Américas Moro diz que não há prazo para o fim do Lava-Jato: É imprevisível

Moro diz que não há prazo para o fim do Lava-Jato: É imprevisível

Apesar da magnitude e da abrangência dos escândalos de corrupção descobertos pela operação Lava-Jato, para Moro, a sociedade não deve sentir-se desencorajada, pelo contrário, deve perceber que a corrupção está finalmente a ser combatida.
Moro diz que não há prazo para o fim do Lava-Jato: É imprevisível
Bloomberg 17 de maio de 2018 às 15:30

Sérgio Moro, o juiz responsável pela Operação Lava-Jato há quatro anos, não consegue prever um prazo para o fim das investigações sobre o maior esquema de corrupção do Brasil, que já mandou vários empresários e políticos dos mais poderosos do país para a prisão. Moro disse em entrevista à Bloomberg em Nova Iorque que o Lava-Jato é "imprevisível", embora ache que a maior parte do seu trabalho esteja quase concluída.

 

O juiz de 45 anos já colocou atrás das grades a elite das empresas de construção do Brasil, vários administradores executivos da Petrobras, ex-presidentes de Câmara, um senador no exercício do mandato, um ex-governador, e até mesmo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Casos de corrupção relacionados com o Lava-Jato também permanecem nas mãos de outros juízes de outros estados, como Rio e Brasília, e com o Supremo Tribunal Federal, observou Moro.

 

"A investigação não tem prazo de validade. Investigações criminais muitas vezes são imprevisíveis, dependem dos factos", disse o juiz. "Enquanto as provas continuarem, continuaremos a fazer o nosso trabalho. Como juízes e promotores, não temos opção."

 

Watergate

Moro rejeita a ideia de que a incerteza resultante de uma investigação prolongada é prejudicial para a maior economia da América Latina, actualmente em recuperação depois de atravessar uma profunda recessão. Melhorar o Estado de direito, argumentou, trará resultados positivos a longo prazo para brasileiros e investidores estrangeiros.

 

"Os investidores devem pensar no quadro mais amplo", defendeu, fazendo uma comparação com o escândalo de Watergate nos Estados Unidos. "Isso trouxe instabilidade política, mas seria melhor deixar Richard Nixon na Presidência?"

 

O sucesso no combate à corrupção no Brasil também depende de mudanças na lei. Acabar com os privilégios legais que permitem que os políticos sejam julgados apenas no STF, onde os casos geralmente tramitam bem mais devagar, é um passo crucial para reduzir a impunidade, afirmou Moro. Outro é acabar com o sistema de apadrinhamento que coloca os políticos no comando das empresas estatais. Moro disse considerar que a decisão do STF de restringir o foro privilegiado a senadores e deputados por crimes cometidos fora do mandato foi um avanço, assim como a decisão de proibir que empresas façam doações eleitorais a candidatos. "Eu acho que deveriam ser eliminados todos os privilégios como os que temos. Eles não fazem muito sentido se se tem esse compromisso público com a igualdade."

 

Apesar da magnitude e da abrangência dos escândalos de corrupção descobertos pela operação Lava-Jato, para Moro, a sociedade não deve sentir-se desencorajada, pelo contrário, deve perceber que a corrupção está finalmente a ser combatida. "Os brasileiros devem orgulhar-se, foram para as ruas para protestar", disse o juiz, muitas vezes retratado como um super-herói pelos seus fãs.

 

Moro considera o apoio popular essencial para proteger a Lava-Jato dos seus inimigos e descartou qualquer plano de concorrer a um cargo político. "Isto é uma fantasia. Eu não posso concorrer nestas eleições e fiz a promessa de que não vou concorrer nunca no futuro. Sou feliz sendo juiz".

 

Em vez disto, Moro admitiu que pensa em tirar um tempo para estudar Direito fora do país, provavelmente nos Estados Unidos: "Eu acho que poderia ser um bom momento para sair do calor."