Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Ricardo Salgado fala em livro sobre os "dias do fim" do BES

"A pessoa que me falou, pela primeira vez, do Dono Disto Tudo foi o Manuel Pinho". Esta é uma citação do livro, publicado pela Chiado Editora, que conta com declarações do ex-banqueiro prestadas quando estava detido em casa.

Pedro Elias
Diogo Cavaleiro diogocavaleiro@negocios.pt 11 de Fevereiro de 2016 às 13:19
  • Assine já 1€/1 mês
  • 17
  • ...

Chama-se "Dias do Fim" e é o livro em que Ricardo Salgado fala publicamente sobre a queda do Banco Espírito Santo. Até aqui, o ex-banqueiro apenas fez declarações públicas nas audições da comissão de inquérito à gestão do BES e do GES.

 

É em Março de 2016 que a Chiado Editora vai publicar o livro, da autoria da jornalista Alexandra Almeida Ferreira, que resultou de uma "extensa conversa" com o antigo presidente executivo do BES. Salgado é o protagonista de uma obra que vê a luz do dia ano e meio depois de ter abandonado o BES, banco que liderou por 22 anos. Depois de sair, o ex-gestor foi constituído arguido em dois processos: Monte Branco, de investigação a uma rede de fraude fiscal, e Universo Espírito Santo, precisamente sobre a derrocada do Grupo Espírito Santo e do banco que o grupo controlava. 

 

O poder no banco levou Salgado a ser chamado de "Dono Disto Tudo". "A pessoa que me falou, pela primeira vez, do Dono Disto Tudo foi o Manuel Pinho. Ele contou-me 'sabe como lhe chamam agora? Dizem que é o Dono Disto Tudo'", é uma das revelações feitas, na primeira pessoa, no livro.

 

O Negócios perguntou à assessoria de imprensa de Ricardo Salgado qual o motivo para a participação neste livro, já que até aqui recusou-se a falar - há vários livros sobre o tema BES mas nenhum contou com a posição do ex-banqueiro. "Sem comentários".

 

Tensão na família e BES Angola

 

"Ricardo Salgado põe fim a mais de um ano e meio de silêncio abordando de forma frontal, em discurso directo, todos os episódios que geraram alta tensão na família e que conduziram à queda do Grupo Espírito Santo, com especial destaque para o caso BES Angola que levou a uma dura troca de acusações entre Álvaro Sobrinho e os accionistas angolanos do banco", é a indicação dada na nota à comunicação social da Chiado Editora sobre a publicação.

 

Nos excertos revelados pela editora, o antigo líder de um dos grandes bancos privados portugueses repete a ideia já deixada na comissão de inquérito de que a queda do BES (com a sua resolução e posterior criação do Novo Banco) não era necessária e que foi uma vontade das autoridades nacionais.

 

Neste momento, Salgado encontra-se sob medidas de coacção por ser arguido na investigação chamada de Universo Espírito Santo, "indiciado por factos susceptíveis de integrarem os crimes de burla qualificada, falsificação de documentos, falsificação informática, branqueamento, fraude fiscal qualificada e corrupção no sector privado". O antigo banqueiro esteve em prisão domiciliária, em Cascais (onde teve a "extensa conversa" com a autora), sendo que utilizou a caução de 3 milhões paga no inquérito Monte Branco para poder sair da habitação.

 

Assim, podendo sair da residência, Ricardo Salgado tem de apresentar-se periodicamente na polícia mais próxima e está proibido de contactar outros arguidos no processo. Também não pode viajar para o estrangeiro sem autorização prévia.

 

Segundo o Diário de Notícias, a investigação a Ricardo Salgado tem o prazo do fim do inquérito decretado para 12 de Novembro.

O livro de Jardim Gonçalves e as críticas a Salgado

Este não é o primeiro livro em que um banqueiro faz confidências sobre os motivos que conduziram à sua queda. Jorge Jardim Gonçalves, fundador do BCP, também participou na obra "O Poder do Silêncio", também da autoria de um jornalista, Luís Osório, em que avançou com a sua versão sobre os problemas no BCP.

Aliás, nesse livro, Jardim Gonçalves deixou algumas críticas a Salgado, classificando-o como "poderoso", falando na sua "ambição" e no crédito que o BES concedeu para que alguns accionistas controlassem o BCP. 

  

Tome nota
Os excertos relevados pela Chiado Editora

"A pessoa que me falou, pela primeira vez, do Dono Disto Tudo foi o Manuel Pinho. Ele contou-me 'Sabe como lhe chamam agora? Dizem que é o Dono Disto Tudo'".

"A Ministra das Finanças [Maria Luís Albuquerque] assistiu! Isso é uma coisa que me choca! Nas reuniões em que ela convocava os banqueiros para apoiar as empresas públicas, dentro e fora do perímetro do Estado - dívida oculta -, quando os bancos estrangeiros estavam a pedir os reembolsos das operações de crédito. E assistiu sempre, e eu fui sempre a várias reuniões, ou iam colegas como o Dr. Amílcar e o Dr. António Souto, à enorme disponibilidade que o banco sempre teve para apoiar as empresas do Estado, a área não financeira do Estado. E eram emergências porque os bancos estrangeiros estavam a exigir os reembolsos. E o Governador, na mesma altura, dizia que era melhor que existissem mais bancos estrangeiros em Portugal. Quando eram os bancos estrangeiros que estavam a tirar o tapete ao Estado". 

"Eles sabiam que o BES ia desaparecer. Eles queriam que o BES desaparecesse. Resolveram aplicar a resolução. Porque é que recusaram dois investidores a quererem o aumento de capital? Acha normal depois exigirem em 48 horas uma recapitalização que era completamente inviável?"

"A conclusão a que chego passados todos estes anos é que amizades à séria contam-se pelos dedos de uma ou duas mãos. Mas essas valem tudo. Às vezes somos também surpreendidos pela positiva".

Ver comentários
Saber mais Ricardo Salgado Manuel Pinho Alexandra Almeida Ferreira Grupo Espírito Santo Chiado Editora
Mais lidas
Outras Notícias