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"Não sei se teremos capacidade para manter o SNS"

Preferia que o Serviço Nacional de Saúde mantivesse os traços originais, mas está consciente que, "tanta generosidade", não é sustentável. Para a farmacêutica Odette Ferreira, a mudança mais profunda deve passar pela troca da medicina curativa pela preventiva

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Odette Ferreira, catedrática jubilada da faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa

 

 

 

Está perto dos 90 anos, mas nunca precisou do Serviço Nacional de Saúde (SNS), “a não ser para aqueles problemas mais banais”. Odette Ferreira ainda fala em contos, mas sabe que é de euros que Portugal precisa para manter os princípios do SNS. A descoberta do HIV tipo 2, em 1985, valeu-lhe condecorações e medalhas. E pelo seu trabalho como professora catedrática recebeu ainda um óscar e uma bola de ouro. Agora recebe também o Prémio Personalidade da Saúde Sustentável 2013

 

Assistiu ao nascimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Já passaram mais de 30 anos. Qual o balanço que faz?

Nós temos um bom Serviço Nacional de Saúde. Se nos compararmos com outros países até somos melhores. Temos um serviço mais económico para a população. Não sei é se teremos capacidade daqui para diante para mantê-lo tal como foi criado. Ao ser criado pensou-se que ninguém pagava. E durante muitos anos isso aconteceu. Neste momento, e devido à situação do País, alguns dos benefícios não têm sustentabilidade. Ninguém que percebe da área acredita que o SNS tenha sustentabilidade com tanta generosidade.

 

Os portugueses terão que eventualmente pagar mais taxas moderadoras, ou reduzir nos serviços?

Um dos caminhos talvez seja aquele em que os que ganham mais pagam mais e quem menos ganha paga menos ou nada paga. Claro que como estávamos habituados a pagar quase nada, qualquer aumento das taxas é um choque para as pessoas. Era bom se o SNS se pudesse manter, era bom se conseguíssemos produzir de maneira a ter um rendimento que permitisse isso.

 

Na sua opinião o fim do princípio da tendencial gratuitidade é o maior risco que o SNS corre?

Sim, o maior risco é perder a universalidade e a tendencial gratuitidade, que já se está a perder a pouco e pouco. Cada vez estamos melhores no tratamento dos doentes, a tecnologia evolui fantasticamente, temos bons clínicos e um bom serviço mas tudo isto custa caro. Antes, um aparelho durava 10 anos, depois passou a durar cinco e agora às vezes dura dois porque a tecnologia está sempre a evoluir de tal maneira que sempre que há material de ponta custa caro. Embora este seja um custo que depois se recupera. Eu acho que o sistema devia evoluir. Gosto muito, por exemplo, do sistema de saúde do Canadá. É um serviço de prevenção, ao contrário do nosso que é curativo.

 

Mas fazer essa transição leva tempo e também custa dinheiro. Dinheiro que Portugal não tem.

Sim, não temos capacidade disso agora, mas a médio e longo prazo é muito mais económico manter as pessoas com saúde do que depois tratá-las. Um dos problemas é que os governos não têm tido a preocupação de educar o povo como deve ser. O povo é responsável pela sua saúde. Nós temos um defeito, de achar que o Estado tem de nos tratar. Esquecemo-nos que nós próprios temos de prevenir as doenças.

 

Nenhum especialista acredita que o Serviço Nacional de Saúde tenha sustentabilidade com tanta generosidade.


Eu tenho muitos prémios, muitas coisas, mas não tenho dinheiro.

O que se deveria melhorar?

Melhorar a educação da população. Uma das nossas grandes falhas é a educação.

 

Mas não indo por esta alteração de fundo no modelo do SNS, o que se poderia fazer?

Tem de haver sobretudo mais sensibilidade nas medidas que são adoptadas. Ver o impacto que têm.

 

O governo não tem tido?

Os governos andam com a corda ao pescoço. Praticamente já não temos independência. Parecemos escravos, a trabalhar para a troika. Não têm tempo de pensar. Antes havia mais tempo para pensar. Não era 100% perfeito mas havia menos queixas.

 

O SNS sofreu com a entrada da troika no País?

Essa pergunta até dá vontade de rir. Desde que ela entrou sofremos todos: segurança social, educação, saúde. Sofreram todos porque os cortes que se fazem são cegos. Eu estou paralisada porque todos os pagamentos dos programas de investigação estão cancelados. Eu não posso parar. Se eu parar vou perder dinheiro e uma quantidade de possibilidades de encontrar algo de relevante. Sou avaliada de três em três anos por um júri internacional e eles não querem saber se eu tenho ou não dinheiro, só querem saber quantos “papers” publiquei e o que estou a fazer. Até chegar à excelência levo tempo. E mantê-la custa muito mais.

 

Mas a que se deve este bloqueio?

Não há dinheiro. O dinheiro tem que se juntar todo para se pagar aquela quantia. As pessoas nem têm tempo de avaliar o prejuízo que aquilo vai dar. Mas se também não pagarmos não temos material.

 

Então tem projectos parados, é isso?

Uns estão mais ou menos parados, outros estão a andar a passo lento. Mas eu neste momento devo 220 mil euros da minha responsabilidade. Não posso mandar parar as culturas das células porque depois leva-me imenso tempo a recuperar. Estou a arriscar-me. Eles cedem porque acreditam que eu pago. Estou a endividar-me porque é impossível continuar a aumentar a despesa. Tenho sempre esperança que haja alguma autorização de um momento para o outro. Mas há leis que dizem que se o Estado não pagar o subsídio à investigação e ficar a dever para lá dos três anos de subsídio, já não precisa de pagar. É essa a preocupação que eu tenho. Tenho muitos prémios, muitas coisas, mas não tenho dinheiro. Mas como sou optimista, vou sempre pensando que as coisas vão melhorar.

 

Se pudesse trocava todos os prémios que tem por dinheiro para os seus projectos?

Como Madre Teresa de Calcutá disse quando lhe deram a medalha de ouro: eu isto não uso, mas acha que posso vender isto para dar aos meus pobrezinhos? Ela vendeu a medalha para dar de comer aos pobrezinhos…

 

Mas comparando com a época em que começou a fazer investigação os avanços são gigantes, certamente.

Quando comecei não havia projectos. Tínhamos uma sala e umas bancadas e umas caixas para material esterilizado.

 

Portugal apoia suficientemente os investigadores?

Houve uma grande evolução depois de Mariano Gago ter sido vice-presidente do Centro Nacional de Investigação Científica, assim como Maria de Sousa. Os dois formaram uma boa equipa. Depois da CNIC as coisas melhoraram bastante. Além disso, hoje há possibilidade de nos candidatarmos a bolsas ou prémios da comunidade europeia.

 

Mas os investigadores queixam-se de falta de apoios…

Mas agora há a crise.

 

Mas pensa que o Governo devia apoiar mais a prática da investigação?

Eu já nem digo isso. Já só digo é que nos dessem, no devido tempo, aquilo a que temos direito e é aprovado. O Governo apoia através da Fundação da Ciência e Tecnologia. Sob certo aspecto, até chega para avançarmos. Tem chegado. Depois, ao que eles dão acresce mais alguma coisa do estrangeiro ou do laboratório, ou prémios. Temos tido sorte que temos ganho vários prémios. E por outro lado eu tenho um laboratório que dá apoio à comunidade, fazemos controlo de qualidade, águas das câmaras, análises clínicas. Esse laboratório é o nosso saco azul (risos).

 

 
Perfil
Foi em 1985 que M. O. Santos Ferreira descobriu, em Portugal, o segundo tipo de HIV. A partir daí passou a ser conhecida como Odette Ferreira. Nascida em 1925 e professora catedrática jubilada, Odette Ferreira ainda vai todos os dias à Faculdade de Farmácia, da Universidade de Lisboa, e serve de "relações públicas" para os jovens cientistas. Também continua a colaborar com a Misericórdia. O governo francês agraciou-a com a distinção "Chevalier de la Legion D'Honneur" pelo talento e mérito que a levaram a uma descoberta da maior relevância no quadro das investigações da SIDA. Em Portugal, o Presidente da República atribui-lhe o Grau de Comendador da Ordem Militar de Santiago de Espada, pelo renome internacional que muito contribuiu para o prestígio de Portugal. Das funções desempenhadas, salienta-se o cargo de presidente da Comissão Nacional de Luta Contra a Sida, de 1992 a 2000. Conta com mais de 100 publicações, entre artigos científicos internacionais e nacionais e capítulos de livros na área da Microbiologia Clínica.

 

 

 

“Deixar de trabalhar não. Tenho projectos para fazer”

 

 

De que forma a descoberta do HIV 2 marcou a sua vida?

A minha vida tem duas fases: antes e depois da SIDA. A começar pelo meu nome, antes assinava M. O. Santos Ferreira e passei a ser conhecida por Odette Ferreira. Esta descoberta abriu muito o caminho da investigação.

 

Dos cargos que exerceu qual lhe deu mais prazer?

O de presidente da Comissão [de Luta Contra a SIDA].

 

Não tenho jeito nenhum para a política. Não considero isso trabalho. Acho que é perder tempo.


O desperdício é muito grande em todos os sítios. Com o dinheiro do desperdício talvez não precisássemos de
tanto sacrifício.

Alguma vez foi convidada para cargos políticos de topo?

Já, mas quando uma pessoa é convidada para um cargo sem ter perfil para ele, nem experiência, não deve aceitar. Tanto tem culpa o que convida como o que aceita. Além do mais sou uma mulher de trabalho, não sou uma mulher de conversas. Não tenho jeito nenhum para a política. Não considero isso trabalho. Acho que é perder tempo.

 

Quando esteve na Comissão, andou mesmo no terreno?

Sim. Enfrentei sozinha um traficante no Casal Ventoso e tive um toxicodependente que me protegeu. Na altura ninguém entrava no Casal Ventoso. Havia quem dormisse nos contentores do lixo. Era uma porcaria tão grande, mas tão grande. Decidi fazer um centro de enfermagem e melhorei o centro social para eles acreditarem e confiarem em mim. E eles acreditaram. Depois também fui ao Intendente e colaborei com os chulos. Eu queria criar um sítio para prestar apoio às prostitutas (preservativos, higiene), mas eles tinham medo que eu lhes dissesse para pararem. Então os chulos foram ver.

 

O contacto com a realidade é fundamental para o sucesso dos projectos?

Sim. Se eu vir com os meus olhos, depois posso até ouvir os especialistas outra vez a dizer, mas eu tenho a minha ideia daquilo que vi. Indo ao local é que conseguimos ver a realidade. Por isso é que eu acho que deviam ser mulheres no Governo nas áreas da assistência social. Temos uma sensibilidade diferente. Olhamos para aquilo que mais ninguém olha.

 

Vem à faculdade todos os dias?

Sim, desde logo porque sou a relações públicas (risos), depois porque me vêm pedir conselhos e vou ver se trabalharam bem ou não. E agora mais do que nunca tenho de levantar a moral. E trabalho ainda com a misericórdia. Sou uma ‘workaholic’. Nasci sempre a mudar qualquer coisa. Eu já disse: vejam lá o cemitério onde me vão pôr por que quando eu lá chegar vou virar tudo do avesso. Eu julgo que com pouco dinheiro pode fazer-se muita coisa e com muito dinheiro pode não se fazer nada. O desperdício é muito grande em todos os sítios. Com o dinheiro do desperdício talvez não precisássemos de tanto sacrifício.

 

Não pensa em parar de trabalhar?

Deixar de trabalhar não. Tenho projectos para fazer. Às vezes deito-me às duas da manhã. Estou aqui todo o tempo, tenho de ir ver as coisas que saíram, tenho de ir ao computador ver o que há de novo porque não posso dar conselhos sem estar actualizada.

 

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