Banca & Finanças Panamá, onde o GES tinha um banco para enganar o BdP

Panamá, onde o GES tinha um banco para enganar o BdP

ES Bank Panamá era um discreto banco da família Espírito Santo que ganhou fama antes do colapso do GES. O paraíso fiscal que anda nas bocas do mundo por ter ajudado figuras internacionais foi usado por Ricardo Salgado para enganar o Banco de Portugal.
Panamá, onde o GES tinha um banco para enganar o BdP
Maria João Gago 05 de abril de 2016 às 18:30

A praça financeira que hoje anda nas bocas do mundo por ter isso usada por líderes políticos internacionais, figuras ligadas ao mundo do futebol e até artistas para esconderem rendimentos financeiros já foi sede de um lucrativo banco de capital português. ES Bank Panamá era o nome da instituição que o Grupo Espírito Santo (GES) tinha no país da América Central.

 

Durante anos, foi apresentado como um banco especializado na captação de depósitos, concessão de crédito, distribuição de produtos de gestão de activos e operações de financiamento estruturado. E contribuía com resultados positivos para os lucros do Espírito Santo Financial Group (ESFG), a "holding" do GES para a área financeira e através da qual a família controlava o Banco Espírito Santo.

 

Nos últimos cinco anos completos antes do colapso do GES, entre 2009 e o final de 2013, o Panamá gerou um total de 52,88 milhões de euros de resultados para o ESFG, que detinha todo o capital do ES Bank Panamá.

 

Os sinais de alarme em relação ao discreto banco do GES nas Caraíbas soaram internacionalmente cinco dias depois de Ricardo Salgado ter abandonado a liderança do BES, em Julho de 2014. No dia 18 de um dos piores meses da história da família Espírito Santo, o regulador do Panamá anunciava ter assumido o controlo temporário do banco, perante o risco de insolvência da instituição.

 

Para justificar os problemas do ES Bank Panamá, o supervisor financeiro local, conhecido por Superintendência de Bancos do Panamá (SBP), apontava o dedo ao GES: os problemas dos seus principais accionistas limitam o acesso "a recursos financeiros e afectam a sua capacidade de prosseguir a actividade", detalhava o comunicado da SBP.

 

No Verão de 2014, enquanto as "holdings" de controlo da família Espírito Santo pediam a protecção de credores, o seu banco no Panamá ganhava notoriedade internacional. Três semanas depois da resolução do BES, a Reuters noticiava que o banco fazia parte de um esquema que permitiu financiar o GES em cerca de 5.000 milhões de euros, recorrendo, indirectamente, aos clientes do BES, já depois de o Banco de Portugal ter proibido a venda de dívida da área não financeira do grupo aos balcões da instituição financeira.

 

"A dívida era vendida através um complexo esquema transatlântico envolvendo empresas no Panamá e na Europa, disseram as fontes [contactadas pela Reuters]. Muita da dívida acabou no Banco Espírito Santo e nos seus clientes, acrescentaram as fontes, acelerando assim as condições que levaram a que o banco fosse resgatado pelo Estado no início deste mês", escreve a agência esta segunda-feira, 25 de Agosto.

 

Poucas semanas mais tarde, foi a vez de o Financial Times revelar que, pelo menos desde 2012, o ES Bank Panamá era usado para financiar as "holdings" de controlo do GES. "O banco do Panamá ligado aos Espírito Santo existia quase exclusivamente para adquirir dívida emitida pela ESI e as suas subsidiárias Rioforte e Espírito Santo Irmãos, de acordo com um relatório dos administradores do ES Bank", escrevia o diário britânico a 11 de Setembro de 2014.

 

O presidente da KPMG Portugal, Sikander Sattar, havia de confirmar na comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do GES, em Dezembro de 2014, que o ES Panamá fazia parte do esquema de financiamento do grupo.

 

Mas as ligações financeiras ocultas com o banco do Panamá não passaram apenas pelas "holdings" de topo do GES. Também houve financiamentos do BES ao ES Bank Panamá. E em violação de determinações do Banco de Portugal. A denúncia consta do primeiro sumário executivo da auditoria forense que a Deloitte realizou à queda do BES a pedido do Banco de Portugal.

 

Segundo as conclusões do primeiro bloco da autópsia ao colapso do universo Espírito Santo, o crédito do BES a empresas do ESFG – ES Bank Panamá e à Espírito Santo Financiére (ESFIL) – aumentou 580 milhões de euros entre o final de 2013 e 30 de Junho de 2014, em violação das proibições definidas pelo Banco de Portugal. Estes financiamentos terão permitido a estas entidades dar crédito à Espírito Santo International, "holding" onde já tinham sido detectadas irregularidades e que o BES e o ESFG estavam proibidos de financiar.

 

A exposição do BES ao banco da família no Panamá ainda acabou por penalizar o Novo Banco, uma vez que esta instituição ainda herdou crédito do ES Bank. Nas contas de 2014, o banco liderado por Eduardo Stock da Cunha fez provisões para outras contingências relacionadas com o banco do Panamá no valor de 63,7 milhões de euros, contribuindo para os prejuízos do Novo Banco.

 

A utilização do BES para financiar o GES de forma ilícita e em violação das determinações do supervisor liderado por Carlos Costa é objecto de um dos processos de contra-ordenação que o Banco de Portugal tem em curso contra o banco e os seus antigos responsáveis, como Ricardo Salgado.




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