Desporto Artur Soares Dias: “Árbitros são mais competentes do que os jogadores”

Artur Soares Dias: “Árbitros são mais competentes do que os jogadores”

O melhor árbitro da época passada encara os erros “com naturalidade”, opõe-se à divulgação da avaliação de desempenho e avisa que a gestão das carreiras tem de ser “mais eficaz” para a arbitragem portuguesa voltar aos grandes palcos.
Artur Soares Dias: “Árbitros são mais competentes do que os jogadores”
Paulo Duarte
António Larguesa 11 de agosto de 2016 às 00:01
Artur Soares Dias acabou a Liga 2015/2016 no topo da classificação, após apitar quatro "clássicos" e final da Taça. O ex-gestor admite que se apercebe de erros durante o jogo, valorizando a flexibilidade para voltar a decidir com a mesma capacidade emocional com que entrou no relvado.

Foi o melhor árbitro na última época. Onde esteve o segredo?
Em qualquer função, quando atingimos o topo de uma classificação tem de ser forçosamente pelo trabalho. E, como é lógico, [depende] sempre [de] uma boa oportunidade para o mostrarmos e termos um bom desempenho.

Antes do último Porto-Sporting avisou: "somos humanos, vamos errar". Porque têm de fazer tanta prova dos erros?
O erro faz parte do homem e encaro com naturalidade algumas decisões menos bem conseguidas. Os árbitros não têm possibilidade de adiar uma decisão e têm de estar constantemente disponíveis para se adaptarem a circunstâncias diferentes: seja à chuva, ao relvado que fica molhado, a um jogador que entra ou sai. Quando há uma decisão menos bem conseguida, temos de nos remontar para tomar outras num curto espaço de tempo e com a mesma capacidade emocional com que entrámos no jogo. Esta flexibilidade é essencial.

Não há condicionamento para o resto do jogo?
É um dos aspectos que trabalhamos na perspectiva emocional. Os gestores podem tomar uma decisão e depois fazer o "follow-up" para ajustá-la às realidades que surgem. Eu não tenho capacidade de ajustar nada. Tomo a decisão e está tomada. Mesmo que me aperceba que não foi a melhor, tenho de continuar a exercer a função na plenitude das minhas capacidades e pensar: "OK, não vou falhar mais nenhuma". Algumas vezes dá para nos apercebermos [do erro] pelas reacções naturais, que são as mais verdadeiras, dos elementos da minha equipa e até dos jogadores.

Como avalia a qualidade dos árbitros portugueses? Não esteve nenhum no Euro 2016...
É um facto, mas foi um conjunto de circunstâncias que não voltarão a ocorrer. Não tem a ver com a qualidade dos recursos humanos, seguramente. Os nossos árbitros são bons e estarão nas próximas grandes competições, como [estiveram] Pedro Proença, Olegário Benquerença, até Vítor Pereira ou Lucílio Baptista. Somos bons, já temos escola – embora possamos maximizá-la – mas sou ambicioso. Há sempre algo a melhorar.

E que papel tem aí a avaliação do desempenho?
É levada a sério, é daí que sai o ranking dos árbitros. As carreiras deviam ser trabalhadas de forma mais eficaz para termos portugueses em todos os Europeus e Mundiais. A avaliação de desempenho devia ser tratada com maior cuidado e detalhe porque vai dar origem a uma gestão de carreiras e, por sua vez, o acesso aos grandes palcos.

Não vê vantagens em torná-la pública?
A arbitragem está envolvida num espectáculo que é público e envolve milhões de pessoas. Não obstante, o mais relevante é que a avaliação de desempenho diz respeito ao avaliador e avaliado. Não vejo razão para publicitar [a nota]. Por que carga de água querem saber se fui ou não bem avaliado? O processo tem o objectivo claro da melhoria do desempenho num futuro exercício. O resto é curiosidade mórbida de saber se foi penalizado ou se foi bem analisado.

Mas os clubes também estiverem envolvidos nesse desempenho que está a ser avaliado.
A comunicação deve ser aberta – envolvendo jogadores, treinadores, árbitros, comunicação social –, mas até ao ponto em que é relevante para o processo. Os jogadores também têm uma avaliação que não é pública, mas acaba por ser notada ao serem ou não convocados [para o jogo seguinte]. Neste caso, o facto de ter apitado quatro clássicos significa que, à partida, as actuações foram boas porque deram origem às seguintes.

Em 2015, na final da Taça, esteve um árbitro, Marco Ferreira, que desceu de divisão…
Pois. [pausa] Aí é uma questão pura e dura de recursos humanos e uma gestão de desempenho que terá de ser avaliada.

A arbitragem não ajuda à turbulência nesta indústria?
É turbulenta por causa de todos os "players". É tudo uma questão de mensurar. Há estudos que comparam a taxa de eficiência de jogadores e árbitros na tomada de decisão. As pessoas ficariam admiradas por [verem que] os árbitros são mais competentes do que os próprios jogadores. O deixar jogar, assinalar lançamento ou falta, exibir cartão amarelo, são tudo decisões num jogo. Contabilizadas em relação às duas ou três menos boas, a percentagem [de erro] é reduzida. Se uma equipa chuta seis vezes à baliza e não marca golo, a eficiência não deve ser muito boa. É sempre mais maximizado o erro [do árbitro] para esconder outros.

Não se vêem árbitros a alimentar polémicas, a apontar defeitos ou erros ou falhas das equipas, mas o inverso vê-se muito. Se cada um se preocupasse em melhorar a sua taxa de eficiência, seguramente iríamos ter uma indústria melhor.
Por que resistem à tecnologia?
De todo. Os árbitros têm adoptado algumas. Há bandeiras "bip", equipamento áudio, agora o sistema para saber se a bola entra na baliza, relógios com localização GPS para saber se é o melhor local para decidir face à sua capacidade anaeróbica e aeróbica. Não vejo outros "players" com tanta abertura para melhorar, de facto, a decisão. O vídeo-árbitro? Pode ajudar, mas não está ali a solução para os problemas todos. Se falharmos um pénalti por jogo já é muitíssimo. Mas por que se foca nesse lance, muitas vezes até discutível, e não no volume de golos falhados pelas equipas?


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perfil Gestor apaixonou-se na Luz Artur Soares Dias, 37 anos, é natural de Massarelos, no Porto. Licenciado em Gestão de Recursos Humanos no ISLA e com MBA na Lusíada, iniciou a carreira na fábrica da Faurecia, em São João da Madeira, tendo depois chefiado os RH da antiga Portucel (actual Europac), em Viana do Castelo. Antes de se tornar profissional da arbitragem, em 2012, trabalhava na multinacional de telecomunicações Transcom. Filho do antigo árbitro Manuel Soares Dias, decidiu seguir-lhe as pisadas quando, aos 16 anos, o acompanhou num jogo que apitou na Luz e ficou cativado com "a moldura humana e emoções que existem num estádio". No ano seguinte ignorou os conselhos do pai, que se retirou nesse ano (1996), e começou a arbitrar. Aproveita os tempos livres para estar com a família – tem dois filhos – e viajar. O último destino de férias foi Tailândia.



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