Política António Guterres, do Fundão para a ONU para fazer o que puder pela humanidade

António Guterres, do Fundão para a ONU para fazer o que puder pela humanidade

Podia ter sido presidente da Comissão Europeia ou Presidente da República. Conspirou com António Costa contra Mário Soares no sótão da sua casa em Algés e abandonou o Governo por causa do "pântano" de 2001. Eis António Guterres.
António Guterres, do Fundão para a ONU para fazer o que puder pela humanidade
Bruno Simões 26 de janeiro de 2016 às 15:24
António Guterres, de 66 anos, é uma das principais figuras da política portuguesa. Foi primeiro-ministro entre 1995 e 2001 e está no PS desde 25 de Abril de 1974, mas na sua juventude queria apenas ser investigador na área da Física. Mudou de ideias quando percebeu que teria mais possibilidades de mudar uma sociedade carregada de injustiças se tivesse actividade política. É esse percurso que o leva a candidatar-se a secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

 

Guterres nasceu em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho, em 1949, e até aos seis anos viveu grande parte do ano em Donas, no Fundão, onde aprendeu a ler e escrever com apenas quatro anos e onde contactou pela primeira vez com a pobreza das crianças com quem brincava. "Os anos 50 eram anos de pobreza, com situações de dificuldade, de pé descalço. Essa realidade é também muito forte, muito dura até", recordaria numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, em 2002.

 

"Isso contribuiu decisivamente para mais tarde me dedicar à política e ter ideais socialistas", admitiu então. Guterres começou por se envolver em movimentos de trabalho social ligados à Igreja e seria dessa forma que viria a contactar com os bairros de lata, uma realidade que o deixaria profundamente chocado, recordou na mesma entrevista.

António Guterres tirou a licenciatura em Engenharia Electrotécnica no Instituto Superior Técnico em Lisboa, onde ainda é professor visitante. Engenheiro electrotécnico é aliás a profissão que consta da sua página na Assembleia da República, que assinala as sete legislaturas consecutivas em que foi deputado, entre 1976 e 1999.

 

O sótão de Algés

 

Ficaram para sempre famosas as reuniões que organizou no seu sótão em Algés e que reuniam vários socialistas que conspiravam contra o então secretário-geral do PS, Mário Soares. Marcavam presença nesses encontros Jorge Sampaio, António Costa ou Salgado Zenha. O pretexto para as reuniões foi o apoio do PS à recandidatura de Ramalho Eanes à Presidência da República em 1980, que Mário Soares não queria dar.

 

A ascensão de Guterres no partido haveria de começar em 1991, quando declarou estar "em estado de choque" depois de Jorge Sampaio, até aí seu aliado, ter perdido as eleições para Cavaco Silva, que venceu com maioria absoluta. No ano seguinte tornou-se secretário-geral do PS e iniciou o caminho até ao Governo, vencendo as eleições no estertor do cavaquismo, em 1995.

 

Em 1999, depois de se ter destacado a nível internacional devido à adesão ao euro, na questão da independência de Timor ou na Estratégia de Lisboa, surge um convite para ser presidente da Comissão Europeia, que rejeita. De acordo com a sua biografia, editada em 2013 pelo jornalista Adelino Cunha, fê-lo devido à morte da primeira mulher, Luísa Guterres, mãe dos seus dois filhos. Em 2002, confessara: "se alguma coisa me custou recusar foi a Comissão Europeia".

 

Essa recusa é uma prova de que não tem uma ambição desmedida, afirmou então. Já por isso recusou ser ministro em 1978. Um texto do Público de 2005 conta que, desde que recusou o convite da Comissão Europeia, Guterres confidenciava ao seu círculo mais próximo que o seu sonho era ser Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados. Viria a consegui-lo nesse ano, nomeado pelo então secretário-geral Kofi Annan.

 António Guterres e o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, em Agosto de 2015, quando apelaram à criação urgente de centros de acolhimento para migrantes.
António Guterres e o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, em Agosto de 2015, quando apelaram à criação urgente de centros de acolhimento para migrantes.
Reuters

 

O segundo mandato à frente do ACNUR terminou em Dezembro do ano passado. Guterres dirigiu durante dez anos uma das principais agências humanitárias do mundo, que venceu duas vezes o prémio Nobel da paz e tem 9.300 funcionários espalhados por 123 países. Em 2015, o orçamento do ACNUR era de quase 6.500 milhões de euros.

 

Fazer o que se pode

 

António Guterres define-se como um moderado e explica que isso reflecte uma visão pragmática para garantir que resolve os problemas. "Sempre procurei ser moderado. A moderação na acção é uma condição indispensável para executar uma radicalidade de convicções. Quando temos convicções profundas, podemos ser moderados na acção", afirmou em 2002.

 

E deu um exemplo. "Estou cada vez mais chocado com as injustiças do mundo de hoje. É intolerável que no continente africano uma larga parte da população esteja condenada à morte, à fome e à guerra. Decorre em grande medida de uma ordem económica e de uma política internacional imposta por grandes potências e interesses. Tenho uma visão cada vez mais radical na condenação desta situação. Mas compreendo que não adianta nada armar-me em terrorista".

 

Explicando melhor: "é muito mais útil estar na União Europeia procurando, gradualmente, fazer algumas reformas que ajudem a combater esta situação, sabendo que são sempre limitadas, do que fazer actos quixotescos que não têm qualquer utilidade. Não está em causa para nenhum de nós, a não ser que se seja megalómano, querer salvar a humanidade. Mas é muito importante fazer coisas que ajudem pessoas, pessoas concretas, a ter uma vida melhor".

Em suma: "não vamos salvar a humanidade, vamos fazer aquilo que pudermos". Não se trata de uma posição desapaixonada, garante. "É a paixão pelo concreto, e não pelo ideal abstracto, de fazer coisas que se traduzam numa melhoria da vida dos outros".

 

O pântano

 

António Guterres deixaria o cargo de primeiro-ministro em Dezembro de 2001, na sequência das autárquicas em que o PS sofreu uma pesada derrota. Com isso provocou eleições antecipadas que abriram caminho ao regresso da direita ao poder. Explicou então que "se nada fizesse, se olhasse para estas eleições e passasse por elas continuando a exercer as funções de primeiro-ministro, o país cairia inevitavelmente num pântano político que minaria as relações entre governantes e governados, que são indispensáveis para que Portugal possa vencer os desafios que tem pela frente".


A saída abrupta de Guterres do poder caiu mal a muita gente, especialmente dentro do PS. Na sua biografia, haveria de explicar que se "concordasse com indigitações teria proposto naquele momento José Sócrates para me suceder como primeiro-ministro, mas era preciso haver eleições no PS e no país". Foi assim que Durão Barroso foi substituído por Pedro Santana Lopes dois anos depois, quando aceitou o convite para ser presidente da Comissão Europeia.

 

À demissão de 2001 têm sido atribuídas várias motivações que não apenas a derrocada autárquica. Além do desgaste provocado pela falhada maioria absoluta de 1999 (por apenas um deputado), o Público nota, num texto de 2010, que o guterrismo estava gasto e o primeiro-ministro já tinha tido dificuldades em formar o segundo Executivo.

Os anos de Guterres no poder coincidiram com algumas das taxas de crescimento mais altas de Portugal. Em 1998, ano da Expo, o PIB cresceu uns longínquos 5,1%. Apesar disso, Guterres pediu desculpa em 2012 pelas suas responsabilidades na situação do país.

 

António Guterres era o candidato desejado por António Costa e todos os socialistas para ser candidato a Presidente da República. Já tinha sido sondado em 2006 para concorrer a Belém, mas rejeitou sempre. Em 2006 porque estava a iniciar o seu trabalho de sonho no ACNUR. Desta vez, porque pode tornar-se secretário-geral da ONU. Onde conseguirá salvar um pouco mais a humanidade.




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