Mundo Chile: nas ruas da melhor economia da América Latina vive o fantasma da desigualdade

Chile: nas ruas da melhor economia da América Latina vive o fantasma da desigualdade

Desde 6 de outubro que fortes protestos têm tomado conta das ruas do Chile, especialmente na capital do país, Santiago. O gatilho da contestação foi o aumento de preços dos transportes e da energia, mas essa é só a “ponta do iceberg”. Piñera está a ser obrigado a agir.
Gonçalo Almeida 23 de outubro de 2019 às 17:54

Com a ameaça de uma greve nas minas de cobre do Chile, marcada para esta quarta-feira, o presidente do país, Sebastian Piñera viu-se obrigado a ceder e anunciou um conjunto de propostas sociais para pôr travão ao tumulto que a economia mais próspera da América Latina vive desde o início do mês. Desde então morreram 15 pessoas.

Ontem, 22 de outubro, Piñera pediu desculpa por ter falhado em reconhecer os motivos da contestação social, num discurso televisivo em direto para o país, e anunciou um aumento de 20% na pensão mínima e, para já, o congelamento do preço da energia – um dos motivos da contestação. Além disso prometeu uma subida dos salários, principalmente do ordenado mínimo mensal para 350 mil pesos, face aos 310 mil pesos atuais.

Para se perceber a origem dos protestos é preciso recuar ao dia 6 de outubro, altura em que o operador do metro de Santiago anunciou um aumento de 830 pesos (o equivalente a 1 euro) nos bilhetes das viagens, apenas algumas semanas depois de o Governo ter aumentado a conta da eletricidade em 10%.


As primeiras reações dos membros do governo chileno aos protestos de civis caíram mal junto dos protestantes e agudizaram ainda mais a tensão vivida. O ministro da Economia, Juan Andres Fontaine, sugeriu aos trabalhadores acordarem mais cedo para pouparem na conta da luz.

A 18 de outubro, uma frente de protestos liderada por estudantes – que exigiam melhores condições nas escolas e uma reforma no sistema de educação – deu gás aos motins. Os manifestantes, de todo o espetro social, começaram a demonstrar a sua revolta contra a elite chilena, os políticos e o modelo económico liberal, que apesar de ter produzido grande riqueza e tirado milhões de pessoas da pobreza, deixou uma grande parcela da sociedade sufocada, por não conseguir acompanhar o aumento do custo de vida.

A economia chilena é a "mais saudável" entre os países da América Latina e à imagem do que acontece com os países periféricos tem uma forte dependência de "commodities", com o cobre à cabeça. Por isso, quando os mineiros marcaram uma greve para esta quarta-feira, os alarmes soaram.

Segundo o Banco Mundial "o Chile tem sido uma das economias de mais rápido crescimento da América Latina nas últimas décadas, graças a uma sólida estrutura macroeconómica, que permitiu ao país amortecer os efeitos de um contexto internacional volátil e reduzir a população que vive na pobreza (de 30% em 2000 a 6,4% em 2017)".

Depois de crescer a uma taxa de 4% em 2018, o PIB desacelerou para 1,8% no primeiro semestre de 2019, devido ao contexto externo, às condições climáticas adversas e atraso em algumas reformas do governo.

Dada a prosperidade da economia local, John Auters, num artigo de opinião na Bloomberg, escreveu que "se esta contestação acontece em Santiago, pode acontecer em qualquer lado", acrescentando que o facto de os chilenos "se revoltarem contra o custo de vida é alarmante, e sugere uma situação similar no resto dos países desenvolvidos".

Então, porque protestam os cidadãos? O primeiro pilar das contestações é a desigualdade social. A agenda dos Chicago Boys, um grupo de economistas chilenos - baseados na escola livre de Chicago - que formularam a política económica da ditadura do general Augusto Pinochet, impôs um ritmo de crescimento económico forte e estável, mas o país continua a ser um dos mais desiguais do mundo, segundo a OCDE.

Segundo os dados do Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o Chile é o terceiro país da lista com maior desigualdade de rendimentos, apenas superado pela Costa Rica e pela África do Sul.

O salário mínimo do Chile está fixado nos 310 mil pesos, e os dados do instituto de estatística do país mostram que cerca de metade dos trabalhadores recebem um salário igual ou inferior a 400 mil pesos. Outro dos dados que espelha a disparidade económica entre classes que se vive no país foi divulgado pela Comissão Económica para a América Latina: quase 27% da riqueza do país está nas mãos de 1% da população.  

Sebastian Piñera tem um problema em mãos para resolver, e convém fazê-lo antes de 16 e 17 de novembro (ou pelo menos atenuá-lo), altura em que Santiago irá receber a cimeira económica da Ásia-Pacífico – em que os presidentes da China e dos EUA vão participar e onde se espera que selem um acordo comercial.

Desde 18 de outubro, os confrontos têm subido de tom. Entre os cânticos dos manifestantes surgem referências ao anterior governo da Unidade Popular de Salvador Allende, morto num golpe militar, em 1973, que deu origem à ditadura de Augusto Pinochet, em vigor até 1990. 

Durante os três anos de governação (1970-73) Allende promoveu uma política nacionalista no país, nacionalizando as empresas estrangeiras. Pelo contrário, Pinochet assumiu um governo ditatorial assente em bases liberais, sendo reconhecida como a primeira grande experiência neoliberal no mundo.

Pinochet abriu a porta à atuação dos "Chicago Boys", que tinham a tarefa de aplicar um plano liberal na economia do país e que levou à privatização de alguns setores básicos como a saúde ou a educação. Hoje, a base geral deste modelo ainda impera. Em termos de costumes, o Chile continua a ser um país com uma forte componente conservadora. Autorizou o divórcio apenas em 2004 e o aborto em 2017. Neste momento ainda se discute no parlamento uma lei que pode legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.




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