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Por que quer o BCE inflação “abaixo, mas perto dos 2%”?

A inflação da Zona Euro caiu para 0,7% em Outubro, um mínimo de quatro anos e pode continuar a baixar, afastando-se da meta de 2% do BCE. Mas por que é que este valor é tão importante?

Rui Peres Jorge rpjorge@negocios.pt 07 de Novembro de 2013 às 17:45
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Por que é importante a estabilidade de preços?

A grande preocupação dos bancos centrais – e do BCE em particular por incorporar os receios históricos da Alemanha com a inflação – passa por garantir a estabilidade de preços, sendo que a missão mais frequente é a de evitar períodos de inflação alta, que gerem perdas de poder de compra e criem incerteza quanto ao valor real dos salários e do dinheiro.

 

No entanto, há momentos, em recessão, em que o inverso se assume como risco principal. A deflação, ou queda de preços, é mesmo um dos principais receios dos banqueiros centrais: é que se não há um limite para quanto podem subir os juros de forma a travar a inflação, já o corte nas taxas, que pretende travar a deflação, tem o óbvio limite de 0%.

 

Combater a deflação torna-se mais difícil que a inflação, como mostra o exemplo japonês, onde há mais de uma década que o Governo e o banco central tentam travar a deflação que se entrincheirou na economia após a crise dos anos 90.

 

O mandato do BCE estabelece o objectivo de inflação “abaixo, mas perto de 2%” desde sempre?

Não. Entre 1998 e 2003 os estatutos do BCE interpretaram a estabilidade de preços apenas como inflação abaixo de 2% no médio prazo. Foi só em 2003 que surgiu nos estatutos do banco central a definição “abaixo, mas perto de 2%”. Esta foi a forma do banco central responder aos que, perante a formulação inicial, afirmavam que o mandato em Frankfurt era compatível com inflação muito inferior a 2%. “De facto não era assim e entre outras alterações, o Conselho decidiu esclarecer” o objectivo de inflação, explicou esta quinta-feira, 7 de Novembro, Vítor Constâncio, vice-presidente do BCE.

 

Porquê a barreira dos 2% do BCE?   

O valor é arbitrário, mas Mario Draghi deu hoje uma explicação parcial para a sua escolha. Ao apontar para os 2%, o BCE procurou garantir uma inflação baixa para a Zona Euro e ao mesmo tempo garantir que eventuais “falhas ou erros de medição do índice de preços no consumidor possam ser acomodados dentro da evolução dos preços”. É que já aconteceu noutras regiões considerar-se que os preços estavam a subir quando na verdade caiam. Neste cenário, as decisões do banco central baseadas em indicadores errados poderiam mesmo ser contraproducentes.

 

Inflação alta ajuda ao ajustamento macroeconómico da Zona Euro?   

Sim. E essa foi aliás a segunda razão avançada por Mario Draghi para o objectivo de 2% que governa o BCE. “Os países [da Zona Euro] são muito diferentes e por isso a possibilidade de existirem desequilíbrios [macroeconómicos] estava já prevista” desde a fundação, afirmou o presidente do banco central. Na Zona Euro, “sem taxas de câmbio, para reequilibrar as economias seria preciso um ajustamento de preços” entre países, e “esse reajustamento é muito mais difícil” se tivermos inflação de 0% em vez de termos 2%, explicou o banqueiro central. Para países como Portugal, que precisam de ganhar competitividade dentro da Zona Euro, é importante que os preços nos parceiros cresçam mais os preços nacionais. Com inflação baixa por toda a Zona euro, esse processo é mais lento.    

 

Inflação baixa prejudica o relançamento económico?   

Sim. Perante um cenário de queda de preços (deflação), os agentes económicos tendem a atrasar decisões de consumo e investimento, esperando por preços mais baixos na economia. Mas mesmo um cenário menos dramático, como o de inflação baixa, dificulta a recuperação, pois reduz o incentivo a antecipar a despesa e a recorrer a financiamento. Este efeito é sentido nomeadamente através da taxa de juro real (taxa nominal subtraída da inflação), como realçou hoje Mario Draghi. Ter inflação de 2% “é especialmente importante numa recuperação que ainda é frágil e que começa de níveis muito baixos” porque, neste contexto “é muito importante ter taxas de juro reais baixas”. Ora com a taxa de juro nominal próxima de zero, o instrumento de política monetária por excelência do BCE está enfraquecido. E é ainda mais assim se inflação estiver baixa e a cair.

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