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Paul de Grauwe: "Alemanha nunca permitirá que os seus depositantes paguem"

Paul de Grauwe não está optimista em relação à solução encontrada para Chipre. O professor de Economia Internacional da Universidade Católica de Louvain e conselheiro da Comissão Europeia acusa o governo alemão de estar a impor soluções a outros países que nunca aceitaria para os seus cidadãos.

Nuno Aguiar naguiar@negocios.pt 28 de Março de 2013 às 00:01
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Em entrevista telefónica, o belga avisa que os princípios democráticos estão a ser ignorados e que a última semana fragilizou a banca portuguesa.

A solução para Chipre deixa a Zona Euro em melhor estado que antes?

Acho que tornou a Zona Euro ainda mais frágil. Deixou a impressão que o seu depósito está em risco. É terrível para a Zona Euro e para países como Portugal. Resolvemos a crise em Chipre à custa de novas crises na Zona Euro.

O processo pareceu confuso. Como viu os sucessivos avanços e recuos?

É óbvio que a estratégia e o modelo que a Alemanha quer impor no resto da Zona Euro é que, cada vez que houver uma crise, vocês terão de pagar. Nós, alemães, não queremos pagar. Fizemos tudo o que era correcto e virtuoso, vocês erraram e agora têm de pagar. No caso de Chipre, isso significa taxar depósitos. Não entendo por que é que disseram que os depósitos abaixo de 100 mil euros também teriam de pagar, apesar da garantia. Não sei se foi estupidez ou descuido, mas foi um erro terrível. Se Portugal estiver novamente em apuros, não poderão contar com a ajuda de outros. O engraçado é que a Alemanha nunca permitirá que os seus depositantes paguem. O governo nunca aceitaria, mas não teria problemas na sua aplicação aos depositantes portugueses. Porquê? Porque o governo alemão não quer saber de vocês.

Não existe mérito em tentar encontrar uma forma de o sistema financeiro pagar a sua própria crise?

Claro, mas isso significa que os alemães também deveriam ser punidos. Se no Sul houve excesso de crédito, alguém teve de emprestar esse dinheiro. Se houve um endividado insensato também houve um credor insensato. E esses estavam no Norte da Europa. Se alguém tem de se punido, os do Norte também deveriam ser castigados. Mas isso não se ouve na Alemanha. Os pecadores estão noutro lado. O que é surpreendente, uma vez que se diz que os bancos deram crédito a mais e que os credores devem ser castigados. A Alemanha é um credor. Dava crédito a outros países para comprarem bens alemães, como carros. Quem estava errado? O credor ou o endividado? Não é claro. Mas o que se ouve no Norte da Europa é que "vocês portugueses cometeram erros enormes". "Nós, alemães não os cometemos". Infelizmente, é o credor que impõe as condições.

O que vai acontecer agora à economia do Chipre?

Terão de suportar os custos. Haverá uma recessão muito profunda, um colapso ou pelo menos uma grande queda da economia.

Um país tão pequeno, que vê a sua maior indústria – a banca – desaparecer, tem condições para continuar no euro?

A saída é certamente uma possibilidade. Será uma decisão política. As pessoas podem estar tão fartas de estar no euro que dizem "vamos tentar outra coisa".

O sentimento anti-Europa tem crescido muito nos últimos anos...

Exacto. Há muito que digo isso. É um risco real, mas quando digo isso em Bruxelas, dizem que estou a exagerar e que está tudo bem.

Como é que os controlos de capital afectam um país? Um euro continua a valer o mesmo em Nicósia e em Berlim?

Se houver controlos de capital e não se conseguir converter depósitos de Chipre para outro país, esses depósitos perdem valor. Isso é claro. Pode servir como um início de uma saída de Chipre do euro.

A crise de confiança pode contagiar Portugal?

Vai de certeza afectar Portugal e outros países. A confiança no sector bancário foi reduzida. Os bancos vivem de confiança. Porque é que as pessoas colocam os seus depósitos no banco? Porque confiam nele e que os seus depósitos não vão perder valor. Se essa confiança for minada, o sistema é fragilizado. Depois, só é preciso uma pequena coisa para criar uma crise. Claro que o sistema bancário português ficou mais frágil.

Como viu a intervenção dos últimos dias do BCE? Pela primeira vez o banco central ameaçou um país.

É muito perigoso e revelador desta mudança de poder dos governos para tecnocratas sem apoio político. Estas pessoas tem poder a mais. BCE, Comissão Europeia... e isso é um perigo para a democracia. Essas entidades não podem ser responsabilizadas politicamente. É um sistema que volta atrás na História – ao Antigo Regime - em que pessoas não eleitas é que decidiam. Não se pode viver num sistema em que os princípios democráticos básicos são ignorados. É insustentável.

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