Mundo Kuwait é o mais recente aliado saudita a cortar laços com o Irão

Kuwait é o mais recente aliado saudita a cortar laços com o Irão

Continua a aumentar o rol de aliados sauditas que decidiram diminuir laços com Teerão. O Irão garante que Riade não poderá encobrir um "crime" ao cortar relações diplomáticas. E as Nações Unidas condenam o ataque à embaixada saudita no Irão.
Kuwait é o mais recente aliado saudita a cortar laços com o Irão
Raheb Homavandi/Reuters
David Santiago 05 de janeiro de 2016 às 13:37

Depois do Sudão, dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein, foi agora a vez do Kuwait reduzir o grau de relações diplomáticas com o Irão. O Kuwait é assim o mais recente aliado saudita a alinhar com a monarquia sunita da Arábia Saudita neste braço-de-ferro com o Irão.

 

Esta terça-feira, 5 de Janeiro, o Kuwait mandou regressar ao país o embaixador destacado no Irão, não avançando com detalhes sobre esta decisão, ficando assim por saber se o Kuwait vai cortar completamente relações diplomáticas com Teerão.

 

Ontem, Sudão e Bahrein já haviam cortado relações diplomáticas com o Irão, a que se juntaram os Emirados Árabes Unidos, um importante parceiro comercial do Irão que decidiu mandar regressar a casa o embaixador naquele país. Esta série de movimentações diplomáticas acontece depois de no sábado passado a Arábia Saudita ter executado quase meia centena de pessoas, entre as quais o xeque xiita Nimr al-Nimr, a que se seguiu um ataque à embaixada saudita no Irão.

 

Tal como sucedera na segunda-feira, ao movimento de alinhamento dos aliados sunitas contra o xiita Irão, a comunidade internacional responde com apelos à calma e ao esfriar da tensão entre Teerão e Riade.

 

Além das Nações Unidas e da Turquia, que nas últimas horas pediram contenção, também os Estados Unidos voltaram a pedir um recuo na retórica inflamada entre os dois países que configura a maior crise das últimas décadas entre estes rivais. As Nações Unidas condenaram o ataque à embaixada saudita, notando ter sido colocado em causa "o princípio fundamental da inviolabilidade dos recintos diplomáticos e consulares", mostrando ainda "profunda preocupação" pelos acontecimentos subsequentes. 

 

Tendo em conta o total corte de relações (comerciais e diplomáticas) decretado por Riade, o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, ofereceu-se entretanto para mediar o retomar de conversações entre os contendentes.

 

Irão avisa Arábia Saudita. Estados Unidos recusam mediar conflito

 

A Arábia Saudita não poderá esconder o crime de decapitar um líder religioso.
Hassan Rouhani

À decisão de Riade, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, respondeu afirmando que a Arábia Saudita não poderá, com o corte de relações decretado, esconder o que designa de "crime" e que passa pela execução do activista xiita, um defensor da minoria saudita deste ramo do islão.

 

"A Arábia Saudita não poderá esconder o crime de decapitar um líder religioso cortando as relações políticas com o Irão", proclamou Rouhani, citado pela Reuters, durante um encontro com o ministro dinamarquês dos Negócios Estrangeiros, Kristian Jensen.

 

Numa aparente tentativa de aproximação, Rouhani sustentou ser através da "diplomacia e de negociações" que os problemas entre países podem ser resolvidos.

 

No entanto, apesar dos apelos ao diálogo, os Estados Unidos recusam assumir o papel de mediador neste processo. Depois da aproximação alcançada após longos anos de afastamento face ao Irão, Washington, que desde a revolução islâmica iraniana de 1979, protagonizada pelo ayatollah Khomeiny, encontrou em Riade o maior aliado no Médio Oriente, foi agora apanhado no meio de um turbilhão entre duas potências que aspiram conquistar a supremacia regional. O Washington Post cita o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, John Kirby, que afiança que estas questões terão de ser resolvidas pelos próprios intervenientes directos.

 

E se Washington já tinha avisado, desta feita foi o ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Frank-Walter Steinmeier, que, em declarações ao Bild, advertiu que a disputa Irão-Arábia Saudita irá dificultar a guerra contra o terrorismo, pedindo "responsabilidade" como a única forma de evitar novos conflitos.

 

Conflito intensifica combates no Iémen

 

Começam também a sentir-se as primeiras réplicas da tensão vigente entre Teerão e Riade em dois países onde estas capitais lutam em guerra por procuração: Iémen e Síria.

 

No Iémen, onde a Arábia Saudita lidera uma coligação internacional no combate aos xiitas houthis, por sua vez apoiados pelo Irão e pelo Hezbollah, as últimas horas confirmaram um intensificar dos bombardeamentos sauditas contra as posições detidas pelos "rebeldes" houthis.

 

Por outro lado, na Síria grupos oposicionistas sunitas do regime liderado por Bashar al-Assad, um aliado iraniano na região, apelaram a todos os estados árabes para cortarem relações com o Irão. Estes grupos, muitas vezes financiados por famílias ricas da Arábia Saudita, pretendem derrubar Assad para instituir um regime sunita no país.

Depois de a Turquia e a Rússia terem, no Verão passado, entrado em definitivo no cenário de guerra sírio, e já depois dos ataques terroristas perpetrados pelo autoproclamado Estado Islâmico (EI), a comunidade internacional acabou por agendar, para o próximo dia 25 de Janeiro, um encontro com o objectivo de discutir o problema sírio. O conflito entre Riade e Teerão poderá colocar em causa as pretendidas negociações de paz.




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