Banca & Finanças FMI arrasa Carlos Costa: BES preocupava desde 2011, mas BdP sossegou Bruxelas e Governo

FMI arrasa Carlos Costa: BES preocupava desde 2011, mas BdP sossegou Bruxelas e Governo

Uma auditoria independente à actuação do FMI durante o programa de ajustamento acusa o Fundo de ter visto os bancos como "vítimas" e não como base do problema. Autores deixam muitas críticas ao Banco de Portugal e Carlos Costa defende-se em carta.
FMI arrasa Carlos Costa: BES preocupava desde 2011, mas BdP sossegou Bruxelas e Governo
Miguel Baltazar
Nuno Aguiar 28 de julho de 2016 às 20:48

É uma espécie de autópsia. Morto (ou terminado) o programa de ajustamento, um departamento do Fundo Monetário Internacional (FMI) decidiu avaliar o que correu bem e o que correu mal durante os quatro anos de presença da troika em Portugal. Um dos principais problemas foi identificado no sistema financeiro.

 

Sobre o BES, as referências não são nada simpáticas sobre o Banco de Portugal. "Técnicos do Departamento Europeu do FMI, antigos funcionários da Comissão Europeia e do Governo português argumentaram em entrevistas que começaram a ter dúvidas sobre a saúde financeira do BES logo em 2011, mas receberam repetidas garantias do Banco de Portugal e portanto não investigaram mais o assunto", pode ler-se no documento, publicado hoje pelo Departamento de Avaliação Independente do FMI, assinado Nicolas Véron, investigador do Bruegel. É ainda referido que havia muitas notícias na comunicação social em Dezembro de 2013, que já apontavam para uma situação problemática no BES.

 

As consequências foram graves: "Se o FMI tivesse insistido para que o problema do BES fosse abordado de forma mais assertiva no final de 2013 ou início de 2014, o custo público da resolução [do banco] seria certamente inferior e pelo menos algumas das controvérsias teriam sido evitadas", acrescenta Véron.

 

Em anexo ao documento, foi publicada uma carta de Carlos Costa, em que o governador do Banco de Portugal responde a estas críticas, que considera "enganadoras". "No caso específico do BES, são feitas acusações graves, enganadoras e não sustentadas sobre a acção de supervisão do Banco de Portugal", defende-se Carlos Costa, explicando que a elevada exposição do BES ao Grupo Espírito Santo esteve sempre presente na avaliação que o Banco fez ao BES e deu mesmo origem a medidas de supervisão, como a exigência de rácios de capital mais elevados.

 

FMI não quis antagonizar Banco de Portugal

 

Outra crítica feita neste exame está relacionada com a relutância do Banco de Portugal em autorizar uma avaliação externa e independente da qualidade dos activos detidos pelos bancos portugueses. Em vez disso, as equipas do FMI trabalharam lado-a-lado com o BdP para desenhar um mecanismo de avaliação próprio. "A opção de usar um avaliador externo com um mandato abrangente […] teve a oposição resoluta e efectiva do BdP", pode ler-se no documento. Essa via "foi abandonada depois de debate interno no Departamento Monetário e de Mercados de Capital do FMI, tendo por base o facto de o BdP ser um supervisor de confiança e antagonizá-lo neste tema diminuiria a assunção de responsabilidade pelo programa."

  

Carlos Costa também rebate este argumento, apontando que o modelo de avaliação dos activos foi acordado com todas as partes envolvidas e que foi bem-sucedido no exame do balanço dos bancos.  

 

De uma perspectiva mais geral, o governador do Banco de Portugal considera que o relatório publicado pelo FMI contém "sérios erros factuais" e usa artigos de jornais como base de partida para tecer críticas, o que é "inapropriado" e resulta em "alegações graves e parciais". Em suma, "falta-lhe rigor" e é "altamente especulativo", frisa.

 

FMI viu banca como "vítima e não parte do problema"

 

De referir uma outra crítica feita por Nicolas Véron. Neste caso, o alvo não é o Banco de Portugal, mas o próprio FMI. O documento sublinha que a actuação débil do Fundo no que diz respeito ao sector financeiro resultou de factores "ideológicos, políticos e práticos". No centro do problema de avaliação está aquilo que o autor classifica como "um preconceito relacionado com a percepção de que a crise portuguesa era "essencialmente orçamental" e que não estava relacionada directamente com as vulnerabilidades do sector financeiro". Um preconceito que, segundo Véron, pintava o sector privado "como uma vítima e não como o problema" pelas dificuldades nacionais. 




pub

Marketing Automation certified by E-GOI