Política Monetária Draghi: "Agora é o momento de haver mais Europa, não menos"

Draghi: "Agora é o momento de haver mais Europa, não menos"

Perante alguns líderes europeus e a sua sucessora, Mario Draghi fez um discurso de esperança sobre o futuro da União Europeia após oito anos à frente do BCE.
Draghi: "Agora é o momento de haver mais Europa, não menos"
Reuters
Tiago Varzim 28 de outubro de 2019 às 16:08
Foi uma mensagem mais política que Mario Draghi deixou esta segunda-feira, 28 de outubro, na cerimónia de despedida do seu cargo enquanto presidente do Banco Central Europeu (BCE). Num discurso focado no futuro, o italiano classificou os 20 anos da União Monetária, dos quais oito esteve à frente do BCE, como um sucesso e assegurou que o "euro é irreversível". 

No seu discurso final, o presidente do BCE afirmou que, na "verdadeira tradição do federalismo", "agora é o momento de haver mais Europa, não menos". E simplificou: onde os resultados podem ser melhores com as políticas nacionais, deixem ficar assim; mas onde só seja possível ter melhores resultados trabalhando em conjunto, a Europa tem de se manter unida. 

Draghi fez, assim, um discurso contra o nacionalismo, argumentando que a "verdadeira soberania", num mundo globalizado, "só pode ser alcançada com trabalho conjunto". Desde proteger os interesses da Europa na economia mundial a resistir às pressões do estrangeiro, influenciar as regras mundiais com os padrões europeus ou forçar os valores europeus nas empresas globais, "nada disto pode ser feito no mesmo grau pela ação isolada dos países".

"Num mundo globalizado, partilhar a soberania é uma forma de reconquistar soberania", apontou. Exemplo disso, referiu, foi a forma como se construiu o mercado único cujo objetivo era ter uma "globalização controlada" em que se combinou a concorrência entre empresas com níveis de proteção social e de proteção do consumidor "sem paralelo no resto do mundo".  

É com base na ideia do euro como um projeto político que é "irreversível" que Mario Draghi consolida as mensagens que já tem vindo a deixar nos últimos discursos. A primeira mensagem é para o exterior e está relacionada com um tema que marcou o seu mandato: a estabilidade do euro. "O BCE provou que não irá aceitar ameaças à estabilidade monetária causadas por medos sem fundamento sobre o futuro do euro", afirmou. 

A segunda mensagem prende-se com um dos temas em que tem colocado ênfase: a construção de uma capacidade orçamental ao nível da Zona Euro para lidar com o ciclo económico. Draghi reconheceu que não há uma solução "perfeita" e de que o caminho é "longo", mas argumentou que esta é uma peça fundamental numa União Monetária, como demonstra a história dos Estados Unidos. 

"Nos EUA, foi a necessidade de ultrapassar a Grande Depressão que levou à expansão do orçamental federal na década de 1930. Talvez, para a Europa, irá ser necessária uma causa urgente como a mitigação das alterações climáticas para que haja um foco coletivo como esse", notou Draghi, referindo que os países devem "reconhecer" que a "partilha de riscos pode ajudar a reduzir os riscos [nacionais e europeus]", o que fortaleceria a Zona Euro e os próprios países.

No final do discurso, Draghi fez questão de agradecer o apoio dos líderes europeus pelo "apoio inesgotável", principalmente "numa altura em que outros dos principais bancos centrais têm enfrentado cada vez mais pressão política vocal".

"É mais fácil deixar o BCE sabendo que fica nas mãos de Lagarde"
Mario Draghi foi o último a discursar na cerimónia, logo após a sua sucessora, Christine Lagarde, que será a primeira mulher a presidir ao BCE a partir de 1 de novembro. O italiano fez, por isso, questão de dizer, tal como tinha referido a chanceler Angela Merkel no primeiro discurso da tarde, que "é mais fácil deixar o BCE sabendo que fica nas mãos de Lagarde". 

Momentos antes, a francesa tinha elogiado aquilo que apelidou de "a abordagem de Draghi", recordando os contributos que o italiano deu em vários fóruns, seja no Fundo Monetário Internacional (FMI) ou no Eurogrupo, duas instituições em que se cruzaram no passado.

Christine Lagarde elogiou Draghi pela sua capacidade de "quebrar o ciclo vicioso" durante a crise das dívidas soberanas através da sua "criatividade e visão". "[Mario Draghi] deu confiança a todos, inclusive aos políticos", afirmou a ex-diretora-geral do FMI, agradecendo ao seu antecessor por deixar o BCE "bem equipado" para lidar com uma crise. 

No final do seu discurso, Lagarde confidenciou que ambos partilham a paixão pela música e dedicou uns versos da canção "Anthem" de Leonard Cohen a Mario Draghi.



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