Política Ferro Rodrigues: Coligação de esquerda pode ir "além de 2017"

Ferro Rodrigues: Coligação de esquerda pode ir "além de 2017"

Em entrevista ao Público, o socialista faz um balanço dos primeiros meses como presidente do Parlamento, elogia Marcelo, vê riscos na estratégia do PSD, e diz que Bruxelas se presta ao ridículo na vigilância orçamental.
Ferro Rodrigues: Coligação de esquerda pode ir "além de 2017"
Miguel Baltazar/Negócios
Negócios 24 de março de 2016 às 11:05

Eduardo Ferro Rodrigues, o presidente da Assembleia da República (AR) defende que entendimentos políticos são mais fáceis com Marcelo Rebelo de Sousa, considera que as posições do PSD na oposição não são claras para a população e critica a Comissão Europeia por se concentrar mais nos défices orçamentais da UE do que nos défices de crescimento, coesão e direitos humanos de que também padece.   

O PSD estará a "colocar-se do lado de fora" de entendimentos políticos mais amplos "por razões de estratégia partidária". São posições que as oposições políticas por vezes adoptam, "que têm de ser entendidas e respeitadas", embora, no entender do Presidente da AR, seja um tipo de atitude política com riscos. "Não sei se é uma situação que possa ser mantida durante muito tempo, porque muita gente não a entende", diz numa longa entrevista em Público, onde acrescenta: "A ideia de estar contra praticamente tudo, se for uma primeira versão, e depois abster-se, se for uma segunda versão, é uma ideia que do ponto de vista da lógica política não me parece ser muito clara".

A apreciação de Ferro Rodrigues surge já depois de ter afirmado que Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República cria melhores condições para entendimentos políticos alargados, e que o actual Governo, suportado num acordo entre PS, Bloco de Esquerda e PCP poderá ir além de 2017.

"Penso que é possível ir além disso [2017], porque julgo que toda a gente, mesmo os partidos da oposição, compreende que o país está um bocadinho farto de instabilidade eleitoral e de idas às urnas de ano a ano (…) Toda a gente compreende que não faz sentido criar situações de instabilidade, para, se calhar, ficar tudo na mesma", afirma, para mais tarde defender que Marcelo Rebelo de Sousa poderá desempenhar um papel importante no envolvimento do CDS e do PSD em acordos mais amplos sobre temas estratégicos como as apostas na educação, na inovação ou o aproveitamento de fundos estruturais: "Havendo, com a eleição do novo Presidente da República, um clima que se tornou mais respirável em matéria de relacionamento entre o Presidente e esta nova maioria, deverá haver condições para que muitos dos que são os aspectos estratégicos para Portugal possam ter um consenso mais amplo do que aquele que apenas diz respeito ao Governo", defende.

Bruxelas preocupa-se com milésimos que ninguém sabe o que são

Uma das expectativas do presidente da AR é que seja possível "uma grande colaboração entre Presidência da República, Parlamento e Governo, no sentido na defesa dos interesses nacionais no contexto europeu e dos interesses europeus no contexto mundial", de forma a contribuir para que "a Europa perceba que tem de voltar a ser um farol de esperança, de direitos humanos e de capacidade de coesão, e não de um conjunto de instituições que se preocupam com milésimos ou percentagens de défice estrutural que ninguém sabe exactamente o que são".

As palavras duras de Ferro Rodrigues acompanham um diagnóstico sombrio sobre os desafios que a Europa enfrenta, e a capacidade de resposta da Comissão Europeia, que se presta ao ridículo quando implica com a dimensão do ajustamento orçamental nacional.

"A União Europeia tem hoje problemas tão graves nas suas fronteiras a leste, tão graves como o terrorismo que hoje [terça-feira], lamentavelmente, se manifestou em Bruxelas, tão graves como o desemprego de longa duração que estar a colocar a preocupação das entidades europeias em saber se o défice estrutural de um país como Portugal desceu 0,5% ou 0,3% ou 0,8% é completamente ridículo", afirma, considerando que em "vários países europeus [a democracia] já está em risco, porque são tomadas medidas contra a independência do poder judicial, medidas contra a liberdade de imprensa, medidas para o encerramento de fronteiras".

Caso de Maria Luís Albuquerque: "Eu não o faria"
Na entrevista o ex-líder do PS diz não querer pessoalizar no caso de Maria Luís Albuquerque, a ex-ministra das Finanças que já foi contratada para uma empresa privada que opera nas áreas que ela tutelou até Novembro passado, mas diz que não percebe como é que ex-responsáveis governativos tomam este tipo de decisões: "não vejo como é que as pessoas aceitam com tanta facilidade, depois de tutelarem uma determinada área, terem cargos em empresas privadas dessa mesma área". "Não quero pessoalizar a questão. A única coisa que digo é que eu não o faria", responde.

Para Ferro Rodrigues alterações às regras de incompatibilidades poderão ajudar a travar este tipo de casos, mas não está seguro que os possa evitar totalmente. No caso dos deputados defende que mais restrições e responsabilidades têm de chegar com salários mais elevados: "Tenho uma certa dificuldade em ver como é possível compatibilizar a acção dos deputados sem dedicação exclusiva ao Parlamento, quando há tanto trabalho em comissões e tanta iniciativa política. Mas, havendo mais obrigações, tem de haver mais direitos", afirma quando questionado sobre alterações à Lei das incompatibilidades, reforçando: alterações das incompatibilidades que sirvam "para mais obrigações e incompatibilidades" deverão também servir "situações que permitam que as pessoas sejam remuneradas de forma justa em relação a outras situações, na administração pública ou nas empresas públicas".




pub

Marketing Automation certified by E-GOI