Américas No país do lítio, cidades-fantasma lembram outra bolha

No país do lítio, cidades-fantasma lembram outra bolha

O Chile sabe bem o que significa ser descartável.
No país do lítio, cidades-fantasma lembram outra bolha
Reuters
Bloomberg 02 de junho de 2018 às 11:00

As cidades-fantasma que salpicam o norte do país são uma lembrança dolorosa de uma época em que o país foi substituído quase da noite para o dia como o maior produtor mundial de fertilizantes. Hoje, os edifícios em ruínas e as fábricas enferrujadas são um sinal para as mineiras que apostam numa grande expansão do lítio.

 

Os preços do lítio triplicaram em três anos, provocando uma corrida para encontrar um substituto do mineral branco e macio usado para fabricar baterias para uma série de produtos, de carros eléctricos a telemóveis. Enquanto especialistas de instituições como o Departamento de Energia dos EUA e a Universidade de Stanford trabalham nos bastidores para desenvolver uma alternativa química, os executivos do sector de mineração local afirmam que o apogeu e a queda do Chile no passado geram muitas preocupações.

 

A mineira Sociedad Química y Minera de Chile, ou SQM, acredita que o negócio do lítio "continuará por algum tempo", mas o CEO Patricio de Solminihac reconhece que a empresa precisa estar sempre de olho no próximo grande acontecimento. A natureza das tecnologias disruptivas implica que "estas surgem do nada e desenvolvem-se a uma velocidade incrível", afirmou.

 

Foi o que aconteceu no início do século XX, quando cientistas alemães inventaram um fertilizante sintético que podia ser produzido a um custo muito inferior ao dos nitratos extraídos através da mineração e que o Chile exportava para todo o mundo. Os preços dos nitratos afundaram e, na década de 1930, a economia chilena entrou em colapso com a falência das mineiras. O governo entrou em incumprimento no pagamento da dívida externa, a agitação social forçou o presidente a fugir para o exílio e os acampamentos de mineração no deserto de Atacama, antes movimentados, transformaram-se em cidades fantasmas, desmoronando sob a inclemência do sol e dos ventos.

 

Embora o lítio actualmente não seja elemento central da economia chilena (papel que cabe ao cobre), as mineiras estão a expandir a produção agressivamente. O Chile possui as maiores jazidas de lítio do mundo, cerca de 47% das reservas globais estimadas. A China e a Austrália vêm a seguir, com cerca de 20% e 17% das reservas, respectivamente.

 

O sector disparou à medida que mais consumidores têm acesso a veículos eléctricos e dispositivos de armazenagem de electricidade. As produtoras já estão a ter dificuldades para acompanhar o ritmo. No futuro, o mercado continuará apertado, tendo em consideração a previsão de que a procura por lítio aumentará 12% ao ano nas próximas duas décadas, segundo a consultora especializada em lítio SignumBOX, com sede em Santiago.

 

Vincent Sprenkle, gerente de pesquisa do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico do Departamento de Energia dos EUA, considera que um substituto poderá ser desenvolvido em cinco anos para ajudar a responder a esta procura. Seriam necessários mais alguns anos para tornar esse substituto comercial.

 

"No passado, o período entre a invenção e a aplicação comercial era de décadas", explicou Vincent Sprenkle. "Mas com tanto esforço colocado no desenvolvimento de baterias nos dias de hoje, isto poderá acontecer mais rapidamente do que o normal."

 

Isto não diminuiu o apetite das empresas por novos grandes projectos de lítio. Este mês, a chinesa Tianqi Lithium anunciou que se tornará a segunda maior accionista da SQM, com um acordo de 4,1 mil milhões de dólares.

 

A SQM está a investir 525 milhões de dólares para praticamente quadruplicar a produção das suas operações chilenas até o início de 2021 e a Albemarle, com sede nos EUA, investirá 500 milhões de dólares este ano para expandir as operações no Chile e na China e construir uma nova mina na Austrália.

 

No geral, o sector exigirá um investimento de capital de cerca de 10 mil milhões de dólares na próxima década para responder à procura, revelou Solminihac aos accionistas, no mês passado.

 

"Muitas vezes perguntamos aos especialistas qual é o próximo passo no ramo de baterias e eles dizem que são as baterias avançadas de lítio, com quantidades maiores de lítio", disse David Klanecky, vice-presidente da divisão de lítio da Albemarle. "Achamos que temos um futuro brilhante à nossa frente."

 

Grande parte do investimento está concentrado no mesmo deserto que foi o epicentro da expansão do nitrato no Chile. Os caminhões que transportam lítio bruto das salinas para as usinas de processamento passam ao lado das antigas ferrovias que transportavam nitrato para os portos. O que resta das cidades fantasmas, que muitas vezes se resumem a grupos dispersos de paredes de tijolos ou silhuetas de casas que ainda não desabaram, é visível da estrada.

 

Um cemitério próximo é testemunha da actividade frenética que em determinado momento consumiu a cidade mineira de Chacabuco. O cemitério está tão lotado que as cruzes de madeira tocam-se. Ao longo das décadas, uma espessa camada do solo rico em nitratos que cobre o deserto foi soprada para cima das sepulturas dos que trabalhavam nele.

 

"O Atacama continua a ser o maior gerador de riqueza do Chile", disse Sergio González, historiador da Universidade de Tarapacá que ganhou o Prémio Nacional de História de 2014. "Há sempre um risco de substituição, mas o problema surge quando o país não investe o suficiente em tecnologia para fortalecer a indústria e gerar vantagens competitivas."

(Texto original: A Legacy of Mining Busts Haunts Chile’s Lithium Dreams)




Saber mais e Alertas
pub

Marketing Automation certified by E-GOI