Banca & Finanças Porque está o BCE outra vez a colocar dinheiro grátis nos bolsos dos bancos?

Porque está o BCE outra vez a colocar dinheiro grátis nos bolsos dos bancos?

Já arrancou o terceiro programa TLTRO na Europa, que permite aos bancos obterem financiamento a 0% ou juros negativos junto do Banco Central Europeu. A Bloomberg explica como funciona.
Bloomberg 19 de setembro de 2019 às 16:16
O Banco Central Europeu está a utilizar todas as ferramentas disponíveis para impulsionar a enfraquecida economia europeia. A partir de hoje, 19 de setembro, avança o generoso programa de financiamento aos bancos da região, regressando a uma estratégia que já usou duas vezes nos últimos cinco anos para estimular o crescimento económico. Também alterou a política de taxas de juro negativas, para limitar o seu efeito negativo.

1 - O que está o BCE a fazer pelos bancos?
Reintroduziu um programa denominado Targeted Longer-Term Refinancing Operations. Os TLTRO, como são conhecidos, têm como objetivo levar as instituições financeiras a aumentar o crédito concedido a empresas e famílias, estimulando a atividade económica e criando empregos, o que acaba por aumentar a procura e impulsionar os preços. Os bancos também podem aceder a empréstimos de curto prazo do BCE, mas os TLTRO são especiais: potencialmente baratos e com uma maturidade mais longa de três anos.
 
2 - Como funciona?
O montante que um banco pode pedir emprestado ao BCE no âmbito deste programa depende da sua carteira de crédito ao setor privado (excluindo crédito à habitação). Inicialmente, a taxa de juro será fixada tendo em conta a principal taxa de refinanciamento do BCE, que atualmente está em 0%. Se o banco emprestar o dinheiro suficiente a empresas e famílias que atinja a meta do BCE, é premiado com uma taxa de juro mais baixa. Pode descer até ao nível da taxa de depósitos do BCE, que está atualmente em -0,5%. Antes o BCE adicionava um spread de 10 pontos base à sua taxa de juro de referência, mas deixou cair este agravamento no âmbito no pacote de estímulos que aprovou na reunião de setembro.

3 - Parece um subsídio disfarçado. É mesmo? 
É mal disfarçado. O presidente do BCE, Mário Draghi, disse mesmo que se não existissem subsídios nenhum banco iria aceder aos TLTRO. Mais há ainda outro incentivo: deixar os bancos acederem a dinheiro com um custo abaixo de 0% anula parcialmente a penalização que o banco central infligiu ao setor financeiro com as taxas negativas dos depósitos.

4 - Como as taxas negativas estão a afetar os bancos? 
Os bancos fazem dinheiro ao cobrarem mais pelos empréstimos do que pagam aos clientes nos depósitos. Ainda assim as taxas negativas do BCE nos depósitos conduziram em baixa todas as outras taxas – incluindo as dos empréstimos. Ao mesmo tempo, as instituições têm de pagar para ter o dinheiro estacionado no BCE. Para manterem a margem de lucro, idealmente os bancos teriam de aplicar taxas negativas aos depósitos dos seus clientes. Mas esse é um passo radical que, à exceção de algumas empresas e clientes muito ricos, já se provou ser impossível de dar. Para aliviar a pressão, os responsáveis do BCE estão a introduzir um sistema denominado "tiering" (escalonamento), que isenta alguns bancos da taxa negativa aplicada pelo BCE.

5 - Porque está o BCE a ressuscitar os TLTRO agora?
O fator chave está na inflação, que está muito distante do objetivo do BCE (próxima mas abaixo de 2%), e a recuperação da economia europeia não se deverá materializar no final deste ano como o previsto anteriormente. Os empréstimos também vão ajudar os bancos a cumprirem as regras adotadas depois da crise financeira de 2008, que estipulou que devem apresentar um certo nível de capital ou financiamento de longo prazo. Pedir emprestado ao BCE é mais barato do que obter financiamento no mercado de capitais.   

6 - Qual a estimativa do montante dos empréstimos que os bancos devem pedir? 
É uma pergunta difícil. Os bancos ainda têm mais de 600 mil milhões de euros em empréstimos para reembolsar ao BCE do anterior programa, o que nalguns casos pode limitar a capacidade de participar em novas rondas de financiamento. Ainda assim, podem pagar os empréstimos atuais e pedir novos, alargando a maturidade do financiamento. O Danske Bank estimava que os pedidos de empréstimos oscilassem entre 20 e 30 mil milhões de euros, enquanto o Societe Generale apontava para um máximo de 40 mil milhões de euros.
 
A primeira ronda (de um total de sete) aconteceu esta terça-feira, 19 de setembro, e a procura foi bem inferior ao antecipado. Os empréstimos concedidos pelo BCE totalizaram apenas a 3,4 mil milhões de euros.

7 - Este programa funcionou da última vez?
O BCE argumenta que os dois programas de TLTRO alcançaram o objetivo de transmissão de custos de financiamento mais baixos para o setor privado. A inflação, por outro lado, permanece baixa – e existe agora algum ceticismo sobre como a terceira edição deste programa vai contribuir. No TLTRO II os bancos italianos e espanhóis pediram emprestado quase o montante máximo possível e as condições de financiamento na Alemanha e França já são excecionalmente favoráveis.  
 
8 - Quais são os riscos?
Uma das preocupações é que os bancos fiquem muito dependentes do BCE para obterem financiamento de longo prazo, o que torna um regresso ao normal funcionamento dos mercados muito mais difícil. O banco central está a tentar contrariar isso oferecendo empréstimos com prazo de três anos, o que compara com a maturidade de quatro anos dos anteriores programas. Os TLTRO também podem abrandar o processo de redução de crédito malparado em países como Itália. A política monetária ultra-expansionista do BCE é muitas vezes criticada por manter à tona negócios não rentáveis – as chamadas empresas zombies – que não poderiam sobreviver num ambiente "mais normal".
 
9 - Quais são as outras opções? 
O BCE cortou as taxas de juro para um valor tão baixo e comprou um montante tão elevado no programa de quantitative easing que pode estar a ficar sem opções de política monetária. Tem apelado aos governos europeus – sobretudo aos que tem maior margem de manobra orçamental como a Alemanha – para aumentarem a despesa pública. Até agora a resposta tem sido nula. 
 
Aceda aqui ao explicador do próprio BCE sobre os TLTRO, com toda a informação sobre este programa de financiamento.



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