Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Até que ponto é que esta crise poderá fazer-nos perder a cabeça?

Diz-se que esta foi uma crise provocada pela voracidade dos resultados. Colapsaram mercados e empresas. Pessoas também. São de betão e de emoções as fundações abaladas. Para evitar ceder, pedem-se ainda mais resultados. Os níveis de ansiedade estão ao rubro. Correremos o risco de ficar esgotados? Os especialistas temem que sim...

Até que ponto é que esta crise poderá fazer-nos perder a cabeça?
Elisabete de Sá esa@negocios.pt 16 de Janeiro de 2009 às 18:00
  • Assine já 1€/1 mês
  • 1
  • ...
Com um gole de água toma o segundo ansiolítico do dia. Na estação de comboios de Algés, o relógio ainda nem sequer vai nas 9h30. "Eu vou ser capaz". Todos os dias, já lá vão tantos meses, Rui repete a ladainha que, se fosse milagrosa, evitaria aquela sensação de pânico que o congela todas as manhãs, a caminho do emprego. Pela mesma hora, noutra rota da área metropolitana de Lisboa, Susana "arrasta-se" em direcção ao emprego. É quarta-feira e começa a ser indisfarçável a alergia que lhe avermelha a cara à medida que a semana avança.

Rui e Susana trabalham em sectores de actividade distintos. Não se conhecem. Do lado de lá da linha telefónica aproveitam para fazer a catarse possível: já não estão a aguentar tanta pressão. É que se é esta uma crise provocada pela voracidade dos resultados, para sair dela há que conseguir ainda mais resultados. Dizem-se esgotados.

"As pessoas estão muito cansadas. Da incerteza, da mudança constante, de decisões e contra decisões. Cansadas de toda esta pressão fóbica para os resultados", analisa Maria Teresa Roseta. Psicóloga de formação, esta especialista reparte o seu tempo entre o ensino da gestão de recursos humanos no MBA Executivo da escola de negócios da Faculdade de Economia do Porto e a MQI, consultora que criou em 1993 para actuar nas áreas do "training" e "coaching" e que trabalha com empresas multinacionais e nacionais, entre as quais várias cotadas, da indústria à banca.

"Sinto que as pessoas estão atordoadas, sem objectivos. Vejo cada vez mais sinais de tristeza, medo, muita ansiedade e angústia. E, em casos mais graves, ataques de pânico. Já há muitas pré-depressões e depressões por aí, e de forma transversal nas empresas", reforça. Para Teresa Roseta não restam dúvidas: a crise está a alavancar os níveis de stress. Até porque esta é uma crise que vai ter as costas muito largas, acredita a especialista.

Uma crise de nervos

A "dimensão sem precendentes" do actual contexto justificou já um alerta da Organização Mundial de Saúde (OMS), no início de Outubro. "Capital humano saudável é o pilar da produtividade e pode acelerar a recuperação em direcção à estabilidade económica". Uma população saudável e estável é sempre um activo, especialmente em tempos de crise, frisou a OMS.

Poucos dias depois, um relatório do governo britânico, reforçava o alarme: a crise iria afectar a saúde mental do país. A par do stress das famílias provocado pelo endividamento, "as pessoas sentirão insegurança nos seus empregos e sentir-se-ão mais ameaçadas". A agressividade nos locais de trabalho tende a aumentar, aponta o relatório por 400 especialistas convidados pelo executivo do primeiro-ministro Gordon Brown.

No início desse mês, a imprensa internacional tinha feito grande eco da história de Karthick Rajaram, um corretor de Los Angeles com 45 anos, com currículo construído em grandes empresas como a Pricewaterhouse Coopers e a Sony Pictures. Desempregado há vários meses, e após perdas na bolsa que agravaram a situação financeira da família, Rajaram alvejou mortalmente a mulher, os três filhos, e a sogra, suicidando-se de seguida. Uma vítima da crise financeira, escreveram os jornais. Por essa altura, o caso de Rajaram somava-se já às histórias de muitas outras famílias americanas, vítimas de uma crise que começou por estoirar no mercado imobiliário, para se alastrar depois ao mundo financeiro e à economia real.

"Não devemos ficar surpreendidos ou subestimar a turbulência e as possíveis consequências da crise financeira. (...). Não deverá ser uma surpresa se continuarmos a ver surgir mais causas de stress, mais suicídios e mais perturbações mentais", afirmava Margaret Chan, directora da OMS, numa reunião sobre saúde mental que se realizou na Suíça, nesse mesmo mês de Outubro.

Numa outra ponta do mundo, também o Japão, país tradicionalmente com elevadas taxas de suicídio, enviava o alerta. As linhas telefónicas de apoio psicológico começavam a ficar congestionadas.

A dor física do cérebro

À medida que se começaram a mediatizar histórias de suicídio associadas à crise, entidades responsáveis pela área da saúde mental esforçaram-se por refrear os ânimos. É difícil estabelecer uma relação de causa-efeito entre crises económicas e o aumento das taxas de suicídio. "Na verdade, mais de 90% das pessoas que morreram por suicídio tinham uma perturbação latente à altura da sua morte, na sua maioria uma depressão", aponta a American Foundation for Suicide Prevention, a propósito de inúmeros episódios registados nos últimos meses nos EUA, desencadeados por situações de desemprego, dívidas avultadas, e ordens de despejo. As estruturas mais frágeis são as primeiras a ceder, avisa António Coimbra de Matos, psiquiatra e psicanalista.

"A incerteza e a ambiguidade aumentaram significativamente, bem como a influência no nosso quotidiano de factores sobre os quais não temos controlo directo como, por exemplo, a recente subida das taxas de juro. Assim, podemos ter um aumento de situações de perturbação de ansiedade generalizada ou perturbações de pânico. Podemos ainda ter situações de depressão, pois esta pode muitas vezes resultar de uma percepção de que, independentemente do que a pessoa fizer, a sua situação de desconforto ou insatisfação não muda". Ou seja, "não é por trabalhar mais ou melhor que vamos conseguir necessariamente assegurar o nosso emprego, e consequentemente o pagamento da prestação da casa, a escola dos filhos, etc.", analisa Carla Moleiro, psicóloga clínica e professora auxiliar no departamento de psicologia social e das organizações do ISCTE.

Valemos pelo que somos ou pelo que fazemos?

Numa sociedade onde o trabalho é factor importante na identidade e bem-estar das pessoas "por vezes excessivo, pois esquecemo-nos das coisas e pessoas que são verdadeiramente as mais importantes para a nossa vida e felicidade" o stress laboral é traduzido em dores de cabeça, costas e estômago, por vezes vómitos, alergias e ataques de pânico, enumera Carla Moleiro. "O stress continuado, ansiedade e depressão diminuem o nosso sistema imunitário, o que nos torna mais vulneráveis a outro tipo de problemas físicos, desde as gripes e infecções a questões de saúde mais graves", acrescenta.

"Acredito que mais de 80% das doenças que existem na vida das empresas, e que geram absentismo, entre outros problemas, estão ligadas a somatizações", diz Teresa Roseta (ver sinais de alerta).

Para Coimbra de Matos, tudo pode ser resumido ao "sentimento que o indivíduo tem de si próprio". As depressões respondem, em regra, a um de dois tipos: culpa ou desvalorização. Hoje, predominam as últimas. "Desde a infância que se pede às pessoas que sejam eficazes. Valoriza-se mais a eficiência do que valores como a honestidade", detalha. A solução é estarmos menos dependentes do nosso papel social, aconselha.

Vamos repetir com ele: "eu valho por aquilo que sou, não pelo que faço". A auto-estima é a principal fonte de confiança. E sem esta dificilmente conseguiremos olhar para dentro e encontrar em nós a energia que nos ajudará a ultrapassar um mau ciclo. A seguir em frente. Até porque, como sublinha Teresa Roseta, uma crise antecede, em regra, uma fase de desenvolvimento. É a bonança que se segue à tempestade. E "o optimismo faz parte da nossa saúde mental", remata Coimbra de Matos.


A palavra dos especialistas

A incerteza e ambiguidade aumentaram muito, bem como a influência no nosso quotidiano de factores sob os quais não temos controlo directo.
Carla Moleiro - Psicóloga clínica e professora no ISCTE


Sinto as pessoas atordoadas, sem objectivos. É urgente desenvolver competências que as ajudem a sair de um mau ciclo.
Teresa Roseta - Psicóloga, consultora e professora da EGP


Predominam hoje as depressões associadas à ideia de desvalorização. Valoriza-se mais a eficiência do que a personalidade.
António Coimbra de Matos - Psiquiatra, psicanalista e professor


Não deverá haver hoje gestor que seja capaz de dormir muito tranquilo na certeza de que a sua empresa está no caminho certo.
Teresa Roseta - Psicóloga e sócia da MQI


Muitos líderes não estão a ser capazes de comunicar de forma positiva e isso contamina toda a estrutura.
Maria João Martins - Psicóloga e sócia da MyChange


Pânico matinal

"Estou cansado de tentar ir em todas as direcções"

Rui (nome fictício) tem 35 anos e é comercial. O ano de 2008 ficou marcado pela forma como foi forçado a confrontar-se com fragilidades que, em determinado momento, deixou de conseguir controlar. Os sinais manifestavam-se logo pela manhã, sempre minutos antes de sair de casa em direcção ao emprego. O coração disparava, os suores quentes e frios instalavam-se. Tomava o primeiro ansiolítico do dia. Respirava fundo e dirigia-se à estação de Algés onde o pânico não o deixava entrar no comboio. Segundo ansiolítico. A ida para o trabalho transformou-se no seu inferno matinal e, pela primeira vez desde sempre, Rui chegou a faltar por não ser capaz de seguir no comboio até Lisboa. Com a cabeça à roda, saiu a meio e regressou a casa de táxi. Por descargo de consciência, fez vários exames médicos que comprovaram que, no plano físico, tudo estava bem. "À medida que comecei a contar ao médico que os sintomas eram todos os dias à mesma hora, nunca ao fim de semana, percebi claramente o que se passava, mas que me custava admitir", recorda. "Em determinada altura comecei a sentir que não era capaz de fazer o meu trabalho. Com os efeitos da crise a chegarem à empresa, parece que deixou de haver rumo e que nos era pedido para ir em todas as direcções. Comecei a ficar cansado e a achar que estava a falhar", desabafa. Pediu ajuda e vários meses depois, garante sentir-se melhor. "Mas são ainda muitas as manhãs em que pareço ter o coração na boca quando vou em direcção ao trabalho", confessa.


Irritação cutânea

"Sinto-me uma tosta prensada entre as bases e o topo"

Susana (nome fictício) tem 39 anos e trabalha numa consultora. Em meados do ano passado, à medida que o negócio começou a abrandar, a empresa começou a entrar numa espécie de esquizofrenia. Entre o rumo traçado e a prática começou a haver um fosso, explica. "A tentativa para arranjar resultados é de tal forma desesperada que quase vale tudo, mesmo que isso possa comprometer o posicionamento da empresa no mercado", conta. Quadro intermédio, responsável por uma equipa, Susana diz que se sente "ensanduichada", entre o desnorte que lhe é transmitido de cima, e a desorientação e desânimo que recebe de baixo. Em toda a estrutura, "há hoje um clima bastante agressivo que não existia até agora. Uma espécie de enervação que contagia todos", descreve. A meio do ano, as defesas de Susana começaram a ceder. Ganhou uma espécie de alergia cutânea que lhe avermelha a cara e que lhe causa embaraço social, nomeadamente em reuniões com clientes. Os sintomas agravam-se à medida que a semana avança e desaparecem totalmente durante o fim-de-semana. Susana ainda não foi ao médico. Em "80% dos dias", diz, acorda sem vontade de ir trabalhar. "A minha motivação ainda não está em zero, mas anda lá perto". O volume de trabalho nunca a assustou, garante. Não consegue é lidar com a sensação de deriva. "É preciso manter a calma para que possamos encontrar soluções e até oportunidades no actual contexto. Mas no topo, só reconheço uma espécie de desespero", remata.


"A auto-confiança dos decisores está abalada"

A incerteza gera insegurança. E esta apenas gera mais incerteza. O líder não é um super-herói. O difícil parece ser admiti-lo.

É uma combinação fatal: incerteza e insegurança. A primeira, turva a direcção. A segunda, bloqueia a acção. Ambas atropelam-se sucessivamente. "De certeza que não há, neste País, gestor que esteja a ser capaz de dormir muito tranquilo. Com tanta incerteza, ninguém poderá estar seguro de que a sua empresa está no bom caminho", acredita Teresa Roseta.

Recentemente, a psicóloga recebeu na sua caixa de correio electrónico um pedido de ajuda de um líder de uma empresa nacional. "Estou com algumas dificuldade. Pode passar cá ao final do dia?". O caso está longe de ser isolado. "A auto-confiança de gestores e decisores está abalada. Muitos estão a pedir apoio", revela.

"Esta crise tem contornos diferentes de outras anteriores. O valor da confiança foi irremediavelmente abalado e, quando se abala a confiança, abala-se a estrutura do ser humano", analisa.

A dificuldade em decidir parece estar em cima de muitas mesas. É legítimo que assim seja. "O problema é que, a quem lidera está a associada a ideia do super-herói, preparado para tudo e sempre com respostas", diz Maria João Martins, sócia da MyChange, consultora que trabalha na área da gestão da mudança. "E devido a algum provincianismo que ainda temos em Portugal, as pessoas têm imenso receio em expor as suas fragilidades", acrescenta Teresa Roseta. A solução, aconselham, deverá residir na autenticidade que resulta na partilha e no envolvimento que faz com que lideres e liderados trabalhem em conjunto para procurar caminhos.

"Eu até aceito que quem está acima não tenha respostas, mas não entendo porque é que não se assume um discurso honesto que envolva as equipas na procura de soluções, ao invés de se fingir que se tem as respostas, quando é óbvio que tal não é verdade. O líder apenas fica descredibilizado", aponta Rui.

"As pessoas no topo têm que aprender a aceitar melhor as suas vulnerabilidades e fragilidades emocionais. Se lidarmos com os nossos sentimentos de forma mais inteligente, mais facilmente descobrimos em nós os recursos que nos ajudam a seguir em frente, mantendo a serenidade, mesmo sabendo que, cada vez menos, dominamos todas as variáveis. Só não sei se muitas das pessoas que estão à frente das organizações estão preparadas...", diz Teresa Roseta.


Pessimismo no topo

Um encontro de quadros desastroso

"Um amigo meu, com um cargo de responsabilidade relevante, contou-me que participou, no Outono, num encontro de quadros da sua empresa. Era altura para fazer o balanço do ano. A experiência foi tão negativa, de discursos tão pesados, de visões do futuro tão negras, que ele ficou com vontade de desistir, de voltar para casa e enfiar-se na cama, exausto pela falta de inspiração". A história é contada por Maria João Martins, psicóloga de formação e umdas das sócias da MyChance, consultora de apoio à gestão da mudança. "Nos tempo que correm, em que os níveis de ansiedade subiram, este tipo de comportamentos incitados por líderes são criminosos, pois ao não estarem a ser capazes de comunicar de forma positiva, estão a contaminar toda a estrutura de trabalho. E, se todos pararmos, a casa vem abaixo", defende. É certo que a dificuldade de visionar em frente pode levar a uma menor capacidade para tomar decisões. É legítimo. Por isso, "a consciência de uma certa autenticidade é um bom caminho para quem lidera", aconselha a consultora.

15 sinais que nos devem fazer ficar alerta
1. Variações de humor (picos de alegria e tristeza)

2. Perturbações de sono (insónias e/ou sono agitado)

3. Explosões emocionais (irritabilidade fácil)

4. Dificuldades de concentrar a atenção (planear e organizar)

5. Dificuldade de decisão

6. Crises de choro desajustadas

7. Excesso de sensibilidade emocional

8. Diminuição do interesse e do entusiasmo

9. Medo de falhar e sensação de "não ser capaz"

10. Sensação de fadiga persistente

11. Isolamento (não apetece sair ou conviver)

12. Sentimento de culpa e/ou inutilidade

13. Dores de cabeça persistentes

14. Perturbações alimentares (apetite diminuído ou bulimia)

15. Ameaças de desistência
Fonte: Teresa Roseta, MQI
Ver comentários
Outras Notícias