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Cheques, missas e eleições em Viseu: o Negócios conta-lhe tudo

O escândalo rebentou em Viseu com estrondo. Segundo denúncias do PS e do CDS local, Fernando Ruas distribuiu cheques durante duas missas, intervindo, inclusivamente, durante as homilias. Falando com envolvidos e testemunhas, o Negócios reconstituiu os acontecimentos, concluindo que as versões veiculadas pelos partidos da oposição misturavam factos reais com outros ficcionais. Quem conta um conto acrescenta um ponto.

Bruno Simões brunosimoes@negocios.pt 21 de Agosto de 2013 às 13:11
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O Negócios conta agora o conto sem os pontos: houve missas e houve cheques. Mas o dinheiro foi entregue antes das missas começarem, no adro das igrejas.

 

As versões eram contraditórias: para algumas testemunhas arroladas pelos partidos, ouvidas pelo Negócios, Fernando Ruas teria assinado os cheques dentro da própria igreja. Para outras, o presidente da Câmara de Viseu teria até pedido a palavra ao pároco do Viso, em Viseu, para, durante a cerimónia religiosa, agradecer aos fiéis a confiança nas suas políticas e para anunciar o investimento na paróquia.

 

Os factos em questão – a entrega dos cheques – aconteceram há um mês e no passado domingo, nas paróquias do Viso e de São João de Lourosa, respectivamente. A presença de Fernando Ruas e do seu vice-presidente, testemunhada por todos os fiéis que participaram nas missas, era facilmente verificável. Os outros factos – como Ruas ter falado na missa – é que variavam, porque afinal as alegadas testemunhas não tinham estado presentes e veicularam aos partidos informações que ouviram de terceiros.

 

Uma testemunha que esteve efectivamente numa das eucaristias explicou ao Negócios que, no caso do Viso, a assinatura do protocolo fora anunciada na missa realizada no domingo anterior. O pároco terá avisado as pessoas para irem para a igreja “15 a 20 minutos mais cedo”. Quando chegou ao local, contou ao Negócios, Ruas já falava.

 

No adro, a “três ou quatro metros da porta da igreja”, o autarca de Viseu terá agradecido ao povo católico o apoio dos últimos 24 anos, aproveitando para dizer que havia quem quisesse vê-lo morto e que daqui a quatro anos estaria de regresso. O discurso, que durou cerca de 20 minutos, atrasou a missa. Quando Ruas entregou o cheque no valor de 50 mil euros ao padre, terá dito algo deste género: “este não é um cheque qualquer, este tem cobertura”. O povo aplaudiu. Questionado, o padre do Viso disse apenas: “não gravei o discurso do presidente, não o sei de cor”.

 

O cheque serviu para ajudar a pagar as obras na igreja recém-construída do Viso. Fernando Ruas até tranquilizou os fiéis quanto aos acessos ao novo edifício, que ainda são em terra, informando que as obras de pavimentação e respectivos arranjos já foram adjudicadas. Terminada a cerimónia, Ruas foi-se embora e a missa pôde, enfim, começar. Lá dentro, o padre anunciou que a homilia teria de ser encurtada, por causa do atraso da cerimónia do cheque.

 

Padre confirma o cheque mas nega intervenção de Ruas na missa

 

José Junqueiro, candidato do PS, criticou, em declarações ao Negócios, a intervenção de Ruas aos fiéis e deixou uma questão: “não sei o que o bispo de Viseu pensa sobre isto, mas não dignifica as paróquias”. O Negócios contactou o padre do Viso, Armando Esteves, para ouvir a sua versão dos factos. “Fernando Ruas não falou na missa, nem sequer foi à missa. O que aconteceu foi que às 11h15 assinámos um contrato”, descreveu o sacerdote.

 

“Foi assinado um protocolo de 50 mil euros que já estava previsto, fora da missa e fora da igreja”, e Fernando Ruas “entregou um cheque” na “zona do adro”. “Aquele adro tem uma secretaria, é um espaço público”, justifica. O pároco considera que o protocolo “não foi nada de extraordinário”. “Já não é a primeira vez. Se tenho um protocolo que me é proposto, vou recusar?”

 

Segundo foi possível apurar, o pároco não terá ficado totalmente satisfeito com a verba entregue por Fernando Ruas (que totaliza 100 mil euros), uma vez que teria havido uma promessa, ao padre que o antecedeu, de que o valor da ajuda camarária para construir a igreja seriam 250 mil euros. “Se fosse essa a ajuda eu não tinha medo de ir em frente com a obra. Mas não foi, temos de ir para a frente na mesma”, reconheceu.

 

Quanto ao facto de a assinatura do protocolo ter sido anunciada na anterior eucaristia dominical, o padre não confirmou nem negou. “Não fui eu a celebrar essa missa, estava de férias. Foi um colega que a celebrou”.

 

“Não posso levar a cabo a minha missão de ser presidente?”

 

Fernando Ruas rejeitou que estivesse a fazer campanha, porque não é candidato. “Fui fazer aquilo que sempre fiz em 24 anos, que é apoiar as comissões fabriqueiras [entidades jurídicas que gerem os bens das igrejas]. Fui a mais que uma e vou continuar”, assegurou. Quando à acusação de ter falado na missa, antes do padre, o presidente também nega. “Isso é uma mentira pegada”. “Os senhores párocos fazem-no antes ou depois da missa por uma questão de conveniência, no adro ou na capela paroquial”, explica. Ou seja, é verdade que falou antes do padre, mas fê-lo à porta da igreja.

 

Para Ruas, estas acusações “só revelam nervosismo dos candidatos da oposição”. “Era o que faltava, eu deixar de fazer estas coisas só porque sou do PSD”, observa Fernando Ruas. “Não posso levar a cabo a minha missão de ser presidente só porque vai haver eleições em breve?”, questiona.

 

O candidato do PSD, Almeida Henriques, que não esteve presente nestes eventos, também criticou a oposição. “Os meus adversários podiam ocupar o seu tempo a defender as ideias para o concelho e não perder tempo com ‘fait-divers’”, acusa, lembrando que a “câmara está em plenitude de funções, pelo que se tem atribuído subsídios, eles são legítimos”.

 

No caso da paróquia de São João de Lourosa, um popular confirmou ao Negócios que a entrega do cheque foi feita antes da missa. Neste caso, foi entregue um cheque de sete mil euros e, depois, assinados outros dois protocolos na sede da junta. Fernando Ruas confirmou: “foi antes da missa, muito antes”.

 

Os candidatos do PS e do CDS lançaram duras críticas a esta acção de Fernando Ruas. Dentro do PS há até quem afirme, de forma jocosa, que Ruas está a promover duas campanhas: a actual, de Almeida Henriques, e outra para daqui a quatro anos, altura em que o ainda presidente pode legalmente regressar ao leme da câmara.

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