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Bruno Carvalho assume rédeas do Sporting em situação financeira “impensável”

O 42º presidente dos leões defende que o clube precisa de uma reestruturação que passa pelo alargamento dos prazo de pagamento da dívida e que prevê a entrada de capital de parceiros entre 15 a 20 milhões de euros.

Paulo Calado/Record
Diogo Cavaleiro diogocavaleiro@negocios.pt 25 de Março de 2013 às 11:23
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Bruno Carvalho é o novo presidente da SAD do Sporting, depois de ter vencido as eleições do passado sábado. O novo líder leonino pretende continuar a reestruturação da empresa, defendendo medidas como o alargamento dos prazos da dívida e a injecção de capitais até 20 milhões de euros. Em bolsa, a notícia do novo presidente não animou os títulos.

 

O novo presidente foi, com os votos contabilizados até aqui, a escolha de 53,6% dos sócios sportinguistas, contra 45,4% que votaram em José Couceiro. Carlos Severino terá ficado com uma votação de 1%. Os resultados não são ainda os definitivos, já que ainda faltam os votos por correspondência. O “Record” indica que estes deverão chegar ao clube lisboeta até terça-feira, 26 de Março.


Quando assumir a liderança do clube, Bruno Carvalho terá de lidar com uma situação desportiva delicada. O Sporting encontra-se na décima posição da Liga Zon Sagres, com 27 pontos, 34 abaixo do primeiro classificado, o Benfica. Os verdes e brancos estão a apenas 10 pontos do Beira-Mar, que se encontra na última posição do campeonato.

 

A reestruturação pretendida por Bruno Carvalho  


A par do desempenho desportivo, há uma difícil situação a nível financeiro. Para Bruno Carvalho, o Sporting não precisa de um perdão de dívida mas sim de uma reestruturação. Uma das questões incluídas nessa reestruturação é a fusão da Sporting Património e Marketing (SPM) na SAD, suspensa por Godinho Lopes quando foram marcadas eleições. A fusão pretende resolver os capitais próprios negativos da SAD (diferença entre activo e passivo).

 

Além disso, Bruno Carvalho quer colocar em marcha um plano de racionalização de custos que faça com que, dentro de três anos, os custos não superem 60% das receitas. Sem perder maioria da SAD, o novo presidente pretende encontrar parceiros que queiram entrar no capital com valores entre 15 e 20 milhões de euros.

 

O que [o Sporting] necessita é de uma reestruturação: fusão da SPM na SAD para resolver os capitais próprios negativos e o Fair Play financeiro; alargar prazo de pagamento da dívida entre 40 a 60 anos

 

Bruno Carvalho

 

Um dos objectivos da nova cara do Sporting é alargar os prazos de pagamento da dívida entre 40 a 60 anos. Segundo o “Diário de Notícias”, Bruno Carvalho afirmou que os bancos parceiros (BES e BCP) gostaram do plano que apresentou para a SAD. O novo presidente deverá reunir-se com os parceiros financeiros já no final desta semana. O Negócios noticiou, no início de Março, que a banca não pretende pressionar a tesouraria verde e branca, estando disposta, por exemplo, a alargar os prazos de pagamentos – como pretende Bruno Carvalho.

 

Contudo, o Sporting tem que contar com a decisão do BCP de não aumentar a exposição ao clube, dado que o banco presidido por Nuno Amado quer colocar as empresas do futebol no lado das companhias a quem não vai conceder crédito.

 

A frágil situação financeira de Alvalade

 

No comando do clube de Alvalade, Bruno Carvalho terá de lidar com uma frágil situação financeira. A SAD verde e branca apresentou um prejuízo de 21,9 milhões de euros no primeiro semestre do seu ano fiscal (entre Julho e Dezembro de 2012), o que corresponde a um agravamento de 14,8% face ao período homólogo.

 

No mesmo semestre, o clube que era, aí, liderado por Godinho Lopes verificou uma descida de 14,4% das receitas, que se fixaram em 17,7 milhões de euros, e um avanço de 10,6% dos custos operacionais, na ordem dos 34 milhões de euros.

 

No plano patrimonial, o passivo ascendeu 10% para se situar nos 243,5 milhões de euros. Estes resultados são apenas individuais – ou seja, têm em conta apenas a SAD e não o clube. O “Diário de Notícias” escreve que o passivo consolidado (que junta as suas entidades) ascende a 400 milhões de euros.

 

António Samagaio, professor de contabilidade do ISEG que analisa as contas das SAD nacionais, fala num negócio deficitário. O académico foca-se no dinheiro gerado pelas actividades operacionais da SAD (diferença entre o que pagou a fornecedores, em impostos ou a pessoal, e o que recebeu de clientes, sócios ou da UEFA, por exemplo) para dizer que a situação financeira do Sporting é “impensável”.

 

Este indicador, chamado o fluxo de caixa operacional, é negativo no Sporting, o que indica que a empresa não é capaz de libertar fundos na gestão do negócio. Samagaio calcula que, entre 1999 e 2012, o fluxo de caixa operacional do Sporting ascenda a perto de 180 milhões de euros negativos.

 

Clube com 2 jogadores na sua mão

 

Esta situação não é um exclusivo dos verdes e brancos mas tanto o Benfica como o Porto conseguem compensar o negócio deficitário com a venda de atletas.


Em Alvalade, essa possibilidade está dificultada. O clube só tem, totalmente na sua posse, dois atletas: Pranjic e Boulahrouz. Quando um jogador assina um contrato com um clube, tem a ele associados direitos federativos (que permitem as inscrições nas provas) e direitos económicos. Os federativos só podem estar nas mãos dos clubes. Os segundos podem ser partilhados. O Sporting tem, como acontece com os restantes colectivos do sul dos continentes europeu e americano, vendido parte das percentagens dos passes, de forma a obter liquidez. Ou então para dividir o investimento quando compra um jogador, já que adquire apenas parte dos direitos económicos.


Esta questão pode ser um problema porque, quando vende os jogadores, já só irá receber a proporção coincidente com a percentagem do passe que detém. Na semana passada, o Sporting anunciou a venda de Ricky van Wolfswinkel ao Norwich por 10 milhões de euros (a que pode ser adicionado um valor variável de até 2 milhões de euros). Contudo, este é o montante correspondente a 100% dos direitos económicos. Segundo o relatório e contas, o clube tinha, a 31 de Dezembro de 2012, 35% destes direitos. Ou seja, segundo estas percentagens, só chegariam a Alvalade 3,5 milhões de euros.

 

Alegadamente, o Sporting terá vendido o passe de Wolfswinkel para conseguir pagar dois meses de salários aos seus funcionários, o que mostra o estrangulamento financeiro que se vive no clube da capital portuguesa. 

 

Acções caem em bolsa

 

As sociedades anónimas desportivas (SAD) portuguesas não têm uma grande liquidez em bolsa, o que significa que são trocadas poucas das suas acções. E, normalmente, nem as grandes notícias em torno dos seus negócios, como a entrada de um novo presidente, trazem grandes movimentações.

 

Grande parte da manhã bolsista foi passada sem qualquer negociação bolsista. Só depois das 10 horas é que foram trocados títulos da SAD verde e branca. Foram transaccionadas, até às 10h50, 5.000 acções da empresa, quando a média diária dos últimos seis meses se fica pelas 643 acções negociadas.

 

A troca levou a uma quebra de 4,43% para que cada acção esteja a valer 0,43 euros. Actualmente, a empresa apresenta um valor de mercado de 16,8 milhões de euros. 

 
O que Bruno Carvalho quer para as finanças do Sporting

Em antecipação às eleições, o Negócios entrevistou os vários candidatos à liderança da SAD leonina. Em baixo, encontram-se as respostas dadas por Bruno Carvalho.


1. O Sporting precisa de um perdão de dívida?
Não. O que necessita é de uma reestruturação: fusão da SPM na SAD para resolver os capitais próprios negativos e o Fair Play financeiro; alargar prazo de pagamento da dívida entre 40 a 60 anos; possibilitar investimento na próxima época; optimização de recursos a todos os níveis incluindo recursos humanos, serviços e FSE; No 1º ano, custos não ultrapassam 90% das receitas e em 3 anos 60%; VMOC - integrado no plano de reestruturação, sem perder maioria da SAD, por 55 milhões de euros aprovado pelos sócios; e entrada de capital de parceiros num valor entre 15 a 20 milhões de euros para potenciar as condições da reestruturação da dívida.


2. Qual o principal argumento para convencer alguém a investir no Sporting?
Primeiro, percebam o que é o Sporting, enquanto potência desportiva nacional e mundial. Depois, que os investidores percepcionem o Sporting como uma instituição com uma gestão e um projecto credível, de confiança e que honra os seus compromissos. E com um modelo que permita à SAD voltar a dar resultados positivos e a distribuir dividendos.


3. Como vê as parcerias com os patrocinadores PT, BES e Unicer?
Todos os acordos com os parceiros do Sporting serão em primeira instância analisados em conjunto com esses parceiros, no sentido de garantir aquilo que melhor serve às partes, tendo sempre presente os interesses supremos do Sporting.


4. Qual a sua posição sobre o valor dos direitos de TV?
A análise dos valores dos direitos de TV e os compromissos já assumidos pela direcção demissionária serão uma das nossas prioridades. A marca Sporting está subaproveitada e subvalorizada, com consequência directa no valor dos direitos de TV.


5. Como vê a iniciativa do Benfica de transmitir os jogos em casa no canal do clube? Admite fazer o mesmo no Sporting?
O clube tem em andamento a Sporting TV que é para nós um pilar estratégico do nosso modelo. Como chegamos depois de outros canais temos a vantagem de não cometer os erros por eles cometidos. É prematuro uma resposta concreta à questão, mas em tese é uma hipótese a considerar.


6. Que opinião tem sobre Jorge Mendes e o seu relacionamento recente com o Sporting?
vamos analisar muito bem os compromissos assumidos e em que medida os mesmos podem ser renegociados na defesa dos superiores interesses do Sporting. Os empresários e os fundos de jogadores existem e são uma realidade incontornável neste momento. A função e o papel de cada um devem ser claros em todo o processo, com o respeito pelo Sporting.


7. Qual o valor mínimo pelo qual aceitaria vender o "naming" do estádio?
Segundo as nossas estimativas o "naming" do estádio valerá cinco milhões de euros/ano, pelo que será este o valor.


8. Como avalia o trabalho do presidente da Federação Portuguesa de Futebol?
O Sporting manterá relações institucionais com as diversas entidades que tutelam o futebol e a seu tempo daremos conta das nossas avaliações e medidas que preconizamos na defesa dos supremos interesses do Sporting e do futebol nacional. Uma certeza porém, falaremos menos e actuaremos muito mais.

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