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“Falta aos empresários portugueses aprenderem a viver sem subsídios”

Entrevista a António Bernardo, “managing partner” da Roland Berger.

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Diferenciar é mais importante que cortar custos, disseram os CEO portugueses no ano passado.

O grande desafio é, na realidade o crescimento, seja para e empresas de grande ou média dimensão. Diferenciar e inovar são os únicos factores que permitem crescer de uma forma competitiva. Inovar em modelos de negócios, nos serviços, do produto...

Mas não considera que a maior preocupação das empresas continua a ser a contenção de custos?

Não acho. Aliás, a maior parte das empresas já concluiu os seus grandes programas de transformação e de optimização. Aqueles que não estão concluídos, já foram lançados e estão em fase de implementação. A optimização de custos é algo que é contínuo mas não vai ser o grande "driver". Chega-se a uma certa altura em que não há mais espaço para cortar custos. No final da década de 80, olhava para um conjunto de indústrias e o factor competitivo dessas indústrias era o custo do pessoal. As pessoas ganhavam pouco, era miserável.

E agora não?

Agora não é possível competir assim. Claro que têm de ter sempre os custos alinhados, mas o grande "driver" não é esse. É o crescimento, que se faz com inovação e com grande agressividade de internacionalização. Não falo só das "EDPs". Martifer, por exemplo, Visabeira, Mota-Engil, Lena Construções. E mais pequenas ainda.

Entrámos num novo ciclo...

Vejo claramente um novo ciclo de preponderância estratégica face à execução. Há um recado que eu gostaria de dar às empresas, em especial às de média dimensão: o crescimento deve ser feito, mas atenção à excessiva diversificação. O crescimento tem de ser muito enfocado em dois ou três "core business". Por exemplo, as empresas de construção devem estar bastante atentas face a um mercado de escala mínima, em torno de mil milhões de euros de facturação. Com mil milhões não se pode ter um "portfolio" muito diversificado. Portanto, a "performance" a médio prazo é mais forte quanto menor o nível de diversificação.

Acha que temos um problema de escala?

A Suíça também é um mercado relativamente pequeno...

Devem as PME criar "clusters" industriais?

Quando as empresas são muito pequenas, podem partilhar algumas fases da cadeia de valor, como desenvolvimento de produto, promoção internacional..

A quem cabe a iniciativa: ao Estado ou aos empresários?

Tem de haver, da parte dos empresários, essa vontade. O Governo deve concentrar-se em criar as condições para que haja concorrência, regulação, infra-estruturas. Agora, o Estado não tem que ter um papel paternalista.

A atribuição de subsídios/incentivos provoca alguma inércia aos empresários?

Falta os empresários não poderem contar com os subsídios, com o apoio paternalista do Estado, de sentirem as dificuldades do Estado e sobretudo de terem um conjunto de estratégias claras. Seguramente que o Estado pode e deve dar incentivos, mas têm que ser incentivos que não deturpem as condições de concorrência, que não tirem a dinâmica às empresas.

Também somos pouco activos na internacionalização?

Há um movimento de internacionalização, mas ainda não é suficiente. Primeiro, é muito importante ter uma base local. É daí que nasce, mas não chega. E é aí é que eu acho que se tem que incentivar, não só materialmente, mas culturalmente os empresários. Aí, sim, o Governo também pode ter um papel de incentivo.

E hoje, a Península Ibérica é o nosso mercado doméstico?

Deveria ser. As empresas espanholas consideram a PI o seu mercado local. Às vezes é mais fácil as empresas em Madrid concorrerem em Portugal do que concorrer na Catalunha. Nós deveríamos ser mais dinâmicos na conquista de posições nesse mercado. Actualmente fazer negócios em Espanha não é muito diferente de fazer negócios em França, se calhar até já ultrapassou Itália em termos de dinâmica empresarial. Aliás, as grandes aquisições feitas no Reino Unido, no ano passado, foram de empresas espanholas e não foram aquisições pequenas. Foi a Ferrovial que se lançou para a BAA. Foi o Santander que se lançou para a Abbey National.

E nós estamos longe?

Já há empresas muito interessantes. Por exemplo, a Sonae, CGD, o BES. Mas não é suficiente. Poder-se-iam ter feito algumas aquisições importantes e marcantes.

Os portugueses não gostam de pagar prémios de aquisição

Quais?

Por exemplo na área de Energia, a Unión Fenosa podia ter sido comprada pela EDP ou pela Galp.

O que falha?

O prémio de aquisição. Os portugueses não gostam muito de pagar prémios de aquisição. E hoje, no mercado, tudo se joga com prémios de aquisição. Por exemplo, a CGD, há uns anos, perdeu duas aquisições (Zaragozano e o Atlântico) em Espanha. Aí, os espanhóis são um "benchmarking". Um prémio de uma empresa cotada nunca é abaixo de 25%. Os espanhóis pagam e depois vão buscar todos os ganhos possíveis: sinergias, desenvolvimento de receitas. Foi o caso da compra do Banco do Estado de São Paulo pelo Santander. Hoje é um dos bancos mais eficientes do mercado brasileiro.

E em Portugal?

Só vejo eventualmente dois casos onde se pensou grande. O caso da EDP com a Horizon. E o caso da Vivo. As pessoas começam a perceber que, para comprar, têm que comprar o prémio e depois fazer aquilo que chamo o PMI ("Pos Merger Integration") e encontrar sinergias.

A questão ibérica é ainda uma questão em aberto?

Temos que estar mais presentes. Pode ser também em cidades de média dimensão, como Sevilha, Galiza, Santander, Bilbao. Mas, há casos interessantes, como o esforço que a Galp está a fazer em Espanha.

Acha que a Galp vai crescer com esse esforço em Espanha a curto prazo?

A Galp Energia será, seguramente, a curto prazo o terceiro maior "player" de petróleo em Espanha. Ainda terá possibilidade de fazer mais. A integração com a AGIP vai dar uma boa ajuda.

Outro prémio é a integração com os BRIC. Porquê?

A Rússia e a Europa de Leste são áreas de grande crescimento. Esta Europa de Leste vai passar por muito do que Portugal passou: reestruturação de indústrias, investimentos em infra-estruturas, parcerias público-privadas. E, nós, portugueses, somos líderes em parcerias público-privadas. E montámos, pela primeira vez, grandes estruturas de "project finance".

Este prémio contempla a integração na China, nomeadamente a plataforma em Macau. Acha que esta está a ser mal explorada pelos portugueses?

Não estamos a explorar suficientemente. Macau está muito ligado ao Sul da China, que é a zona mais rica do país. A liberalização do mercado do jogo provocou grandes investimentos nos serviços, na construção, no imobiliário. Uma boa área para investir é, precisamente, a financeira.

E acha que existem algumas empresas de olhos postos nessa plataforma?

Vejo a CGD e o BES, por exemplo, a posicionarem-se aí, bem como algumas empresas de construção. Há um conjunto de empresas que estão a tentar construir operações de compra, no imobiliário, de produtos de largo consumo, estão a utilizar a plataforma para poderem ser uma plataforma de aprovisionamento.

Porquê esta demora?

Falta de dinâmica empresarial. Existem outras localizações que mereceram as atenções, como África. E atenção. Começa a haver um triângulo económico interessante entre Brasil, África, China. Depois o triângulo torna-se um quadrilátero com a Ibéria. E começa a haver Ibéria para o Brasil. E nós podemos jogar com estes fluxos. Há muitos anos que se diz que o Brasil é um grande potencial. No entanto, nunca se concretiza o potencial. O Brasil, dentro de pouco tempo, será "investment" grade. O prémio de risco tem baixado brutalmente. Hoje deve estar em menos de 200 pontos base. A economia não tem crescimentos enormes como a Argentina, mas tem um plano PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) e grande parte deste é feito através de investimentos em infra-estruturas, que nós achamos que as empresas portuguesas e espanholas têm grande potencial para explorar. A área de turismo também vai ser muito importante. O Brasil tem menos turistas internacionais do que nós. Falamos de 10 milhões de turistas, o que para um país como este não é nada. A área da Energia vai ser brutal. E, aí, a EDP e a Galp vão ter grandes oportunidades.

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