Empresas Credit crunch: o risco que a troika sempre temeu continua presente

Credit crunch: o risco que a troika sempre temeu continua presente

Acesso mais difícil ao crédito foi sempre um risco identificado pela troika. PME dependentes do mercado nacional – grande parte do tecido empresarial – são as principais prejudicadas
Nuno Aguiar 28 de janeiro de 2014 às 00:56

Logo no Memorando de Entendimento original a troika avisava o Governo português acerca de um risco que poderia decorrer do programa de ajustamento: que o reequilíbrio dos balanços dos bancos os leve a fechar a torneira do crédito. "É essencial evitar um ciclo de feedback negativo entre o sector financeiro e real e contra o risco contínuo de um ‘credit crunch’ [estrangulamento de crédito]", escrevia a troika em Maio de 2011. O tema foi abordado em todas as avaliações e obrigou o Governo a tomar medidas específicas. Hoje, continua a ser um dos principais obstáculos na retoma da economia portuguesa.

Apesar de os números agregados de crédito estarem a recuperar há dois anos, existem duas tendências claras. Até Novembro de 2013, os empréstimos acima de um milhão de euros cresceram 16%, mas para valores inferiores, a queda de 9 anos consecutivos continuou em 2013 (-5,6%).

As PME são as que mais sofrem. Mesmo quando o crédito é conseguido, os juros são muito mais elevados do que no resto da Zona Euro. Segundo os dados do Banco Central Europeu (BCE), os juros de novos empréstimos inferiores a um milhão de euros realizados em Portugal estavam em Novembro, em média, nos 6,14%. Números muito superiores aos 3,82% registados na média da Zona Euro ou dos 3,04% na Alemanha. Na Grécia, por exemplo, os últimos dados disponíveis apontam para um valor de 6,63%.

Esta diferença coloca um grave problema de competitividade às empresas portuguesas face ao resto da Europa. Mais que isso, sabendo que as PME representam a larga maioria do tecido empresarial nacional e que muitas delas dependem exclusivamente do mercado interno para sobreviver, a recuperação económica portuguesa fica fragilizada.

Na terceira avaliação, os técnicos da troika escreviam que "um aumento significativo dos juros dos empréstimos sugere que a oferta de crédito caiu mais do que a procura", acrescentando que "as condições de crédito oferecidas pela banca se estão a tornar cada vez mais restritivas; as taxas de rejeição de empréstimos estão a aumentar: as empresas estão a reportar cada vez mais dificuldades de acesso ao crédito".

Na última avaliação, a troika referia que "o crédito para o sector não-transaccionável – nomeadamente a construção, energia e comércio – continuou a contrair drasticamente em cerca de 10% até Julho de 2013". Embora notem que o crédito para "empresas exportadoras continua a melhorar gradualmente".

Um problema periférico

O problema não é só português, estendendo-se a outros periféricos. Numa conferência no início de Janeiro, em Dublin, Patrick Honohan, governador do Banco Central da Irlanda, queixava-se disso mesmo. "Os bancos não sabem avaliar o risco das PME. É esse o obstáculo, além do capital. A liquidez existe, mas os bancos estão a posicionar-se de forma a parecerem bem nos testes de stress. Acontece por toda a Europa, não apenas na Irlanda."

O tema dos testes de stress é especialmente sensível para os bancos europeus. Pressionados para reduzir o peso do crédito face aos depósitos, o sector financeiro apertou a torneira do crédito, tornando-se muito mais cauteloso. Assim deverá continuar até estarem terminados os testes de stress do Banco Central Europeu que, muitos temem, podem revelar falta de capital na banca europeia.

Um estudo da Universidade de Nova Iorque publicado este mês, antecipava que os testes podem revelar uma insuficiência de capital na ordem dos 770 mil milhões de euros em 109 grandes bancos europeus. Um valor que, a confirmar-se, poderia empurrar a Europa para novos resgates de bancos pagos pelos contribuintes.




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