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Mota-Engil África: Entrou em bolsa a 11,50 euros e pode sair por 6,12

A ascensão e queda em bolsa da unidade africana da Mota-Engil foi um processo mais longo do que a permanência, de 10 meses e meio, em Amesterdão. Sai agora porque as acções já não representam "o justo valor da empresa".

Carla Pedro cpedro@negocios.pt 11 de Outubro de 2015 às 21:10
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Os planos da gestão 


- A ideia inicial da Mota-Engil era colocar a sua subsidiária africana na bolsa de Londres, ainda antes do Verão do ano passado. O plano consistia numa dispersão que acabou por não se concretizar – com efeito, com a crise do Grupo Espírito Santo, a operação foi cancelada, em Julho de 2014, ficando a oferta pública de venda inicial (IPO) em "stand by".

 

- Assim, o plano de abrir a Mota-Engil África à entrada de novos investidores (que se juntariam aos accionistas) foi adiado. Mas a empresa liderada por Gonçalo Moura Martins estava convicta de que a operação aconteceria até ao final do ano.

 

- A construtora decidiu, posteriormente e em alternativa, avançar com a colocação em bolsa da sua subsidiária, mas apenas das acções dadas sob a forma de dividendos aos accionistas da Mota-Engil. Ao colocar apenas as acções correspondentes aos dividendos, os investidores deixaram de ter a possibilidade de optarem pelo dinheiro, como estava inicialmente previsto, e tiveram de receber os dividendos no correspondente em acções.

 

- Também o destino de negociação foi alterado. A Bolsa de Londres exige um "free float" (número de acções disponíveis para negociação) mínimo de 25%, mas a construtora só colocou o equivalente a 20% do capital da unidade africana (que foi a percentagem entregue pela construtora aos seus accionistas, sob a forma dividendo em espécie), pelo que as acções foram admitidas em Amesterdão no dia 24 de Novembro de 2014.

 

As opções dos investidores

 

- Em Dezembro de 2013, a construtora tinha decidido distribuir aos accionistas 20% da sua unidade africana até ao final do ano de 2014. A operação delineada para a Bolsa de Londres previa a realização, em simultâneo, da entrega desse dividendo e uma operação no mercado (OPV) com a entrada de novos investidores.

 

- Os dividendos pagos aos accionistas da Mota-Engil davam então direito a 20% do capital da unidade africana. Por cada dividendo em espécie foram atribuídas 0,10334084 acções da Mota-Engil África – ou seja, a cada 100 dividendos corresponderam 10,33 títulos. No entanto, retirados os impostos, e feito o arredondamento, um investidor com 100 dividendos recebia 7 acções.

 

- O resgate do BES e a turbulência que se seguiu, no Verão de 2014, levaram a Mota-Engil a cancelar a IPO da sua participada africana. Em Novembro a construtora decidiu cotar apenas os dividendos que os accionistas da Mota tinham em carteira desde meados de Janeiro. Os investidores deixaram assim de ter a opção de escolha entre trocar os dividendos por dinheiro ou acções da Mota-Engil África.

 

- Com esta decisão, a empresa acabou por levar a cabo apenas uma das duas operações que tinha previsto para a Mota-Engil África, isto é: cotar em bolsa apenas as acções da sua participada entregues a título de dividendo aos investidores, deixando para mais tarde, para quando entendesse que existiam condições de mercado (o que nunca veio a suceder), a concretização da operação que conduziria à entrada de novos investidores.

 

A entrada em bolsa

 

- Logo no primeiro dia de negociação, a 24 de Novembro, as acções da Mota-Engil África afundaram 18%. Foi uma estreia acidentada, tendo a tendência prosseguido nas jornadas seguintes. Em 16 sessões, a recém-cotada já tinha perdido cerca de 50%.

 

- A única forma de os investidores transformarem os seus referidos dividendos em dinheiro era vender em bolsa, daí que se esperasse – como veio a acontecer – uma forte pressão vendedora sobre os títulos devido à "caça" ao dinheiro do dividendo.

 

- No primeiro mês em bolsa, o saldo era negativo, com a Mota-Engil África a cair 35%. Além da pressão vendedora por parte dos detentores de dividendos, a conjuntura negativa marcada pela queda dos preços do petróleo não ajudou a empresa liderada por Gilberto Rodrigues.

 

A evolução do preço

 

- A Mota-Engil África estreou-se a valer 11,50 euros por acção, um valor de referência estipulado pela Euronext Amesterdão e que ficou abaixo do valor mínimo do intervalo definido em Julho e que apontava para que o valor das acções da unidade africana ficasse entre os 11,70 e os 14,70 euros.

 

- A cotada na praça de Amesterdão foi perdendo valor e nos últimos tempos a gestão da Mota-Engil apontava já para a possibilidade de a sua subsidiária africana sair de bolsa.

 

Recompra de acções próprias

 

- O presidente da construtora, António Mota, disse em Setembro, na conferência Ibérica do BPI, que a saída de bolsa da unidade africana era uma das opções, já que o desempenho dos títulos desde a estreia tinha gerado grande descontentamento.

 

- Por outro lado, a Mota-Engil, que desde Fevereiro de 2014 não detinha qualquer acção própria, começou entretanto, a 22 de Setembro deste ano, a regressar ao mercado e a comprar as suas acções, tudo apontando para que esse cenário viesse a concretizar-se. Em três dias, passou a deter 1.050.000 títulos.

 

- Também a Mota Gestão e Participações adquiriu, nas últimas semanas, quase 500 mil acções da construtora. Nessa altura, as acções da Mota-Engil África estavam num mínimo histórico, a valerem 3,90 euros.

 

- O reforço da carteira de acções próprias intensificou os rumores de que a construtora portuguesa pudesse estar prestes a avançar com a retirada da sua subsidiária africana da bolsa de Amesterdão, através de uma oferta de troca de acções da Mota-Engil.

Mas esta retirada de bolsa está ainda longe de poder ser feita com a troca de títulos da Mota-Engil, sublinhou o BPI no dia 29 de Setembro. "A Mota-Engil teria que emitir cerca de 38 milhões de acções (19% das actuais acções), face às cerca de 0,5% de acções próprias detidas" pela companhia, referiu o banco.

 

A proposta aos accionistas

 

- A Mota-Engil vai pedir à bolsa de Amesterdão que retire as acções da Mota-Engil África da negociação, por considerar que elas "deixaram de representar o justo valor" da empresa, anunciou a construtora este domingo.

 

- "O Conselho de Administração da Mota-Engil pretende promover a realização de um aumento do capital social (...) até um montante equivalente ao que vier a ser empregue pela Mota-Engil África na aquisição das acções" que forem objecto de uma operação de exclusão da bolsa de Amesterdão".

É desta forma que a construtora liderada por Gonçalo Moura Martins pretende financiar a retirada da sua "holding" que agrega os negócios em África, de acordo com o comunicado enviado este domingo ao mercado.

 

- Em proposta aos seus accionistas, numa AG que poderá realizar-se a 23 de Novembro, a Mota-Engil vai propor, para financiar esta operação de retirada de bolsa da sua subsidiária africana, um aumento de capital com a emissão de novas acções no valor mínimo de 2,4814 euros por acção - valor superior em 10,2% ao do fecho da sessão de sexta-feira, 9 de Outubro (2,25 euros).

 

- Em causa está a intenção da construtora de recomprar as acções da Mota-Engil África, sujeita à aprovação dos accionistas, a quem será oferecida a "possibilidade de desinvestimento por meio de uma oferta de aquisição a lançar pela própria Mota-Engil África, na qual a empresa oferecerá uma contrapartida de 6,12 euros por acção". Um valor bastante abaixo dos 11,50 euros com que começou a negociar há perto de um ano.

 

- A oferta aos accionistas de uma contrapartida de 6,1235 euros por acção é equivalente ao preço médio ponderado das acções nos últimos seis meses e está 62,3% acima da cotação da Mota-Engil África no fecho de sexta-feira passada (3,77 euros).

A Mota-Engil detém 81,92% do capital da subsidiária, estando o remanescente dividido entre a "holding" da família Mota e pequenos investidores que detêm 5,5 milhões de títulos. 

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