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Assad vai ser punido por ter usado armas químicas “mas nós sentimos que é permitido ele matar-nos com armas normais”

Ibra tem 23 anos e vive na cidade síria de Manbej, no norte do país. Há oito meses que terminou os estudos na universidade, mas não arranja emprego. Na sua cidade não há segurança. Recentemente ficou ferido com um míssil que lhe atingiu a casa. Ao Negócios, diz que quer partir para sobreviver.

Carla Pedro cpedro@negocios.pt 29 de Agosto de 2013 às 03:08
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Há alguns meses, um míssil caiu em frente à sua casa. “Felizmente, a minha família não estava. E a mim… o céu protegeu-me". Foi assim, a frio, com fotos a servirem de prova, que Ibra foi relatando ao Negócios, em mensagens trocadas pelo Facebook, a situação que se vive na Síria. Com a cidade onde habita - Manbej - a servir de ilustração. De sonhos acabados, mas não desfeitos. Porque é possível tentar realizá-los fora dali, acredita.

 

Manbej situa-se numa chamada zona livre, controlada pelo Exército Sírio Livre [formado por desertores das forças do regime e civis armados]. Mas a situação que ali se vive também “é muito má”. Além da guerra, "as pessoas têm problemas económicos devido à subida dos preços. E por outro lado, tivemos uma desvalorização da moeda”, explica Ibra.

 

E há outro problema: “Alguns membros da Al-Qaeda vieram há alguns meses para aqui e estão a tentar dominar e controlar a cidade". E a população? Resiste. "O povo não quer que estas pessoas que vêm de outros países, como Egipto, Líbia e Afeganistão, cheguem aqui e assumam o controlo. Eles são muito severos e tentam roubar a nossa revolução para criarem um país islâmico. Mas os rebeldes sírios estão a lutar para criarem um país civil para todos os sírios”.

 

Ibra diz que o seu povo se sente “frustrado” e “desesperado” devido à situação do país. E conta como lhes dói a visível impassividade do resto do mundo, enquanto o conflito sobe de tom. A Primavera Árabe que correu parte de África e do Médio Oriente em 2011 não trouxe os efeitos desejados.

 

“Sentimos que o mundo não se importa connosco. Centenas de pessoas são mortas diariamente e o mundo fica apenas a assistir. O nosso país está completamente destruído devido à guerra. Mas apesar de todas as dificuldades, lutaremos até ao fim pela nossa liberdade”, garante.

 

Na sua opinião, “os EUA e o mundo ocidental vão punir Assad [Bashar Al-Assad, presidente da Síria] porque ele usou armas químicas contra pessoas inocentes, incluindo crianças. Mas o que sentimos é que é permitido ele matar-nos com armas normais”.

 

“Não há segurança na minha cidade”, lamenta Ibra. “Há muitos raptos por gangs que depois pedem recompensas aos mais ricos. E há um grande movimento de refugiados a chegarem de outras cidades”. Mas não é ali que encontrarão um porto seguro, afiança.

 

Conta que fez a sua licenciatura há oito meses, mas que ainda não arranjou emprego “por causa da guerra”. “Por isso, tal como muitos outros jovens, vou tentar sair daqui para sobreviver e começar uma nova vida”, confidencia. “Muitos universitários deixaram de estudar e estão a tentar fugir para outros países para procurarem um bom futuro. Outros entraram nas fileiras armadas e estão a lutar pelo país”.

 

O seu retrato no perfil do Facebook mostra um jovem sorridente. E mesmo enquanto relata a difícil situação que o país vive, o seu positivismo sobressai. Agradece o interesse demonstrado pelo seu país e respira-se, nas palavras que escreve, uma centelha de esperança. Esperança que um dia não seja normal para o resto do mundo vê-los serem mortos com "armas normais".

 

Quando foi apanhado de surpresa pelo míssil "à porta de casa", ficou com alguns ferimentos. "Mas agora já estou bem", assegura. "E já arranjámos os estragos que houve em casa. A vida tem de continuar”, remata, enquanto partilha algumas fotos da sua sala parcialmente destruída naquele dia em que o céu o protegeu.

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