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"Estou assustado. Não foi para isto que aconteceu o 25 de Abril"

Em entrevista ao "i", Jardim Gonçalves tece duras críticas às regras de recapitalização da banca e à gestão excessivamente tecnocrática em que Portugal está a embarcar. Sobre a Grécia, aponta o dedo ao ambiente de conflito criado pelos líderes europeus.

Negócios negocios@negocios.pt 21 de Maio de 2012 às 09:05
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Os passos que estão a ser dados ao nível da supervisão financeira constituem “uma intervenção brutal e cega em patrimónios que são bons e de boa qualidade”. O resultado será a nacionalização dos bancos dos países pobres e a sua subsequente venda a quem tiver dinheiro. Será a venda do País ao exterior, antecipa Jardim Gonçalves, numa entrevista hoje publicada pelo jornal “i”.

O antigo banqueiro, que diz dar a entrevista ao “i” “com o objectivo de alertar”, diz que “eu estou assustado e não foi para isto que aconteceu nem o 25 de Abril, nem, depois, a lei de 84, que permitia a abertura ao sector privado de determinadas actividades económicas. Não foi para isto. E ninguém tem a coragem de dizer que estão a nacionalizar”.

Muito crítico em relação às regras europeias de recapitalização da banca, o antigo homem-forte do BCP, diz que gostaria que lhe explicassem – e já fez a pergunta – “a razão de ser dos rácios de capital que estão a ser impostos à banca”. “Porquê? Porquê 10% para o core tier 1 no fim de 2012? Porque não 12% ou 7%?”, questiona-se.

Para Jardim Gonçalves, a saúde do sistema financeiro não está no volume de capital dos accionistas: “O que garante a saúde financeira de uma instituição financeira é a qualidade dos activos, a quem se empresou, com que recursos, e qual o retorno”. E, apesar disso, “todos os governos estão a aceitar as determinações da EBA (European Banking authority) sem questionar, quando o organismo nem tem autoridade, - “nunca vi em nenhum tratado”, adianta.

Preocupado com a perda de influência dos Estados nacionais sobre os seus sectores financeiros, Jardim Gonçalves diz estarem a dar-se passos “para que a supervisão venha a ser centralizada fora de todos os países”. O problema deste caminho “é a incompetência que vai existir a nível central em relação a uma supervisão que deixa de ser prudencial porque não conhece, não se distingue”.

Nós somos europeus, e o problema dos gregos é também meu”

Jardim Gonçalves mostra-se ainda muito preocupado com a situação europeia, nomeadamente com a forma como os líderes estão a lidar com o problema grego.

“O colectivo que foi responsável pela entrada da Grécia na União Monetária não está a ter com a Grécia a atenção que esta ou qualquer outro membro merece em alturas de dificuldade”, adianta o antigo banqueiro.

Criticando a Europa, que diz estar numa “atitude de conflito, de exigência” desde o primeiro momento, preferiu-se exibir as fragilidades do país em vez de tomar “medidas integradoras que resolvessem, num prazo adequado, os problemas do Pais”.
E tê-lo feito a tempo, sustenta, “significava uma percentagem bastante pequena do produto global da União Europeia”.

Para Jardim Gonçalves os gregos devem ficar no euro, como membro de pleno direito, sem que se devam ver diminuídos por isso. Confessa que nunca gostou da expressão “Portugal não é a Grécia” porque “nós somos europeus, e o problema dos gregos é também meu”.
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