PME Mercado biológico à conquista de terreno
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Mercado biológico à conquista de terreno

Os produtos biológicos não ficam confinados às fronteiras da agricultura. Abarcam sectores como a cosmética ou o vestuário, que têm vindo a ganhar dimensão nos últimos anos em Portugal. Os negócios 'bio' combatem a crise destacando os conceitos de saúde e ambiente associados aos produtos que vendem.
Mercado biológico à conquista de terreno
Maria Cano/webtexto Bruno Simão - Fotografia 30 de maio de 2013 às 10:39

Miguel Monteiro | A ideia de lançar os supermercados Brio surgiu num jantar com um amigo.

 


Um acidente vascular-cerebral antes dos 40 anos obrigou André de Saint-Maurice a abrandar o ritmo. Químico de formação, durante o tempo de convalescença decidiu enveredar por outras experiências e aventurou-se a fazer um sabonete. Foi desta forma que começou a sua aventura no mundo biológico.


Pôs mãos à obra, converteu uma parte da casa em laboratório e é lá que, sozinho, cria géis de banho, shampoos, cremes ou sabonetes que depois vende semanalmente em mercados de produtos biológicos, em lojas que abastece e através da sua própria loja "on-line". O negócio foi ganhando dimensão e a marca Biofunny, como lhe decidiu chamar, chegou ao Brasil.


Este é um dos muitos negócios que têm começado a surgir no mercado dos produtos biológicos e que mostram que este é um sector que vai muito além dos produtos alimentares. Mesmo dentro deste sector , tem havido uma grande diversificação. Jaime Ferreira, presidente da Direcção da Agrobio - Associação Portuguesa de Agricultura Biológica, com 6.300 associados, diz que as apostas mais recentes neste tipo de produtos se têm verificado na área das plantas aromáticas e medicinais, frutos vermelhos e vinhos biológicos. Os "consumidores procuram, sobretudo, alimentos, mais legumes e frutas, de elevada qualidade, considerados benéficos para a saúde, sem pesticidas e sem outros tipos de resíduos, mas também com maior qualidade nutritiva".


Foram estas características que levaram Fernanda Rodrigues e Jorge Cardoso a inovar no sector do vinho. Engenheiros agrónomos, queriam trabalhar directamente na terra. Compraram uma herdade no Alentejo e puseram mãos à obra. Mas este não foi um daqueles casos de sucesso à primeira tentativa. "Nos dois primeiros anos perdemos a produção quase toda, mas nunca desistimos", diz Fernanda Rodrigues.


Perceberam que este era um nicho de mercado importante a explorar e mantiveram a aposta. Este ano apresentaram o produto ao mercado através de duas feiras - a alemã BioFac e a portuguesa Terra Sã. Afirmam que o vinho Outeiros Altos foi bem recebido e que o resultado começa a materializar-se: estão na fase dos contactos para começarem a exportar a primeira produção "a sério".


Os primórdios
A agricultura biológica atravessa uma fase de expansão em Portugal. Segundo dados da Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, este tipo de agricultura ocupava 7.183 hectares e tinha 234 produtores em 1994, valores que passaram para quase 220 mil hectares e 2.602 produtores em 2011.


A subida da procura foi acompanhada por um crescimento nos locais de venda especialmente vocacionados para este tipo de negócio, como é o caso da BioCoop, uma cooperativa de consumidores que foi pioneira no mercado.


Criado em 1993, foi o primeiro supermercado biológico a operar no país. Só mais de uma década depois é que a oferta de lojas especializadas do sector começou a proliferar. O aparecimento dos supermercados Brio é um dos casos. Actualmente, existem quatro e o primeiro nasceu em Campo de Ourique, em 2008.


"Havia uma lacuna muito grande, e ainda continua a haver, na área dos biológicos, daí ter surgido o Brio", diz Miguel Monteiro, gestor de rede destes supermercados. Refere que, apesar da dimensão que o sector ganhou nos últimos anos, ainda sente que falta informação sobre este mercado. "As pessoas conhecem muito os produtos frescos, frutas e legumes, e não conhecem o resto", refere Miguel Monteiro, acrescentando que a isso ainda está associada "a ideia de que, por ser produto biológico é extremamente caro".


O responsável da Brio reconhece que a chegada da 'troika' e da crise fizeram estremecer o negócio, mas não desanima. "As coisas estão a compor-se", diz, referindo que continua a existir mercado por explorar "não só na da grande Lisboa, mas também na zona do Algarve ou do grande Porto".


A percepção de Miguel Monteiro confirma-se nas palavras de Catarina Crisóstomo investigadora sobre agricultura biológica em Portugal. Diz que, mesmo com a crise, tem havido expansão, ainda que lenta. Porquê? Porque as pessoas se preocupam cada vez mais com a saúde e com o meio ambiente e estão a despertar para a realidade 'bio'. Esta espécie de "movimento contracorrente" verifica-se com mais intensidade em Lisboa, mas Catarina Crisóstomo ressalva, também, que há algum consumo no Porto e no Algarve, principalmente por parte de estrangeiros.


Quanto às empresas que operam na área, são pequenas e estão numa fase inicial. É uma "escala pequena, com modelos de negócio personalizados, clientes e canais de distribuição próprios", mas ressalva que, quanto mais tivessem, mais venderiam.


Selo de garantia
Uma questão crucial neste mercado é a da certificação, que funciona como um selo de garantia para estes produtos. Há normas relativas à agricultura biológica que se aplicam a todos os estados membros da União Europeia e há um logótipo da UE para os produtos que estejam conforme o regulamento.


No entanto, António Mantas, director e responsável pela certificação da SATIVA, ressalva que o regulamento "não se aplica a produtos não alimentares transformados, o que faz com que seja aplicável ao linho, como produto agrícola, mas não seja a uma camisa de linho, porque é transformado e não é alimentar. O mesmo sucede para cosméticos ou outros produtos".


Apesar dos muitos projectos que vão surgindo na área do biológico, este não é ainda um sector organizado. Alfredo Cunhal Sendim, produtor biológico na Herdade do Freixo do Meio, diz que aqui o Estado já poderia ter tido o seu papel. "Nunca assumiu o papel estratégico deste modelo de agricultura", o que leva a uma "lacuna de consciência dos consumidores" e, logo, a uma falta de mercado, porque as "pessoas pensam que é algo elitista".


A partir de 2014, poderá haver uma viragem, nomeadamente para a agricultura biológica. O próximo quadro comunitário apoiará a agricultura, refere Jaime Ferreira. O apoio passará pela inclusão do chamado conceito "greening", ou seja, pagamentos ecológicos que visam apoiar financeiramente práticas e actividades sustentáveis como é o caso da agricultura biológica.

 

 
Tome nota

Os Números do Sector Biológico em Portugal

- Havia 220 mil hectares de agricultura biológica em 2011 e 2.602 produtores de agricultura biológica.

- As vendas de alimentos biológicos totalizavam 21 milhões de euros.

- Portugal ocupa o sétimo lugar num estudo que contempla 160 países de todo o mundo, com um maior aumento de área de agricultura biológica entre 2009 e 2010. O crescimento foi de quase 50 mil hectares.


Fontes: Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, FiBL, IFOAM





Regras para lançar um negócio 'bio'
- Informe-se se os produtos estão abrangidos pela regulamentação europeia e nacional.

- Verifique a obrigação ou não de certificação.

- Verifique se tem matérias-primas disponíveis em Portugal.

- Peça informação às associações do sector, Agrobio e Interbio, por exemplo.

- Frequente mercados, feiras e eventos para perceber se o produto terá aceitação.

- Informe e esclareça os possíveis consumidores sobre o sector.


Fontes: Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, FiBL, IFOAM 

 




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