Banca & Finanças Quem é a Arrow Global que contratou Maria Luís Albuquerque?

Quem é a Arrow Global que contratou Maria Luís Albuquerque?

Compra dívida a bancos e empresas para, depois, negociá-la. Fez negócios com o Banif. E adquiriu uma empresa portuguesa do Lehman Brothers. O seu negócio torna-a numa das grandes litigantes nos tribunais portugueses.
Quem é a Arrow Global que contratou Maria Luís Albuquerque?
Miguel Baltazar/Negócios
Diogo Cavaleiro 03 de março de 2016 às 15:42

No mesmo dia em que anunciou a contratação de Maria Luís Albuquerque como administradora não executiva, a Arrow Global anunciou resultados. "2015 foi outro ano de recordes e outro ano em que cumprimos os objectivos", diz a empresa. Para isso, contribuiu o investimento em Portugal. Um investimento que envolve Banif, Lehman Brothers e encheu os tribunais com cobranças de dívida.

 

O grupo com sede em Londres trabalha com carteiras de clientes de vários negócios, desde bancos comerciais, operações de crédito ao consumo e empresas de telecomunicações. "Trabalhamos em conjunto com os clientes cujas dívidas adquirimos para encontrar planos de reembolso exequíveis, tendo em conta as circunstâncias individuais", explica o site oficial da Arrow Global.

 

"Gestora britânica investe no crédito malparado em Portugal", foi uma notícia dada a 1 de Abril de 2015. Foi nesse dia que a Arrow anunciou a compra da Whitestar, uma empresa criada em 2005 pelo Lehman Brothers para agregar o crédito em incumprimento (ou em risco de incumprimento) em Portugal.

 

Banca nacional dá "fortes perspectivas" à Arrow

 

Na altura, a justificação apresentada pela companhia britânica para o investimento foi o facto de o mercado português apresentar "fortes perspectivas de crescimento futuro, tanto do seu enquadramento legal, como da tendência crescente assumida pela banca portuguesa para a venda de créditos ‘non performing’ [em incumprimento]". Palavras de Tom Drury, que continua a ser o presidente executivo da Arrow. 

 

Um dos bancos foi o Banif. Como o Expresso começou por notar, no relatório de gestão e contas de 2014, o Banif anunciava ter assinado "contratos de compra e venda de créditos compostos pelas carteiras de Portugal e Espanha, à Arrow Global Limited e à Arrow Global Luna Limited, respectivamente". Nesta altura, o Banif era já um banco sob o jugo público dada a injecção de 1,1 mil milhões de euros feita pelo Estado através do Ministério das Finanças em Janeiro de 2013 – nesta altura, Maria Luís Albuquerque era secretária de Estado do Tesouro e Finanças, chegando a ministra em Junho de 2013.

  

Não foi ainda possível falar com a ex-ministra das Finanças sobre esta contratação. Maria Luís Albuquerque é agora deputada do Partido Social Democrata, pelo que não se sabe se o cargo na Arrow, que é não executivo, a pode levar a mudar-se para Londres. Além disso, também não há indicações sobre eventuais incompatibilidades dado que a empresa tem presença no mercado português. 

Aliás, o país é mesmo um dos destaques no comunicado de resultados de 2015: "Aquisição da Whitestar e Gesphone em Portugal, criando escala e capacidade de gestão em várias classes de activos". Compras que garantem a "sustentabilidade das receitas no longo prazo". No documento, em que menciona o "recorde de crescimento"  no ano passado, a Arrow fala num investimento total de 216,3 milhões de libras (278 milhões de euros) em 2015: 180,3 milhões de libras representaram aquisições de carteiras. "Durante o ano, fizemos uma série de significativas compras de carteiras em Portugal e na Holanda".  

 

No topo da litigância

 

"Em Portugal, temos mais de 650 mil carteiras de clientes", revela ainda a Arrow Global.

 

O nome da britânica é desconhecido do grande público mas não do portal Citius, que agrega informações do mundo da justiça em Portugal: a empresa é uma das grandes litigantes no país.

 

O Ministério da Justiça publica informações sobre as empresas que intentaram mais de 200 acções, procedimentos ou execuções nos tribunais todos os anos. E, nos último, a Arrow Global encontra-se na lista. Em 2015, foram mais de 501 cobranças. É a 23.ª da classificação, abaixo de operadoras de telecomunicações, bancos e outros especialistas na gestão de dívida privada.

A experiência da ex-ministra

 

De acordo com a história no site oficial, a Arrow Global foi criada em 2005 em Londres, como subsidiária da americana Arrow Financial Services, por sua vez fundada em 1961. A empresa está cotada em bolsa. Esta quinta-feira, as acções disparam 9,02% para 244,75 pence na bolsa londrina. A empresa vale 426,9 milhões de libras (550 milhões de euros), depois de apresentados os resultados, em que o lucro atribuível aos accionistas foi de 39,3 milhões de libras, mais do que os 18,3 milhões de libras do ano anterior. O mercado português foi um dos importantes para as contas. 

 

"Congratulo-me com a entrada de Maria Luís Albuquerque na administração como membro não executivo", começa por dizer o presidente do conselho de administração da Arrow Global, Jonathan Bloomer (Bloomer foi, até 2012, responsável europeu pelo Cerberus Capital , um fundo de "private equity" que esteve na corrida pelo Novo Banco).

 

Maria Luís Albuquerque vai ser uma administradora não executiva da Arrow Global. No site oficial, há sete membros do conselho de administração, pelo que a antiga ministra será a oitava. No "board", há três executivos, três não executivos e o "chairman", que também não abarca funções de gestão diária. 

 

"Enquanto deputada do Parlamento português que teve cargos de topo nas Finanças e no Tesouro do sector público português, Maria Luís vai trazer-nos uma riqueza de experiência na gestão de dívida e vai complementar a actual experiência da administração e a expansão da Arrow Global para novos mercados geográficos e para novas classes de activos", conclui Jonathan Bloomer. 




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