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Autarca de Gaia desafia Costa a testar governo com Bloco e PCP

Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara de Gaia e membro da Comissão Política Nacional do PS, considera que o líder socialista “jamais” deve governar com o PSD/CDS.

Correio da Manhã
Rui Neves ruineves@negocios.pt 07 de Outubro de 2015 às 17:42
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Em entrevista ao Negócios, o autarca ziguezagueou entre a obrigação de o PS testar a esquerda para governar e a convicção de que o próximo governo será de direita.

Eduardo Vítor, que apoiou António José Seguro nas primárias socialistas, quer também que António Costa convença António Guterres a ser candidato presidencial, "pois o PS corre o risco de colapsar". Se esta opção falhar, que seja então o próprio António Costa a chegar-se à frente, defende o presidente da Câmara de Gaia.

 

Falando do PS nacional…

O que é isso? Isso é um problema…

Acaba de dar um belo título [a esta entrevista]! Em sua opinião, António Costa devia demitir-se da liderança do PS?

Neste momento, julgo que não. Mas uma coisa é se deve continuar, outra coisa é se se deve demitir. Porque a questão de António Costa continuar ou não vai colocar-se lá para Março. Hoje, não deve demitir-se. E não é pelo PS, mas sim porque há dois assuntos do País para resolver: Presidenciais e o governo.

 

Depois das Presidenciais haverá então o congresso do PS…

E aí eu julgo que António Costa irá, inevitavelmente, colocar o lugar à disposição, ainda que depois eu admita que irá a jogo. Se as coisas correrem com alguma tranquilidade e inteligência, ele está colocado em boa situação dentro do aparelho para continuar…

 

Mas não concorda com a sua continuidade, certo?  

Mais ou menos. Eu não sou favorável a uma caça ao líder – o PS teve um momento negro de caça ao líder há ano e meio, que acabou como acabou. Eu não sou favorável a ajustes de contas. Acho que o que António Costa tem que fazer é pôr de novo a sua liderança à prova – dos militantes e dos simpatizantes do PS, em congresso.

 

Foi apoiante de António José Seguro, portanto, a avaliação que faz da acção de Costa para ganhar as eleições…

Correu tudo muito mal. Há um ano, toda a gente achava que António Costa, quando fosse para o terreno, iria ser imbatível. Mas as coisas não correram assim. O que aconteceu é que o novo secretário-geral trouxe acoplado a si um debate programático que afugentou pessoas. Eu não posso ter uma situação de desemprego ou de desqualificação como tenho, e depois a grande mensagem que o PS passa é difusa.

Ou seja, o PS não teve uma mensagem clara para os cidadãos, e os cidadãos não perceberam um partido preocupado e com uma estratégia para o País. Perceberam várias, sendo que quando se passa no mesmo dia duas ou três mensagens, o mais certo é não conseguir passar nenhuma.

O que o PS hoje precisa, e por isso é que acho que ele não deve sair no imediato, é de uma discussão programática. Nós somos um partido de uma esquerda próxima do radicalismo ou somos um partido da social-democracia europeia? Eu acho que somos um partido da social-democracia europeia, do socialismo democrático moderno.

 

Não defende um acordo com a PàF?

Não. Defendo que o PS faça as diligências, que são obrigatórias, do ponto de vista até institucional, com todos os partidos, a começar pelo Bloco de Esquerda e o Partido Comunista. Não vale a pena continuar a falar da esquerda, da esquerda maioritária em Portugal, se a esquerda depois não está disponível para governar. E isto tem que ser testado.

 

Defende então que o PS tente formar governo com o Bloco e a CDU?

Estou a defender que o PS inicialmente dialogue com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista numa lógica de criação de condições de governabilidade. Claramente.

Mas não por razões de convicção que isso tenha sucesso, mas porque o País precisa de perceber quem é que quer governar e quem quer ficar pelas proclamações filosóficas. E este teste tem que ser feito. Porque as pessoas vão ter que perceber quem é que quer continuar a divagar e quem é que quer continuar a governar.


E o PS não pode ficar com o estigma do PASOK [partido socialista grego, que teve 4,7% dos votos nas últimos eleições no país], que fez um acordo com a direita sem perceber o que estava à esquerda. Não. Vamos testar a esquerda e perceber se há condições de governabilidade.

É evidente que chegado esse teste, em nome do País, não me passa pela cabeça que o PS, sem ter uma alternativa de governação, atira o governo borda fora.  

 

Se não conseguir o acordo com a esquerda, deve estar disponível para o fazer à direita?

Se não conseguir o acordo à esquerda, tem que encontrar com o PSD um compromisso, não de participação no governo, mas de incorporação no programa do governo de um conjunto de causas fundamentais…

 

Um acordo de incidência parlamentar…

Exclusivamente. Jamais governação… jamais governação.

 

Está a esquecer-se do papel do Presidente da República nesta matéria…

O PS tem que fazer este trabalho de contactos interpartidários independentemente do Presidente da República, o qual não é para aqui chamado. Aliás, ele ainda ontem [esta terça-feira] provou que não é para aqui chamado, pois fez uma intervenção tão óbvia e básica que mostrou que não tem nada mais para dizer.

Portanto, o PS tem que fazer o seu trabalho numa lógica de relação interpartidária e depois apresentar os resultados aos portugueses.

 

Mas se o PR der tomada de posse ao governo minoritária saído da actual coligação de direita, isso irá esvaziar aquilo que poderia ser um governo de esquerda…

Esvazia, mas há-de ser porque a esquerda não quis – nunca porque o PS abandonou a esquerda. 

 

Sobre as Presidenciais, sempre elogiou publicamente Rui Rio…

O Rui Rio vai ser ministro, o que é mais uma demonstração de que a PàF está empenhada em criar pontes com o PS. Porque obviamente Rui Rio é uma ponte importantíssima para o António Costa.

 

Com o PS sem saber que candidato apoiar, admite dar o seu apoio ao putativo candidato Rui Rio?

Não. Houve um momento eu que eu disse que o Rui Rio teve uma gestão do município do Porto com elevado rigor e com elevada ponderação, e quando se pôs a hipótese de ele ser candidato presidencial eu disse que é um candidato muito relevante a ter em conta. Porque se estava a desvalorizar Rui Rio por ser um homem do Norte.

Uma coisa é eu considerar que uma personalidade é uma grande figura e um grande candidato, outra coisa é apoiá-lo. O meu candidato é claramente António Guterres.


Julgo que a questão do Rui Rio está resolvida, nem se discute - ele será ministro. E o PSD tem uma solução de compromisso com o CDS de apoio a Marcelo Rebelo de Sousa.


Se eu fosse secretário-geral do PS pegava num avião e ir ter com António Guterres e dizer-lhe: "O País precisa de ti, a esquerda precisa de ti, o PS corre o risco de colapsar ideologicamente e na relação de forças no País se não tiver um bom resultado nas eleições presidenciais, pois irá passar por um deserto difícil."

O País precisa de António Guterres, que tem a obrigação - em nome do país, em nome daquilo que se perspectiva para os próximos anos e das dificuldades que o país está a viver - de vir a jogo.

 

Se Guterres faltar à chamada, Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa?

Não havendo Guterres, eu não poria de parte a hipótese de o próprio António Costa ser candidato. Eu acho que esse seria um momento de afirmação da sua liderança.

 

O próprio António Costa, depois da estrondosa derrota nas legislativas?

Ele continua a ser o líder do PS. Vamos assistir passivamente a uma derrotada mais do que assumida?

 

Acha que António Costa tem condições político-partidárias para ser candidato presidencial?

Não sei, mas existem, pelo menos, as condições para ele fazer o que tinha que fazer: ir buscar António Guterres. Vamos ser claros: é dos nossos melhores. Se neste momento, o País não tem um dos seus melhores, quando é que vai ter? Portanto, o secretário-geral do meu partido devia fazer um último esforço… porque uma coisa é Guterres ter dito, há meio ano, que não estava para aí virado, num cenário em que até se perspectivava que o PS ganhasse as eleições, com o Presidente da República a ser um pouco o que tem sido – uma figura instituciona.

Mas o que o Presidente da República vai ter daqui em diante é um papel importantíssimo na mediação entre os partidos. Vai ser um árbitro, sob pena de a legislatura não acabar. Porque se nós não tivermos um "grande" Presidente da República, os dois partidos da governação vão estar constantemente a criar condições para que o PS rompa com o acordo para eles dizerem "não há condições de governo, queremos ir a votos e vamos ganhar com maioria absoluta". Isto com o PS a fazer de conta que colabora mas sempre a tentar tirar o tapete ao governo.

Portanto, ou o Presidente da República é uma grande figura, respeitada e com grande capital político, ou corremos o risco de isto correr mal.

 

Voltando ao início: PS – o que é isso?

O PS é um grande partido. Está neste momento a atravessar um problema sério, do ponto de vista dos resultados eleitorais e da governação. Tem que se recompor rapidamente, porque o País precisa do PS. Não é uma questão de partido, é uma questão de País. O País não sobrevive um ano nesta instabilidade. E devo lembrar que daqui até Maio o Presidente da República não pode fazer nada. Porque o Presidente da República vai a votos, e depois de tomar posse não pode fazer absolutamente nada.

E, no entretanto, temos um Orçamento do Estado para acordar e um ano de 2016 em que esperamos que seja o grande ano da concretização dos projectos do quadro comunitário. Portanto, nós não podemos ser um País adiado. E a Grécia e a Irlanda são exemplos de países que estiveram num patamar e tombaram de novo. Nós não podemos correr esse risco. Depois de tudo o que já passamos, voltar atrás por inabilidade política seria catastrófico para os portugueses.

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