Banca & Finanças A Fosun que quis o Novo Banco vai agora ao BCP e quer expandir-se para mais mercados

A Fosun que quis o Novo Banco vai agora ao BCP e quer expandir-se para mais mercados

Comprou à Caixa Geral os seguros da Fidelidade. Comprou a área de saúde do Grupo Espírito Santo e tornou-a na Luz Saúde. Falta uma instituição de crédito em Portugal. A Fosun só tem procurado as maiores. Mas e a dívida?
A Fosun que quis o Novo Banco vai agora ao BCP e quer expandir-se para mais mercados
Miguel Baltazar
Diogo Cavaleiro 01 de agosto de 2016 às 12:23

A Fosun quer entrar na Polónia, Moçambique, Angola e Suíça. A compra do BCP vai ajudar a que essa experiência se concretize "rapidamente", ajudando a "expandir a rede internacional do grupo". A intenção é assumida pelo grupo chinês, fundado em 1992, quando explica o racional da aquisição de uma participação no BCP e mostra aquela que tem sido a experiência de internacionalização da Fosun.

 

Portugal não é um mercado novo para os chineses. Foi na compra dos seguros que a Fosun se tornou conhecida em Lisboa. Em 2013, estava contra os americanos da Apollo na corrida pela área seguradora da Caixa Geral de Depósitos. A empresa chinesa fundada por quatro jovens universitários acabou por superar o fundo de "private equity" com sede nos Estados Unidos, país mais do que associado à iniciativa privada.

 

A maior fatia do sector segurador português passou para mãos chinesas, com a Fosun a comprar a Fidelidade. Desde aí, a empresa tem-se mantido nas notícias, nomeadamente porque também quis entrar noutro sector em Portugal, o da saúde. Foi a Fosun que tirou Espírito Santo e colocou Luz Saúde na dona do Hospital com aquele nome, em Lisboa. Houve vários concorrentes para ficar com a empresa liderada por Isabel Vaz (mais uma vez, havia americanos na corrida) mas foi a Fosun que pagou mais. 

 

A Fosun é um conglomerado misto, com investimentos em vários sectores. Na comissão de inquérito ao BES, foi levantada a dúvida sobre se estes conglomerados deveriam ter participações na banca. Mas, em Portugal, o grupo chinês não entrou ainda na banca; o que não falta é vontade. A Fosun foi uma das três finalistas na corrida pelo Novo Banco, o banco herdeiro do Banco Espírito Santo. O Banco de Portugal não aceitou a sua proposta (nem a dos concorrentes – outra chinesa, a Anbang, e a americana Apollo). Agora, a aposta é no Banco Comercial Português. São os maiores bancos privados no país. No caso do BCP, houve um olhar positivo por parte da gestão: a Fosun é vista como "um investidor internacional (…) com presença relevante no mercado português – características susceptíveis de aportar um potencial de cooperação e desenvolvimento sectorial e geográfico".

 
O futebol da segunda liga

Se na banca a Fosun tenta ir à primeira liga, no futebol não é assim. A empresa adquiriu o Wolverhampton Wanderers Football Club, ou apenas Wolves, clube da Campionship, a segunda divisão do futebol inglês.

 

No comunicado que revela o investimento chinês no Wolves, a Fosun é descrita como "um dos maiores grupos investidores na China": "Têm participações em vários projectos em todo o mundo incluindo Club Med, Cirque du Soleil, Folli Follie e Studio 8".

 

O Club Med e o Cirque du Soleil fazem parte da área de negócios do grupo chamado de "happiness", ou "felicidade" numa tradução literal. Há outros: "riqueza", que inclui as participações financeiras, e "saúde", em que está a Luz Saúde. Nesta última, o grupo acordou, no final de Julho, a compra de uma participação maioritária na indiana Gland Pharma naquela que será a maior compra de uma empresa chinesa em terrenos indianos.

 

Aliás, com a Luz Saúde, a Fosun espera fazer aquilo que tem vindo a tentar nos vários sectores: superar fronteiras. A companhia portuguesa estava a desenvolver uma unidade privada de saúde em Luanda, trabalho que "prossegue" com os novos accionistas (a Fosun detém a posição através da Fidelidade). E há intenção de ir para outros lados: "Mantém-se a análise activa de oportunidades de expansão para outras geografias, no contexto do novo quadro accionista Fidelidade/Fosun", comenta a Luz Saúde no comunicado de resultados do primeiro semestre.

 

A expansão internacional segue: este fim-de-semana, por exemplo, soube-se que o grupo chinês anunciou a compra da Rio Bravo Investimentos, gestora de fundos de investimentos. Sede? Brasil. É a primeira aquisição do conglomerado na América Latina, como nota a Reuters. O aviso já tinha sido deixado em Maio numa entrevista àquela agência noticiosa: depois dos investimentos em mercados desenvolvimentos, viriam as apostas em economias emergentes, em África e na Rússia. A Índia e o Brasil foram no passado fim-de-semana.

 

Segundo cálculos da Bloomberg, houve compras superiores a 15 mil milhões de dólares desde 2010. E agora será colocado um travão: "vamos vender activos para pagar dívidas", disse à agência Liang Xinjun, que lidera a Fosun International (a empresa cotada). A venda de activos é a forma de reduzir dívida que tem crescido à boleia da expansão e que tem prejudicado as notações dadas pelas agências de "rating" – as duas maiores consideram as suas obrigações como "lixo", ou seja, não aconselham o investimento. O grupo melhorou os lucros em 2015 (subiram 17% para 8,038 mil milhões de yuans ou 1,082 mil milhões de euros) mas a dívida avançou a um ritmo maior, 20%, para 115 mil milhões de yuans (15 mil milhões de euros). No comunicado de resultados do ano passado, era sublinhado que cerca de 40% das dívidas venciam nos três anos seguintes, acima do total de 31% um ano antes.

 

De notar que quem falou à Bloomberg foi Liang Xinjun, um dos quatro fundadores da empresa. Segundo a Bloomberg, esse facto é resultado da tentativa de afastar a visão de um grupo centralizado no seu "chairman", Guo Guangchang (o 30º mais poderoso da economia portuguesa, segundo a lista do ano passado do Negócios). Isto depois de Guangchang ter ficado incontactável numa investigação que, segundo Liang, não envolvia a Fosun. O grupo esteve envolvido noutra polémica: segundo foi noticiado em 2015, a empresa do ramo imobiliário da Fosun terá vendido imóveis ao presidente de uma empresa estatal chinesa a um preço abaixo do praticado pelo mercado. Uma suspeita de favorecimento que a dona da Fidelidade explicou com descontos feitos numa época difícil para o imobiliário, como noticiou em Agosto o Financial Times.




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