Mundo Dez anos depois economia mundial está à beira de uma recessão?

Dez anos depois economia mundial está à beira de uma recessão?

Há vários alarmes a soar e a apontarem para uma recessão económica. Os juros estão em mínimos, as bolsas estão a perder valor e a incerteza é elevada. Estará a economia mundial a aproximar-se de uma nova recessão, uma década depois da última grande crise?
Dez anos depois economia mundial está à beira de uma recessão?
Bloomberg
Sara Antunes 07 de agosto de 2019 às 20:00

Os mercados bolsistas estão a ser assolados por uma bola de neve. A tensão entre os EUA e a China escalou e elevou as preocupações sobre uma recessão económica. Os investidores refugiaram-se na dívida. Os juros afundaram e a curva das "yields" reforçou a ideia de que se aproxima uma recessão económica. Os dados económicos da Alemanha estão a acentuar esta perspetiva. E hoje, três bancos centrais decidiram cortar os juros, tendo agido de uma forma mais agressiva do que os investidores esperavam. Os alarmes estão a tocar em várias frentes.

 

Os dias têm sido tensos para quem negoceia no mercado bolsista, com perdas elevadas e reações expressivas. O agravar da tensão comercial entre os EUA e a China – que se especula que possa transformar-se também numa guerra cambial – fez tremer os investidores, que anteciparam uma crise económica mundial.

 

Depois da semana passada os EUA terem anunciado que vão avançar com tarifas sobre todos os produtos importados da China, Pequim respondeu com uma desvalorização da moeda. E foi aqui que dispararam os receios de uma guerra cambial. A China recuou e a tensão foi aliviada, mas os investidos continuaram desconfiados.

 

E prova desta desconfiança é a aposta em ativos considerados mais seguros, como ouro – que está a negociar nos 1.500 dólares por onça pela primeira vez desde 2013 – e a dívida soberana – cujos juros estão a cair e a negociar em mínimos históricos.

 

A taxa de juro a 30 anos dos EUA está a descer para 2,148%, aproximando-se do valor mais baixo de sempre (alcançado em 2016 nos 2,099%), mas mais preocupante do que o valor da taxa é a evolução da curva da "yield" – ou seja, a evolução da taxa a três meses face à taxa a 10 anos -, que tem vindo a reduzir-se, com as taxas a estarem muito próximas. Este desempenho faz disparar os receios dos investidores sobre a evolução da economia.

 

A curva de juros dos EUA está mesmo a emitir o maior alerta de recessão desde 2007.

 

Na Alemanha, que já beneficia de juros negativos em todos os prazos (incluindo a 30 anos), a diferença entre os juros a dois e a 30 anos também está a estreitar-se para valores só vistos na crise financeira, há mais de 10 anos.

 

A contribuir para este desempenho dos juros na Alemanha estão os últimos dados económicos divulgados referentes ao país. O indicador de atividade económica, o PMI, publicado na segunda-feira revelou uma deterioração, aumentando os receios sobre uma recessão na maior economia europeia. Hoje, foi revelado que a produção industrial do país registou, no primeiro semestre, a maior quebra em 10 anos, acentuando-se a especulação de recessão no país.

 

Recessão económica
"Os mercados de juros mundiais estão a prever aquilo que parece ser o ‘Armageddon’", afirmou Tom di Galoma, gestor da Seaport Global. "Na nossa perspetiva, a probabilidade de uma recessão dos EUA está nos 80%", acrescentou, citado pela Bloomberg.


Uma das principais responsáveis pelos receios de uma recessão mundial é a guerra comercial entre os EUA e a China. Os EUA ameaçaram aplicar tarifas de 10% sobre mais produtos importados da China, e cujo montante ascende a 300 mil milhões de dólares. A Bloomberg realça que o impacto desta medida – que já mereceu a resposta de Pequim, com uma desvalorização do yuan e a ameaça de não importar mais bens agrícolas dos EUA – poderá não ser grande, o problema está no escalar da tensão. E no potencial aumento de tom.

 

O Morgan Stanley estima que se os EUA impuserem tarifas de 25% sobre todas as importações chinesas durante quatro a seis meses e Pequim retaliar, a economia mundial deverá entrar em contração dentro de três trimestres.

 

O risco de recessão nos EUA "é muito mais elevado do que precisava e muito mais elevado do que há dois meses", salientou à Bloomberg Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro americano. "Podes brincar com o fogo várias vezes e não acontecer nada, mas se abusares provavelmente vais queimar-te", salientou o responsável. Lawrence Summers estima uma probabilidade inferior a 50% de uma recessão dos EUA.

 

Bancos centrais atuam

Este contexto de elevada incerteza já levou à intervenção de vários bancos centrais. A Reserva Federal (Fed) desceu os juros na semana passada, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) já admitiu reduzir os juros dos depósitos para um valor ainda mais negativo.

 

Esta quarta-feira foi a vez de três bancos centrais agirem. Nova Zelândia, Índia e Tailândia avançaram com cortes de juros, com as decisões a surpreenderem os investidores. Os cortes foram mais pronunciados do que estava a ser antecipado, o que fez soar novos alarmes. Estas decisões levaram os investidores a elevarem as suas preocupações com sobre a evolução da economia.

 

Já nos EUA, depois de na semana passada o presidente da Fed ter deixado claro que a descida de juros – que foi de 25 pontos base, quando havia alguma expectativa de que poderia ser de 50 pontos – não era o início de um ciclo. Esta postura travou o entusiasmo dos investidores. E aumentou a ira do presidente dos EUA.


Donald Trump voltou a fazer duras críticas à Fed, acusando os responsáveis de "incompetência" e defendendo que é preciso agir depressa, cortando as taxas de juro.

 

A incerteza é elevada, não se conseguindo perceber qual será o desfecho da guerra comercial entre os EUA e a China, cuja resolução ditará um rumo diferente para a economia mundial. Mas há outras questões: o Brexit, a capacidade da Europa e do Japão crescerem e da economia chinesa acelerar o ritmo estão entre as principais dúvidas. Não esquecendo a tensão no Médio Oriente. Antevêem-se meses agitados.




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