Banca & Finanças Carlos Costa: "Bancos portugueses precisam de accionistas estrangeiros"

Carlos Costa: "Bancos portugueses precisam de accionistas estrangeiros"

"Perdi noites de sono a trabalhar aqui". O desabafo de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, ao Expresso está na entrevista na qual fala da resolução do Banif e do BES. Da Caixa Geral de Depósitos, da troika, e de Mário Centeno. Até fala da importância do Caixabank em Portugal.
Carlos Costa: "Bancos portugueses precisam de accionistas estrangeiros"
Bruno Simão/Negócios
Alexandra Machado 05 de março de 2016 às 12:58
Uma entrevista de três horas que o governador do Banco de POrtugal dá ao Expresso. A segunda enquanto governador, mas a primeira deste segundo mandato. Fala de tudo e defende o Banco de Portugal que lhe tem tirado noites de sono.

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, defende, em entrevista ao Expresso, a existência de um banco público, mas não se compromete com o montante da titularidade do capital. "A questão da percentagem deixaria em aberto, mas não me cabe a mim falar". Mas acrescenta: "É preciso assegurar que a administração é orientada por motivos de sustentabilidade a instituição e que tenha toda a liberdade para tomar decisões em matéria de risco e em matéria de racionalização da instituição".

Sobre a propriedade do sistema financeiro português e da referida "espanholização" da banca portuguesa, à boleia da estratégia do BCE, Carlos Costa diz não existir, havendo, no entanto, "um risco de, estando os bancos com um valor de mercado muito abaixo do valor de balanço, alguém comprar antecipando-se ao mercado. Se eu estivesse na administração de um banco ou fosse accionista estaria a pressionar no sentido de regressar a resultados positivos e a um ROE [rentabilidade dos capitais] acima dos 10%. Essa é a melhor defesa da instituição contra qualquer tentativa de compra". O Expresso insiste na visão do BCE de privilegiar a consolidação ibérica. Carlos Costa responde: "há uma visão diferente de querer que os bancos europeus tenham estruturas accionistas que garantam a capacidade de absorver perdas. E de incrementar o capital se necessário".

Mas assume não ficar preocupado se o sistema financeiro for dominado por bancos espanhóis. "A questão que me preocupa é o financiamento à economia". E Santander, La Caixa ou BBVA dão essa garantia? "Sobre o BBVA não me posso pronunciar, não está presente no mercado português, ou está residualmente. O La Caixa tem sido um parceiro importante no BPI e eu espero que continue a ser importante, dada a importância que o BPI tem no sistema financeiro português". Com esta declaração, Carlos Costa abre novo tema de conversa. O BPI e as negociações entre Caixabank e Isabel dos Santos. "Acho que há interesse em que um accionista de referência se mantenha em Portugal, os bancos portugueses precisam de accionistas estrangeiros".

O caso BES

Carlos Costa diz que não tinha antes de Maio de 2014 razões para retirar a idoneidade a Ricardo Salgado. Mas nesse mês, assume, deixou de confiar no banqueiro. Volta a insistir que a primeira entidade que actuou no caso BES foi o Banco de Portugal. Ainda assim, sentiu-se frustrado por não ter visto antes a situação? "Isso sinto-me sempre. É a mesma frustração que tem um polícia quando chega atrasado ao local do homicídio. Nós estamos aqui para evitar que aconteça".

Carlos Costa diz, ainda, que o processo de venda do Novo Banco, falhado, não teve relação com as eleições e que não foi obrigado, no caso do Banif, a vender ao Santander. Tinha de ser vendido a uma entidade que tivesse licença em Portugal. "Só o Santander preenchia os requisitos de venda. Se a venda ao Santander fracassasse até à meia-noite de domingo [20 de Dezembro] a via que restava era a liquidação e aí estávamos a criar um custo muito maior e um problema sistémico nos arquipélagos".

Mas Carlos Costa deixa a frase também ela enigmática: "quando for revelada a correspondência trocada a este propósito no quadro da CPI (comissão parlamentar de inquérito) perceberão qual foi a atitude do BdP". Mas assume: "o BdP fez o que tinha de fazer, alertou quando tinha de alertar, desempenhou a sua função de supervisão como tinha de supervisionar".

"O que Teixeira dos Santos fez foi importantíssimo"

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, defende, em entrevista ao Expresso, publicada este sábado, 5 de Março, na revista que acompanha o jornal, defende o pedido de ajuda à troika feiro, em 2011, pelo então governo de José Sócrates. Defende, sobretudo, o ministro das Finanças à época, Teixeira dos Santos. "O que ele fez foi salvaguardar no limite de tempo a possibilidade de aprovar um programa que evitasse o 'default'. Isto não é uma matéria de opinião. É uma matéria de facto. O que Teixeira dos Santos fez foi importantíssimo".

O governador defende pois que Teixeira dos Santos teve "grande sentido de responsabilidade" e "fê-lo em nome do interesse público", já que se não o fizesse "dificilmente conseguiríamos ter um programa de assistência a tempo". Carlos Costa diz que não foi avisado, mas "estávamos os dois perfeitamente conscientes de que tínhamos um problema". E deixa a frase enigmática: "mais gente tinha consciência".

Relação com Centeno é "fácil"

Mário Centeno não conseguiu, no Banco de POrtugal, chegar a director do departamento de estudos. Agora é ministro das Finanças. Carlos Costa explica, apenas, que "as nomeações para lugares de direcção neste banco, desde que tomei posse, passaram a ser feitas por convite aberto e apresentação de candidaturas. Também passaram a ser apreciadas por um júri em que o governador não participa nem influencia. Neste caso, o relatório do júri era muito claro".

Mas diz ter "uma relação de trabalho fácil" com o actual ministro. Quanto ao secretário de Estado, Ricardo Mourinho Félix, o governador diz que lhe tem muito apreço.

E garante que no caso da resolução do Banif, "a cooperação entre BdP e Governo foi boa e só assim é que se evitou um problema maior". Explica, ainda, que a transferência de obrigações seniores do Novo Banco para o BES foi apenas um respeito pela Lei e que a escolha de Sérgio Monteiro para liderar a venda do Novo Banco já estava prevista "ainda não se imaginava que iria haver um XXI Governo", pelo que não prosseguir com esse contrato obrigaria a um pagamento de uma indemnização ao ex-secretário de Estado. Ainda que a conclusão do processo só tenha sido concluída com o actual Governo já em funções, Carlos Costa garante que o compromisso com Sérgio Monteiro é anterior. E ainda nesta questão, Carlos Costa diz que o BdP não deveria ser autoridade de resolução.



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