgados pela imprensa. "Faz sete anos que esse Brasil vive assim, na quinta-feira alguém da operação Lava Jato vaza uma matéria para a Folha de São Paulo, vaza uma matéria para O Estadão, vaza uma matéria para a Veja, vaza para a Época, aí trabalhar sábado e domingo, eu estou de saco cheio disso". Na resposta, o delegado da Polícia Federal lembra-lhe que essa informação pode estar a ser passada para a comunicação social pela defesa e não pela acusação. "O senhor viu que na semana passada teve uma fase envolvendo o João Santana, o senhor viu quem vazou? Ficou o documento, o interrogatório foi para o Jornal Nacional, não foi? O senhor viu que estava escrito assim 'Cópia ao advogado'? Talvez o senhor não tenha percebido, mas está lá".

O relato sugere que a polícia queria que o encontro fosse discreto e que terá decorrido num ambiente muito relaxado, com pausas para café, para Lula comer uma "mista quente" e contar estórias anedóticas. Numa delas, o ex-presidente do Brasil queixa-se ao delegado da polícia de que quando fez a primeira viagem à ONU, em Setembro de 2003, as diárias pagas aos funcionários do Governo em deslocações ao estrangeiro não davam para comprar comida, pelo que os "companheiros" levaram "frango com farinha" para o Waldorf Astoria – um dos hotéis mais caros de Nova Iorque -  e "imaginaram que o cofre era o micro-ondas e colocaram o frango lá dentro, e não conseguiram abrir o cofre, acho que o frango deve estar lá até hoje ou o cara do hotel encontrou o frango". "Agora melhorou um pouquinho, mas era uma miséria, era uma miséria".


No final, diz esperar que "quando terminar isso aqui alguém peça desculpas. Alguém fale: 'Desculpa, pelo amor de Deus, foi um engano'".




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