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Reportagem: A guerra que afecta sírios e libaneses, de Daraa ao vale do Beqaa

Marian Hamad Kounbos, Hessen Mohamad e os seis filhos viviam em Daraa, Síria, até 2013, mas as bombas e os combates nas ruas levaram-nos ao vale do Beqaa, no Líbano, onde vivem hoje, doentes e sem dinheiro.

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Lusa 20 de Novembro de 2015 às 09:25
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Fugir da guerra para uma situação de miséria, mas com alguma segurança, é uma história comum aos refugiados sírios no Líbano, mas a de Marian e Hessen é um pouco pior. Com uma doença congénita, um dos filhos também, o casal não pode trabalhar e o homem nem da cama sai. Pior, têm de tomar medicamentos diariamente para os quais não há dinheiro, tão pouco o têm para pagar a renda de uma casa que dividem com mais três famílias, 16 pessoas ao todo.

 

Em Daraa já estavam doentes, mas a vida não era má. Tinham uma pequena loja, que não obrigava Hessen a muitos movimentos, dois filhos no exército, amigos e família por perto. As bombas que lhe caiam à porta de casa obrigaram-nos a fugir.

 

Em Beqaa, sem dinheiro nem medicamentos, receberam hoje a visita de uma assistente social da Cáritas (organização humanitária da Igreja Católica), que estuda a forma de os ajudar, ainda que seja sempre algo temporário.

 

Marian não se importa, porque a sua vida é agora assim. "Não pensamos no futuro, pensamos em sobreviver dia a dia", diz. E quer voltar a casa? Marian chora como resposta. "A paz na Síria só Deus sabe".

 

Mireille Saliba Haddad, a assistente social, garante à Lusa que a Cáritas vai ajudar, embora ainda esteja a estudar a melhor forma. "Os pedidos são muitos, trabalho com pessoas enviadas por oito hospitais", justifica.

 

Se a vida dos refugiados sírios em Beqaa é difícil, também não é fácil a da Cáritas no Líbano, a braços com a entrada de milhares de pessoas.

 

Wissam Tannous, o responsável da organização no vale do Beqaa, diz à Lusa que estão a trabalhar desde 2011 e que têm projectos na área da Educação, Saúde e apoio social (alimentos e dinheiro) e psicológico.

 

No vale têm quatro centros e milhares de refugiados na base de dados, apesar de os apoios irem escasseando. "O objectivo é tentar manter os mesmos apoios com os fundos mais reduzidos que vamos tendo", diz.

 

"Esperamos que os países europeus possam ajudar, porque não são só os países da região que têm de suportar", diz, reconhecendo o apoio da Cáritas de Portugal e, por ela, da Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR).

 

Rui Marques, coordenador da PAR, disse à Lusa que o programa "Linha da Frente" consiste em apoiar 150 famílias (quase mil pessoas) durante seis meses, na área do apoio alimentar e médico.

 

Tudo resultante de dinheiro doado pelos portugueses, "uma boa ideia" segundo Tannous, que entende que uma questão humanitária, como a que resulta da guerra na Síria, deve empenhar o mundo inteiro e não só os países mais afectados. "Dez dólares podem ajudar estas pessoas sem esperança".

 

Junto da delegação da Cáritas em Beqaa, na vila de Zahlé, a assistente social Maria Abou Diwon não é mais optimista. Fala do trabalho no vale, fala dos refugiados que vivem em casas, mas também dos que vivem em tendas improvisadas, fala do inverno que está a chegar.

 

"A situação é muito grave para os que vivem nos campos de refugiados", diz. Porque o Inverno é frio, cai muita neve em Beqaa e as tendas não suportam o peso. Maria fala depois da crise económica no Líbano, que, diz, os refugiados fizeram aumentar, e termina a repetir o que outros já disseram: há refugiados que pedem ajuda e depois desaparecem, se calhar a caminho da Europa. "Há muita gente a morrer no mar".

 

Não muito longe e mesmo ao lado de um campo de refugiados, Michel Mechref parece mais optimista. Numa clínica móvel, atende doentes, a maior parte mulheres e crianças. É o que faz há quatro anos para a Cáritas e diz que, ainda assim, a situação, em termos de saúde, está melhor.

 

Tem vacinas, medicamentos gratuitos. Atende 85 a 100 pessoas por dia, com as doenças mais comuns - dermatológicas, respiratórias, gastrointestinais - e "problemas psicológicos". E tem uma visão diferente da questão dos refugiados: "São seres humanos, sinto que os devo ajudar e que podem ficar aqui. Isso será bom para o nosso país".

 

Tannous tinha dito, minutos antes, que a presença de tantos sírios "passou a ser um problema". E tinha dito também: "Há uma sensação de que não estamos seguros na nossa terra, como estávamos antes".

 

Do outro lado de Zahlé, num quarto com tapetes pelo chão e colchões amontoados, Marian chora quando lhe perguntam se gostaria de voltar à Síria. Era o que mais queria.

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