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Pais Jorge nega “concepção” de “swaps” tóxicos mas não desmente reuniões para o vender

“As responsabilidades relativamente à concepção, elaboração e negociação de produtos derivados não eram e nunca foram da minha competência [quando estive no Citigroup]”, assegura Joaquim Pais Jorge. O governante considera que a leitura de que tentou vender instrumentos especulativos é “abusiva” mas não nega ter participado na apresentação dos mesmos ao Ministério das Finanças e ao IGCP.

Diogo Cavaleiro diogocavaleiro@negocios.pt 02 de Agosto de 2013 às 14:42
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O secretário de Estado do Tesouro, Joaquim Pais Jorge, nega ter participado na elaboração ou na concepção dos produtos derivados que terão sido propostos ao Governo de José Sócrates em 2005 - e recusados - e que “maquilhavam” as contas públicas. Joaquim Pais Jorge defende que, quando estava no Citi, era apenas um “importador” de ideias e planos dos colegas.

 

“As minhas responsabilidades inseriam-se sobre as relações com clientes do banco em questão. As responsabilidades relativamente à concepção, elaboração e negociação de produtos derivados não eram e nunca foram da minha competência”, disse Pais Jorge aos jornalistas, no “briefing” que o Governo decidiu realizar dois dias por semana para melhorar a sua comunicação.

 

Apesar de ter dito, repetidas vezes, que não participou na elaboração nem na concepção dos produtos propostos ao Governo de Sócrates em 2005, que não seriam contabilizados para o défice e para a dívida pública (estariam escondidos), o actual governante admitiu que participava em várias reuniões com os clientes. “Exercia, no fundo, o papel de importador das ideias, dos planos e dos programas que os meus colegas desenvolviam”, disse Joaquim Pais Jorge.

 

A notícia da “Visão” de quinta-feira dava conta de um documento entregue em nome do Citigroup ao IGCP (organismo que gere a dívida pública), ao Ministério das Finanças e ao gabinete do primeiro-ministro, em que eram propostos três derivados financeiros. “Os Estados geralmente não providenciam [ao Eurostat, gabinete de estatísticas europeu que calcula o défice orçamental e dívida pública] informação sobre o uso de derivados. (...) Os ‘swaps’ serão, efectivamente, mantidos fora do balanço”, indicava o documento.

 

O artigo da revista dizia ainda que, no caso específico do gabinete de José Sócrates, a proposta tinha sido entregue por Paulo Gray, na altura director-executivo do Citi para Portugal (actualmente na StormHarbour, consultora escolhida para assessorar o IGCP no processo dos “swap”), e por Joaquim Pais Jorge, o secretário de Estado.


Havia muitas reuniões e Pais Jorge não se lembra em quais participou

 

“Participava em dezenas, porventura mais até que uma centena, de reuniões por ano, em muitas das situações era pedida a minha colaboração em cima da hora. Não consigo precisar todas as apresentações onde estive presente. Em concreto, gostaria de salientar que essas apresentações foram sempre elaboradas por equipas de analistas e não tiveram o meu contributo ou a minha apreciação”, frisou Joaquim Pais Jorge, que os partidos mais à Esquerda consideram não ter condições para se manter no cargo.

 

Contudo, em relação às reuniões que o artigo da “Visão” fala, entre o Citibank e o gabinete do primeiro-ministro, o Ministério das Finanças e o IGCP, as declarações de Joaquim Pais Jorge são confusas.

 

Essa confusão foi patente quando foi pedida pelos jornalistas a confirmação da entrega do documento em que propunha três produtos financeiros que maquilhariam as contas públicas ao gabinete do primeiro-ministro de então, José Sócrates.


“Não posso evidenciar que tenha estado sequer nessa apresentação. Não me lembro se estive nessa apresentação”, começou por dizer para depois fazer alguns acrescentos: “Não posso confirmar [a existência da proposta], se não estive lá. Admito que a apresentação existiu, uma vez que consta nos ficheiros no IGCP” . Mais à frente negou ter proposto alguma coisa ao primeiro-ministro. “Nego que entreguei essa proposta”.

 

A confusão manteve-se já que no “briefing” em que, apesar de ter sido criado para melhorar a comunicação e a transparência do Governo, foi imposto um limite de três perguntas a cada um dos secretários de Estado presentes. Além de Pais Jorge, estava Leitão Amaro, da Administração Local, e Pedro Lomba, secretário de Estado Adjunto do ministro Adjunto, que é o governante responsável por estas reuniões.

 

Leitura da “Visão” é abusiva

 

Na sua intervenção inicial, antes das perguntas dos jornalistas, Joaquim Pais Jorge mencionou o artigo da “Visão” e discordou da ideia de que terá proposto um derivado financeiro que escondia a dívida e o défice público.

“Considero que é imprópria e abusiva a leitura feita pela ‘Visão’ e retomada hoje [sexta-feira] em alguns órgãos de comunicação social”, declarou o secretário de Estado, que diz que o seu passado “é amplamente conhecido” por estar na nota curricular que foi disponibilizada pelo Governo.

 

Joaquim Pais Jorge afirmou que a ministra das Finanças mantém em si confiança política. “Obviamente discuti [o artigo] com a senhora ministra das Finanças e, uma vez que mantenho o seu apoio, penso que tenho as condições necessárias para o exercer”, disse quando questionado sobre se tinha condições políticas para se manter na secretaria de Estado do Tesouro.

 

“A senhora ministra que me convidou para o lugar, conhecia o meu percurso e tê-lo-á transmitido ao senhor primeiro ministro”, acrescentou ainda Pais Jorge, que saiu da liderança da Parpública, empresa que gere as participações do Estado em empresas, para ser secretário de Estado do Tesouro, quando Maria Luís Albuquerque subiu a ministra das Finanças na sequência da demissão de Vítor Gaspar.

 

(Notícia rectificada às 16h06: o terceiro secretário de Estado no "briefing" era Leitão Amaro e não Morais Leitão, como estava indicado erradamente)

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