Mundo Argentina: Derrota do presidente Macri nas primárias afunda obrigações, moeda e bolsa

Argentina: Derrota do presidente Macri nas primárias afunda obrigações, moeda e bolsa

O "peronista" Alberto Fernandez, que concorre com a ex-presidente Cristina Kirchner como número dois, derrotou por larga margem o atual presidente Macri nas primárias argentinas. Juros da dívida argentina reagiram em forte alta.
Argentina: Derrota do presidente Macri nas primárias afunda obrigações, moeda e bolsa
Reuters
David Santiago 12 de agosto de 2019 às 14:19

Nas primárias argentinas que decorreram este domingo, os eleitores do país deram um cartão vermelho ao presidente Mauricio Macri e respetivas políticas de austeridade, dando uma clara vitória ao "peronista" Alberto Fernandez. Mercados não reagiram bem.

A coligação da oposição Frente de Todos, encabeçada por Fernandez e que leva a ex-presidente Cristina Kirchner como número dois na candidatura às presidenciais de outubro, obteve 47,3% dos votos com 88% dos votos contabilizados.

Já a candidatura Juntos pela Mudança do presidente Macri não foi além dos 32,5% dos votos, enquanto no terceiro lugar ficou o antigo ministro Roberto Lavagna com 8,4%.

Este resultado mostra uma ampla rejeição à política de consolidação das contas públicas levada a cabo pelo atual presidente.

O presidente Macri já reconheceu o "mau resultado", isto depois de antes das primárias ter defendido que as presidenciais de outubro vão "definir os próximos 30 anos".

Em jogo está o caminho que a Argentina vai seguir e os que estão em jogo são opostos. Macri propõe manter orçamentos equilibrados e continuar a abrir a economia argentina, enquanto a dupla candidatura de Fernández e Kirchner quer reforçar o papel do Estado na economia com políticas mais intervencionistas.

Alberto Fernández, que chegou a ser chefe de gabinete do antigo presidente Néstor Krichner, com quem se incompatibilizou, concorre em conjunto com a também ex-presidente Cristina Kirchner, envolta em diversos casos relacionados com corrupção.

No entanto, o "peronista" parece beneficiar do cansaço dos argentinos em relação a uma economia ainda em recessão e com elevados níveis de inflação. Por outro lado, salienta a Reuters, a reeleição de Macri significaria que o programa de corte na despesa pública vai prosseguir tal como acordado no programa de apoio financeiro de 57 mil milhões de dólares negociado, em 2018, com o Fundo Monetário Internacional.

Peso em mínimos
Os mercados estão a reagir com preocupação à perspetiva de Alberto Fernández como presidente, em particular por temerem que a atual economia de mercado dê lugar às políticas de nacionalizações levadas a cabo por Kirchner.

Esta segunda-feira, as obrigações emitidas em euro que atingem maturidade em 2028 registaram uma derrocada, com a respetiva "yield" a escalar para 13,5%, a taxa mais elevada desde que estes títulos começaram a ser colocados, em 2017. Já as obrigações soberanas em dólares com maturidade até 2048 desvalorizaram perto de 17%.

No mercado cambial a moeda argentina abriu a afundar mais de 15%. No início da sessão eram necessários 55 pesos argentinos para comprar um dólar, quando na sexta-feira bastavam 45. A moeda continuou a afundar, com a queda a aproximar-se dos 30% para 65 pesos por dólar, o que representa o valor mais baixo de sempre, segundo a Reuters. Com a volatilidade a tomar conta da moeda, o peso segue (pelas 16:00, hora de Lisboa) a desvalorizar em torno de 20% para 57 pesos por dólar. 

No mercado acionista as quedas também são violentas. O principal índice bolsista do país (Merval) afunda 11%, estando a ser pressionado sobretudo pelo setor financeiro, em especial depois do Morgan Stanley ter cortado a recomendação para os bancos do país de "overweight" para "underweight". O temor quanto a um efeito de contágio provocado pela instabilidade na segunda maior economia da América Latina atinge já o real brasileiro, que deprecia nos mercados cambiais. Já são necessários quatro reais para comprar 1 dólar.

Primeira volta a 27 de outubro

A primeira volta das presidenciais decorre no próximo dia 27 de outubro, sendo que só é eleito um presidente se este conseguir 45% ou mais dos votos ou 40% dos votos com pelo menos 10 pontos de vantagem sobre o segundo classificado. Caso contrário, há direito a uma segunda volta a 24 de novembro.

As primárias argentinas têm como objetivo definir quais os partidos que vão disputar as eleições para, posteriormente, escolher qual o candidato de cada partido.

Porém, a ausência de concorrência interna (dentro de cada partido) fez com que estas primárias sejam sobretudo uma espécie de sondagem nas urnas daquilo que poderá ser o resultado das presidenciais.




pub

Marketing Automation certified by E-GOI