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Estados Unidos ponderam acção “limitada” na Síria e criticam líderes que ficam em “silêncio”

O secretário de Estado americano reforçou a vontade norte-americana de intervir militarmente contra o regime de Assad. “Vamos tomar as nossas decisões segundo o nosso calendário”, declarou. Barack Obama advertiu que ainda não tomou nenhuma decisão.

Larry Downing/Reuters
David Santiago dsantiago@negocios.pt 30 de Agosto de 2013 às 21:42
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Numa comunicação ao país, a partir do Departamento de Estado, John Kerry, secretário de Estado, acusou o regime de Damasco de ter “recorrido várias vezes, em pequena escala, a armas químicas” contra o seu próprio povo. Assegurou que os Serviços de Informação americanos “têm a certeza” da utilização de armas químicas, uma vez que “estamos perante factos”.

 

Depois de afiançar a pretensão da Casa Branca em “continuar a dialogar com o Congresso, com os nossos aliados e, mais importante, com o povo americano”, Kerry prometeu que “vamos tomar as nossas decisões segundo o nosso calendário”.

 

O antigo candidato à Casa Branca revelou que elementos da unidade de armamento químico sírio, três dias antes do ataque de 21 de Agosto, “estavam na área a preparar” o ataque. Acrescentou ainda que “elementos do regime foram preparados para o ataque, sendo avisados para que colocassem máscaras antigás” e garantiu que os misseis contendo gás foram lançados desde “áreas controladas pelo regime”. Foi um ataque em que “morreram pelo menos 1.429 pessoas, e no mínimo 426 eram crianças”.

 

Barack Obama, Presidente americano, falou depois da declaração do seu secretário de Estado. Confirmou não ter tomado “uma decisão final sobre as várias acções que podem ser adoptadas”, acrescentando que “pondera uma acção limitada e reduzida” que não passará pelo recurso a “tropas no terreno” nem por uma acção “de longo termo”. Obama sublinhou que este “é um desafio para o mundo” porque “não podemos aceitar viver num mundo onde as pessoas inocentes são gaseadas nesta escala terrível”.

 

A comunicação de Kerry ao país serviu, também, para que a Administração americana pudesse elencar aquilo que classifica de “factos”. “Sabemos que um responsável sírio confirmou este ataque. Sabemos o que fizeram depois. Eu próprio pedi que dessem total acesso, aos inspectores da ONU, à zona afectada. Em vez disso impediram, durante quatro dias, o acesso à zona atacada, para poderem esconder as evidências”.

 

John Kerry não quis deixar passar em branco a votação, da passada quinta-feira, no Parlamento inglês, nem a posição de alguns países como Itália ou Alemanha, que se mostram contrários a qualquer tipo de intervenção sem o apoio das Nações Unidas. “A história está cheia de líderes que ficaram em silêncio”, lembrou. Talvez por isso tenha classificado a França, que esta sexta-feira mostrou disponibilidade para uma intervenção contra Assad, como o “nosso mais antigo aliado”. John Kerry fez ainda referência à Liga Árabe, à Turquia e à Austrália por terem condenado Damasco e, posteriormente, demonstrado disponibilidade para intervir.

 

Segundo Kerry a “história irá julgar-nos duramente se não agirmos” o que na óptica da Administração Obama significa que “a credibilidade americana está em jogo”.

 

Em relação ao resultado da investigação dos inspectores da ONU, que só no sábado vão abandonar a Síria e apresentar resultados preliminares sobre o ataque de 21 de Agosto, Kerry afirmou ter “muito respeito pelos inspectores que estão no terreno, mas Ban Ki-moon disse várias vezes que os inspectores não vão confirmar quem perpetrou o ataque”. Por definição “o seu próprio mandato não poderá esclarecer-nos sobre nada que já não saibamos”, concluiu.

 

Esta comunicação de John Kerry fica marcada, por um lado, pela tentativa de convencimento, da opinião pública americana, para a necessidade de uma atitude de cariz militar perante o regime de Assad, e, por outro lado, por uma demonstração internacional do tradicional messianismo americano, seguidor da Doutrina de Wilson.

 

Kerry reconheceu a importância de “falar sobre o tema com os americanos” e foi esta a

A história irá julgar-nos duramente se não agirmos.
 
John Kerry
Secretário de Estado dos
Estados Unidos

explicação para a divulgação de material, entretanto desclassificado, recolhido pelos Serviços de Informação americanos. “Leiam estas informações” foi o pedido deixado por Kerry.

 

Depois de garantir que a “Intelligence” americana analisou de forma exaustiva os dados recolhidos, até para não repetir “os erros” da intervenção no Iraque, justificou a divulgação pela necessidade de “falar com o povo sobre esta questão”.

 

A intervenção no Iraque mantém o seu peso na sociedade americana. Por esta razão, Kerry mantém que não haverá qualquer “semelhança com o Afeganistão, Iraque ou sequer a Líbia”, tendo salvaguardado que não “haverá tropas no terreno, porque não vou assumir responsabilidade numa guerra civil que já corre o seu caminho”.

 

“Sabemos que depois de uma década de conflitos, os americanos estão cansados de guerra. Acreditem, eu também. Mas a fadiga não absolve a nossa responsabilidade”. Reconheceu, porém, que o conflito na Síria deve passar por “uma solução política e não uma solução militar”.

 

A Reuters noticiou, ao final desta sexta-feira, que Cameron e Obama voltaram a conversar, via telefone, sobre os últimos acontecimentos. Ao longo desta conversa terá sido reforçada a ideia de uma “cooperação, em questões internacionais, e reiterada a determinação [conjunta] na busca de uma solução política para o conflito sírio”. Obama também terá voltado a conversar com François Hollande, Presidente francês.

 

Ainda segundo a Reuters, o primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, defendeu que uma intervenção na Síria deverá ter como objectivo a deposição de Assad. “Não pode ser uma acção de 24 horas”, defendeu Erdogan, porque “o importante é parar com o derramamento de sangue e enfraquecer o regime até ao ponto deste cair”.

 

A Comunidade Internacional não atingiu, até ao momento, uma base de acordo que permita uma acção conjunta. Uma acção no âmbito do Conselho de Segurança estará inviabilizada dada a provável discordância da Rússia, que dispõe de direito de veto e é o principal fornecedor de armamento do regime de Assad. Só no sábado serão conhecidos os resultados preliminares da investigação dos inspectores da ONU. Até lá,  não deverá surgir nenhuma tomada de posição definitiva.

 
Aumenta o número de americanos que apoia uma intervenção na Síria

Uma sondagem online feita, ao longo desta semana, pela “Reuters”, em conjunto com a “Ipsos”, revela que 53% dos americanos não pretendem que os Estados Unidos se envolvam na guerra civil síria. O número de americanos contra uma intervenção na Síria desceu 7% desde a semana passada, altura em que 60% estavam contra qualquer tipo de ingerência. Enquanto na semana passada somente 9% dos americanos consultados se mostraram a favor de uma acção militar, esta semana o número subiu para os 20% da amostra.

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