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Cavaco teria aceite acordo com PRD em 1985, mas ficou aliviado por governar só

Cavaco Silva tomou posse como primeiro-ministro há 30 anos, a 6 de Novembro de 1985, à frente de um governo minoritário do PSD, e ficou aliviado por o PRD não querer fazer parte do seu executivo.

Bruno Simão
Lusa 05 de Novembro de 2015 às 13:56
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Esse alívio é confessado pelo actual Presidente da República na sua "Autobiografia Política", editada em 2002: "Se este partido [PRD] se tivesse colocado na posição de só viabilizar o Governo desde que nele participasse, o PSD teria grande dificuldade em evitá-lo."

 

O então líder do PSD admitiu que os sociais-democratas teriam de "aceitar algumas das condições impostas" pelo partido inspirado em Ramalho Eanes, que estava prestes a deixar de ser Presidente da República, e fez uma confissão no livro: "Foi para o PSD um alívio quando o PRD confirmou que não participaria no Governo."

 

A conjuntura política em 1985 era bem diferente da de hoje - onze anos após a revolução de Abril, Portugal saíra de legislativas que o PSD ganhou com maioria relativa (29,8%), batendo o PS (20,7%) e o Partido Renovador Democrático (PRD) foi a surpresa das eleições, com 17,9%. A aliança APU, liderada pelo PCP, recolheu 15,5% e o CDS 22%.

 

Este foi o primeiro de três governos liderados pelo PSD e Cavaco, dois deles com maioria absoluta, em 1987 em 1991, que resultaram numa década conhecida por "cavaquismo".

 

Na cerimónia de posse, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, o novo primeiro-ministro, que ajudou a pôr fim ao Bloco Central com o PS de Mário Soares, lamentou a falta de "vontade revelada pelos partidos democráticos" para garantir "um suporte parlamentar maioritário" no parlamento.

 

Mas se essa vontade não existe, então "não deve ser forçada", reforçou.

 

Aníbal Cavaco Silva avisou que não aceitaria "passivamente e resignadamente os obstáculos criados por outras forças políticas e sociais à realização dos objectivos" do executivo que era o mais pequeno desde 1974, com 13 ministros.

 

E deixou um aviso quanto ao futuro de um país que vivia, nas suas palavras, "uma crise profunda que nem a melhoria das contas externas consegue disfarçar": quem enveredar pelo "caminho do obstáculo sistemático" ao Governo deve ser "politicamente sancionado pelas populações".

 

"Não receamos o julgamento dos portugueses, mas estes devem estar em condições de julgar o comportamento daqueles que, deliberadamente, procurem impedir o governo legítimo de responder aos problemas do país", insistiu. 

 

A poucos meses da adesão plena à Comunidade Económica Europeia (CEE), em Janeiro de 1986, afirmou recusar a "ilusão de que a entrada nas comunidades seja a obtenção fácil e sem custos de vultuosos recursos financeiros e a resolução imediata de todos os problemas" de Portugal.

 

Cavaco Silva termina o discurso em tom poético.

 

"Se os poetas podem escrever 'Pelo sonho é que vamos', compete-nos a nós, políticos, cumprir os sonhos justos e exequíveis de todos os portugueses." 

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