Política Monetária Guia para perceber a importância da reunião da Fed

Guia para perceber a importância da reunião da Fed

O que é? Quem decide? Qual o impacto? No dia em que se inicia mais uma reunião de política monetária nos EUA, o Negócios responde a estas e outras perguntas sobre aquela que poderá ser a primeira subida dos juros em quase uma década. Um conjunto de 15 explicações que o ajudam a compreender a magnitude da decisão que poderá ser anunciada já esta quarta-feira.
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André Tanque Jesus 16 de dezembro de 2015 às 09:10

A última vez que a Reserva Federal dos EUA (Fed) subiu a taxa de juro de referência foi em 2006. Nove anos e muitos cortes depois, é quase unânime que o banco central agora liderado por Janet Yellen dará novamente esse passo esta quarta-feira, 16 de Dezembro, na conclusão de mais uma reunião de política monetária. Após vários meses de contras, sobressaem agora os prós da economia na defesa do passo histórico. Por isso, no dia em que termina o encontro, o Negócios explica-lhe o que mais importante precisa de saber em torno da taxa de juro de referência, bem como os impactos que a subida, a acontecer, terá nos mercados e na economia.

 

1. O que é a taxa de juro de referência?

A taxa de juro de referência é a principal ferramenta de política monetária dos bancos centrais. Conhecida por representar "o preço do dinheiro", esta afecta directamente todas as dimensões da economia, com a mais importante a ser o impacto na estabilidade dos preços. É que a taxa de juro de referência regula a quantidade de dinheiro que circula na economia que, por sua vez, afectará a inflação. Um corte na taxa aumenta a massa monetária e, consequentemente, o banco central espera atingir um aumento da inflação. Por outro lado, uma subida do preço do dinheiro reduz a circulação de moeda e trava a subida dos preços. Contudo, a Fed tem um duplo-mandato. Além de procurar alcançar uma inflação de 2%, tem como objectivo o pleno emprego.

 

2. Quem toma as decisões sobre a taxa de juro nos EUA?

No caso das economias que contam com um banco central, qualquer oscilação à taxa de juro de referência fica a cargo do mesmo. Na maior economia do mundo, esta instituição dá pelo nome de Reserva Federal dos EUA, actualmente liderada por Janet Yellen. Mais concretamente, a política monetária nos EUA é definida pelo Comité Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla anglo-saxónica). Um painel composto por 12 responsáveis, dos quais sete são os membros do Conselho de Governadores da Fed. Junta-se ainda o presidente da Reserva Federal de Nova Iorque e quatro líderes das restantes nove delegações do banco central, sendo distribuídos por mandatos anuais rotativos.

 

3. O que o FOMC tem em conta antes de tomar qualquer decisão?

São vários os indicadores que a Fed pondera em todos os seus encontros de política monetária. A avaliação em torno do momento ideal para iniciar a normalização da política monetária – subida da taxa de juro de referência para níveis médios – terá em conta "indicadores sobre as condições do mercado laboral, indicadores sobre as pressões inflacionárias e expectativas de inflação, bem como leitura dos desenvolvimentos financeiros e internacionais", tal refere a instituição no seu site. Por isso, antes de todas as reuniões, as 10 delegações da Fed recolhem dados sobre a evolução da economia nas respectivas jurisdições, que depois dá origem ao "Livro Bege". Além disso, vários departamentos da instituição monetária realizam apresentações orais durante a reunião, expondo os últimos desenvolvimentos internacionais e dos mercados financeiros.

 

4. Qual é a necessidade de subir a taxa de juro?

A falência do Lehman Brothers sucedeu à bolha no mercado imobiliário norte-americano. Instalou-se o pânico nos mercados financeiros e a economia dos EUA travou a fundo. Por isso, a Fed cortou a taxa de juro em Dezembro de 2008 para o actual mínimo histórico, entre 0% e 0,25%. O objectivo da medida era impulsionar a recuperação no país, algo que a instituição monetária tem alcançado. Graças a esta recuperação, vários especialistas têm incentivado a Fed a subir os juros, argumentando que, a continuarem em mínimos, poderão ter o efeito contrário e afectar fortemente a economia. Se não subir os juros, corre o risco, por exemplo, de criar uma bolha nas acções e outros activos dos mercados financeiros, devido ao excesso de liquidez na economia, proporcionado pelo "dinheiro barato".

 

5. O que está a Fed à espera para subir os juros?

Apesar de, nos últimos meses, ter vindo a reconhecer os sinais cada vez mais animadores, a Fed aponta sucessivamente os mesmos defeitos à economia norte-americana. "A inflação continua abaixo do objectivo de longo prazo do Comité" e "os indicadores de expectativas de inflação baseados em inquéritos ficaram estáveis", apontaram os responsáveis em várias minutas de reuniões de política monetária. Contudo, Janet Yellen veio recentemente defender a robustez da economia. "Os ganhos actuais no mercado laboral, juntamente com as espectativas para a inflação a longo prazo se mantêm razoavelmente bem ancoradas, justificam a minha confiança de um retorno da inflação em torno dos 2%", disse a 2 de Dezembro, perante o Comité Económico do Congresso norte-americano. Outra preocupação recente foi a turbulência criada pela China nos mercados mundiais. Mas com a dissipação, até esse deixou de ser um obstáculo a Janet Yellen.

    

6. Mas a inflação ainda está pior do que antes da crise?

Muito pior. Actualmente, a taxa de inflação está em 0,5%, segundo os dados publicados pelo Departamento de Estatísticas Laborais dos EUA. Esta taxa era de 5,4% no final de Agosto de 2008, mesmo antes da falência do Lehman Brothers. Apesar de claramente positiva, esta taxa fica bastante abaixo do objectivo de longo prazo da Fed: 2%. Muito próximo deste era o nível registado antes da crise do "subprime". Em Julho de 2007, a inflação fixou-se em 2,4%.

 

7. E como está o desemprego?

Se a inflação está longe do objectivo da Fed, o mesmo não se pode dizer do desemprego. Após atingir um máximo de 10% em Outubro de 2009, a taxa de desemprego está agora em 5,0%, também segundo os dados do Departamento de Estatísticas Laborais dos EUA. Um valor bastante positivo, até porque está um ponto percentual abaixo do registado em Agosto de 2008. Tal como no caso anterior, convém comparar com a taxa de desemprego registada antes da crise do "subprime" – era de 4,7% -, já que esteve na origem dos primeiros impactos negativos infligidos na economia norte-americana.

 

8. Como mede a Fed a turbulência nos mercados?

Não há indicadores directos que permitam aferir o nervosismo dos investidores. Contudo, a Fed tem departamentos responsáveis por monitorizar a evolução dos mercados nacionais e estrangeiros, bem como os impactos mútuos. Além disso, vários bancos de investimento desenvolvem análises à volatilidade dos mercados. Por fim, há índices que seguem a volatilidade registada nos mercados accionistas. Exemplo disso é o VIX, que se baseia na negociação do S&P 500. Actualmente, este está nos 21,19 pontos, quando nos meses que antecederam a falência do Lehman Brothers oscilou entre 15 e 30 pontos. Mas a turbulência vinda da China levou este indicador a superar os 40 pontos em Agosto, justificando as preocupações da Fed em relação à instabilidade financeira.

 

9. A acontecer, qual será o impacto nas bolsas norte-americanas?

A descida das taxas de juro de referência impulsiona a alavancagem das economias e, por essa via, tende a incentivar a aposta nos mercados accionistas, levando à valorização das bolsas. Mas o contrário também é verdade. A subida do preço do dinheiro aumenta a remuneração de activos com menos risco - como é o caso das obrigações soberanas -, retirando o apetite por acções. O que não significa que estas registarão fortes quedas graças à subida dos juros. Ainda assim, com a perspectiva de um "sim" da Fed, os bancos de investimento têm desaconselhado o investimento em acções norte-americanas, à excepção das que têm grande capitalização.

 

10. As acções europeias também serão penalizadas?

O Goldman Sachs analisou as subidas dos juros nos EUA desde 1976, bem como a evolução das acções europeias antes e depois das subidas dessas decisões. A conclusão é que estas acções tendem a valorizar 12% no ano que antecede a subida dos juros e entre 6% e 8%, no ano seguinte. O banco nota que as acções europeias valorizam apenas 4% este ano, mas destaca que apenas se deveu à turbulência vinda da China. Além disso, o Goldman Sachs acredita que a subida dos lucros na Europa continuará a impulsionar os títulos.

 

11. E o que acontece aos juros da dívida?

Em períodos de abrandamento da inflação, os juros das obrigações tendem a recuar. Isto porque diminui a perda de ganhos dos investidores, derivada da subida dos preços. Desta forma, o raciocínio inverso é também verdade. Por isso, é expectável que as obrigações soberanas dos EUA registem uma subida dos juros após o primeiro aumento da taxa de referência da Fed. Já no que toca à dívida soberana do Velho Continente, a perspectiva não é melhor. Há analistas que defendem que a subida dos juros nos EUA atrairá os investidores para esse mercado, devido às maiores rendibilidades. Isto fará com que haja menos procura por títulos na Europa, levando a uma subida das taxas de juro das obrigações.

 

12. A subida dos juros terá impacto no euro?

A leitura imediata de uma subida dos juros é que a economia norte-americana está a evoluir a bom ritmo. Desta forma, o dólar tenderá a valorizar, uma vez que as moedas tipicamente representam a robustez de uma economia. Ou seja, quanto melhor for a economia de um país, maior será o valor da sua moeda. O euro irá, assim, desvalorizar face à congénere norte-americana. Até porque o BCE aumentou os estímulos na economia este mês, com um corte na taxa de depósitos e o prolongar das compras de activos. E a perspectiva é que, a haver alguma alteração, será no sentido de reforçar as medidas.

 

13. Como é que isso afecta as exportações portuguesas?

À partida, a venda de bens e serviços por Portugal terá condições beneficiar com a subida de juros da Fed. Isto porque a possível valorização do dólar face ao euro aumentará o poder de compra de cidadãos e empresas norte-americanas em relação à Zona Euro. Com a moeda norte-americana mais forte, as exportações da região – incluindo as de Portugal – tornam-se mais atractivas para os EUA, impulsionando a procura pelas mesmas.

 

14. O que acontece aos preços dos combustíveis?

Se o poder de compra dos EUA aumenta face à Zona Euro, o inverso também acontece. Isto é, Portugal e os restantes membros da união monetária passam a ter de pagar mais pelos bens e serviços importados dos EUA, que têm o preço em dólares. Uma vez que a cotação do petróleo e dos seus derivados – gasolina e gasóleo – é denominada na moeda norte-americana, comprar estes produtos tornar-se-á mais caro. Uma evolução que terá um reflexo quase imediato no mercado. Desta forma, com a desvalorização do euro face ao dólar, pagará mais por cada vez que quiser abastecer o seu carro.

 

15. Este é o único efeito negativo?

A resposta é um claro não. Tal como explicado acima, terá de pagar mais por qualquer importação de bens e serviços vindos dos EUA, já que estes são, normalmente, contabilizados em dólares. Este efeito será ainda mais visível se, por outro lado, deslocar-se ao país. Aí verá que a taxa de câmbio tornou-se menos vantajosa. Por exemplo, se actualmente poderá receber 1,09 dólares por cada euro que quiser converter, no futuro corre o risco de receber apenas um dólar. É que vários bancos prevêem a paridade entre as duas moedas, apesar de também justificarem a estimativa com a política de expansão monetária que o BCE tem em curso.




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