Política Monetária Draghi: Bancos portugueses e italianos têm de conseguir vender malparado em mercado

Draghi: Bancos portugueses e italianos têm de conseguir vender malparado em mercado

O presidente do BCE considerou os elevados níveis de malparado “um problema”, mas também propôs a solução, e ela implica apoio público. Declarações de Draghi levaram acções da banca a subir.
Draghi: Bancos portugueses e italianos têm de conseguir vender malparado em mercado
Bloomberg
Rui Peres Jorge 21 de julho de 2016 às 16:01

Mario Draghi não foi tão longe quanto o FMI em considerar que a fragilidade e os elevados níveis de crédito malparado em Portugal e Itália constituem um risco para a estabilidade da Zona Euro, mas reconheceu que representam um problema, que é preciso tratar "tão rápido quanto possível", sendo certo que levará sempre tempo. A boa notícia é que em Frankfurt parece haver uma ideia clara de como se pode resolver o problema: os bancos têm de conseguir vender esses créditos em mercado para limparem os respectivos balanços e voltarem a poder ser rentáveis e a emprestar dinheiro à economia. E para isso é essencial que os governos criem um enquadramento legal adequado e, tão ou mais importante, que sejam criados mecanismos de apoio público que evitem que os títulos sejam vendidos a preço de saldo.

"Os créditos malparados são um problema significativo para os lucros futuros e para a capacidade dos bancos concederem crédito. É um problema que tem de ser tratado", defende o presidente do BCE que, de seguida, propôs a solução, lembrando no entanto que esta é uma questão que levará sempre algum tempo a resolver. "Foi assim em quase todo o lado", defendeu.

"A solução é baseada em três pilares: em primeiro lugar é necessária uma supervisão consistente, em segundo lugar é necessário desenvolver um mercado funcional para crédito malparado; e em terceiro lugar é necessária a acção dos governos, que podem ajudar a criar este mercado através de alterações legislativas ["de forma a que possam ser transaccionados de forma fácil"], e talvez de um sistema de apoio público que evite vendas a preços de saldo", afirmou o Mario Draghi.

Mais à frente viria a considerar que o "apoio público, respeitando as regras da Comissão Europeia, seria muito útil", como forma de evitar vendas a preços de saldo que aumentariam as perdas dos bancos, exigindo recapitalizações públicas, com inevitáveis resoluções de instituições e perdas para investidores.

As declarações de Mario Draghi vão ao encontro dos planos que estão a ser desenhados em Itália – e olhados com atenção em Portugal – de criar um mercado de titularização de créditos malparados, suportado num sistema de garantias públicas que, pelo menos parcialmente, proteja os compradores de perdas.

Esta é uma forma incentivar compras e vendas a preços "justos". A ideia por detrás deste tipo de mecanismo é a de que existe uma falha de mercado, que resulta dos investidores estarem receosos em excesso em relação à qualidade destes activos, o que impede a sua transacção a preços de mercado.

Um problema que se coloca é que à luz das regras europeias de concorrência, os governos podem criar um mecanismo de garantias sem problema, mas estas têm de ser "vendidas" aos compradores a preços de mercado. Isto apesar de não haver qualquer mercado.

As declarações de Draghi, embora cuidadosas e diplomáticas em relação aos poderes da Comissão Europeia, e em particular da Direcção-geral da Concorrência, dão força aos que defendem uma solução mais expedita para o mal-parado na Europa que inclua apoio dos governos. As acções dos bancos reagiram positivamente.

Às 15:30 de Lisboa, uma hora após as declarações de Draghi, o índice Stoxx600 para a banca, composto por 48 membros, estava a subir 1,25%, com apenas seis cotadas em queda. A liderar os ganhos estava o italiano Banca Popolare Emilia Romagna, a subir 4,96%, seguido pelo Unicredit, que ganhava 4,17%. As subidas foram generalizadas: o espanhol Popular apreciava 4,3% enquanto o Santander estava a valorizar-se mais de 2,5%. O alemão Deutsche Bank também estava a ganhar mais de 3,5%. E na banca portuguesa, o destaque ia para o BCP, ao apreciar 3,61% para 0,201 euros.


Em geral, Mario Draghi considerou que "os bancos da [Zona Euro] estão melhor, até muito melhor do que antes" da crise, melhor capitalizados e beneficiando de uma estruturar de supervisão e regulação mais robusta.

Portugal e Itália juntos na dívida
Portugal, como Itália, permanece com níveis elevados de crédito malparado, e este é um dos factores que está a impedir a concessão de novo crédito à economia, concordam a generalidade das análises publicadas sobre a economia nacional. Os bancos nacionais contam com quase 20 mil milhões de euros de créditos em incumprimento, o que representa quase 10% da carteira de créditos e 11% do PIB. No caso italiano, os empréstimos em incumprimento ascendem a 200 mil milhões de euros (12% do PIB ) e representam apenas 60% de uma carteira de activos tóxicos avaliada de 370 mil milhões de euros. Os dois países não criaram estruturas específicas para lidar com este problema durante a crise, em parte pelos elevados níveis de dívida pública (próximos de 130% do PIB), mas também pela resistência da banca, que se veria forçada a registar perdas, o que implicaria volumosas necessidades de recapitalização.  
Espanha e Irlanda mais rápidas Espanha e Irlanda atacaram o problema do crédito malparado mais cedo do que Portugal e Itália, enquadrando-o no contexto dos respectivos programas de ajustamento, com a criação de bancos maus que compraram carteiras de crédito aos bancos, a preços subsidiados, e que agora estão a gerir. É o caso da NAMA criada em 2009 na Irlanda, ainda antes do resgate que se confirmou em 2010; e o SAREB, o equivalente espanhol, criado em 2012, e que tem 45% de capital público (os restantes 55% são detidos pelos bancos). Estas soluções implicaram aumentos significativos da dívida pública e, pelo menos no caso espanhol, também "ajudas de Estado" (os créditos foram comprados pelos bancos maus a um preço acima do valor de mercado, minimizando as perdas para as instituições financeiras) que, de acordo com as actuais regras europeias de concorrência, dificilmente seriam hoje aprovadas por Bruxelas.



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