Empresas A ascensão improvável do Pastel de Nata que conquistou o mundo

A ascensão improvável do Pastel de Nata que conquistou o mundo

Uma sobremesa improvável está a caminho de se tornar tão omnipresente quanto o croissant.
Bloomberg 15 de abril de 2019 às 13:56

Não há muito tempo um pastel de nata autêntico exigia uma viagem a Portugal. Mas agora estão a aparecer nos supermercados, cafés e padarias de Mahnattan a Singapura. O bolo até teve o seu próprio episódio num programa britânico de relevo, o que mostra que o pastel de nata conquistou o mundo.

 

O pastel de nata está a tornar-se num sucesso internacional, séculos depois de ter sido inventado no Mosteiro de Belém por membros do clero. Em Portugal, este doce custa cerca de um euro nos locais de venda mais famosos, mas podem chegar à três libras (3,45 euros) nos cafés mais "trendy" de Londres. Um grossista, o Lidl, congratulou-se por ter vendido 2.000 pastéis de nata em apenas uma hora no Reino Unido, em 2018, com este bolo a competir com a popularidade dos donuts.

 

Em Manhattan, o chefe George Mendes introduziu o pastel de natal como sobremesa há um ano e meio no seu restaurante com estrela Michelin, numa inspiração portuguesa. Nem toda a geste está familiarizada com esta sobremesa – para já. Para os que não conhecem o pastel de nata: não usem faca e garfo. "É suposto comer-se com as mãos", afirmou George Mendes. "De preferência com uma colher de café." Até Mendes diz estar impressionado com o crescimento meteórico desta sobremesa.

 

Há menos de uma década, os pastéis de nata estavam na sombra. Claro, floresceu onde havia diáspora portuguesa, em sítios como Newark ou New Jersey. Mendes descobriu-os em Danbury, no Connecticut, onde há uma comunidade portuguesa. A sua mãe trazia pastéis de nata para casa depois de ir à igreja, de uma pastelaria portuguesa. E em 2012, o então ministro da Economia lamentou que os pastéis de nata não fossem um sucesso de exportação.

 

Não é claro o que provocou o "boom", mas há algumas pistas. Culturalmente, Portugal é um destino a "considerar" na lista dos turistas internacionais, e em Lisboa está a nascer um "hub" tecnológico para "millennials" com preços de rendas mais baixos dos praticados em Londres ou Nova Iorque.

 

Talvez, sem surpresa, a ascensão do pastel de nata esteja a ser fomentada em parte pela promoção do Governo, que patrocinou eventos como o Festival do Pastel de Nata em Londres, em 2018, e financia negócios locais. As exportações de especialidades portuguesas, como a carne, para outros países europeus ascenderam a mil milhões de euros em 2016, mais do que duplicando de valor no espaço de sete anos. Nos últimos três anos, o governo português gastou 50 milhões de dólares anualmente fora de portas a promover o país e os seus produtos.

 

Mas há também uma fonte de promoção mais improvável: uma pequena empresa chamada Nata Pura, que procurou fazer com o pastel de nata o que a Dunkin Donuts fez com os donuts. Criada em 2013, a empresa expandiu-se rapidamente, apoiada por um investimento de seis dígitos da Portugal Ventures, uma empresa de investimento que é financiada por agências estatais.  

 

O fundador Mabilio de Albuquerque usou a experiência de marcas internacionais como a McDonald’s e adaptou o bolo aos gostos locais: chá verde e maracujá para o Japão, brie, camembert e queijo azul para Paris.

Mabilio Albuquerque sabia que os seus amigos portugueses ficariam furiosos. O pastel de nata original, feito com ovos, farinha, leite e manteiga foi vendido durante séculos sem qualquer mudança e a sua receita foi guardada religiosamente. Mas Albuquerque não tinha o objetivo de agradar o público português. Estava a criar uma marca de pastéis de nata para exportar para todo o mundo através da sua start-up Nata Pura. Da Ásia à Europa, à América Latina e eventualmente aos EUA.

 

A Nata Pura não foi a primeira a tentar exportar o bolo, mas foi a primeira a fazê-lo de forma tão metódica, salienta Susana Costa e Silva, professora na Universidade Católica em Portugal, que usa a estratégia desta empresa como caso de estudo nas suas aulas. A pequena empresa – tinha apenas cinco funcionários em 2017 – contratou profissionais de marketing e marca, algo que os outros não fizeram, e encontrou parceiros estrangeiros para ajudar a impulsionar a expansão.

 

A Nata Pura recebeu reações entusiastas numa feira alimentar em Londres, onde Albuquerque vendeu a ideia como um produto de luxo mas financeiramente acessível. Participou em provas de degustação e patrocinou eventos como o Festival de Café de Londres e o BBC Good Food.

 

A empresa vende atualmente cerca de 500 mil pastéis de nata por mês nas suas 5.000 lojas espalhadas pelo mundo. Albuquerque revelou que as vendas rondam os 1,5 milhões e dois milhões de euros por ano e espera duplicar este número este ano. Mais de um terço do seu negócio vem da Coreia do Sul, onde um dos seus clientes, a cadeia CVS, disponibiliza os pastéis de nata nas suas 12.500 lojas.

 

Por agora, o chefe Mendes será o único entre os chefes mais conceituados do mundo a oferecer o pastel de nata. Mas diz não se surpreender se este bolo se tornar mais comum.




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