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"Fornecedores têm que ser mais agressivos na inovação"

O líder da Autoeuropa faz um quadro sobre a capacidade das empresas portuguesas e deixa um aviso: "Se não conseguem, têm de perceber porque é que não conseguem"

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Além de director-geral de uma das maiores exportadoras nacionais, António Melo Pires é júri no concurso, promovido pelo Negócios, que visa sublinhar o sucesso das empresas nacionais na exportação e internacionalização. Foi nessa dupla condição que concedeu esta entrevista.

Referiu recentemente que os fornecedores portugueses não estão preparados para competir na indústria automóvel. O que falta?
De uma maneira geral falta dimensão. Parte das empresas são de pequena dimensão o que limita logo à partida o alcance das condições mais favoráveis para serem fornecedores da Volkswagen. Uma empresa de pequena dimensão, como grande parte das nossas empresas são, tem logo à partida uma desvantagem pelo facto de comprarem a matéria-prima mais cara. É uma questão de escala. Nós temos ofertas em que as pessoas dizem: "isto não paga sequer o preço da matéria-prima".

Nesse sentido a exportação e a internacionalização são o caminho para adquirirem a tal escala de que fala...
Para ganharem volume, para ganharem escala e sobretudo para potenciar uma organização das empresas em estrutura vertical. Se olharmos para o modelo japonês, por exemplo, eles começam a fazer o projecto, constroem a ferramenta, entregam a peça e entregam o sub-conjunto, o que lhes permite acrescentar valor em toda a cadeia e não só no produto final. Isso, grande parte das nossas empresas não tem. Por exemplo, o grupo Simoldes, que talvez seja um exemplo pela positiva, integra várias valências dentro do grupo, o que lhes permite fazer essa verticalização do processo.

Empresas da dimensão da Autoeuropa têm o dever de ajudar as empresas com quem têm relações a, também elas, se internacionalizarem? Como a Autoeuropa fez, em parte, com a Sodecia...
Temos procurado fazer isso. Aliás temos uma pessoa só dedicada especificamente a apoiar tecnicamente os fornecedores. Mas os fornecedores não têm sido muito proactivos nesse aspecto.

A que é que acha que isso se deve? É uma questão cultural?
Também é uma questão cultural. Quando se coloca uma oferta à frente do fornecedor, eles vêem que não conseguem competir e acabam por abandonar e cair em descrédito. Acho que têm que ser um pouco mais agressivos do ponto de vista da inovação. Não basta dizer: "eu não consigo competir com este peço". Se não conseguem têm de entender porque é que não conseguem.

Que medidas defende para potenciar a componente exportadora das empresas?
Existem alguns programas que estão em vigor mas que na minha opinião ainda não são suficientes. Nós tomámos a iniciativa, juntamente com o AICEP, de desenvolver um programa qualificado para exportar, precisamente para apoiar as pequenas e médias empresas sobretudo do ponto de vista da gestão. Já fiz a sugestão várias vezes de criar um consórcio que pudesse apoiar as empresas em questões de marketing, em questões de centrais de compras, para que essas empresas pudessem beneficiar de reduções de custo. Essa iniciativa tem que partir, em grande parte, do sector privado.

Desde que chegou à Autoeuropa que tem colocado muita ênfase na aposta em fornecedores locais, no sentido de reduzir os custos de transporte das matérias-primas. O que é que já foi feito?
Conseguimos alguns fornecedores e neste momento estamos com uma carteira para os próximos cinco anos de cerca de 23 milhões de euros de fornecedores nacionais, mas na nossa opinião ainda é muito pouco. Com o que nos temos deparado é que grande parte das ofertas que são colocadas no mercado, a maioria dos nossos fornecedores não tem capacidade e nem concorrem. Seria necessário que essas empresas subissem na cadeia de valor acrescentado, apostando em novos processos e na inovação de forma a conseguir concorrer no mercado com preços concorrenciais e com a qualidade necessária.

No que toca a destinos de exportação, defende que se elejam destinos em particular?
Eu acho que sim. Obviamente que o grande destino vai ser sempre a União Europeia (UE), sobretudo no sector automóvel.

Mas não acha que um redireccionamento das nossas exportações deveria ser equacionado tendo em conta, por exemplo, a "explosão" dos BRIC?
O grande problema dos BRIC é que grande parte ainda tem o mercado protegido. A indústria automóvel tem que se virar essencialmente para a UE até por uma questão de competitividade. Porque os mercados mais exigentes em termos de qualidade e custo são necessariamente os mercados europeus e isso também é necessário para forçar as empresas a serem concorrenciais.

Mas a Autoeuropa oferece-nos um exemplo paradigmático do aproveitamento dos BRIC, com o crescimento das exportações para a China...
Ainda não lançámos o Sharan na China. Vai ser lançado na última semana de Junho, e na semana anterior lançamos o EOS. Por isso esperamos que esse aumento seja maior no futuro.




Perfil

19 anos de dedicação à "causa Volkswagen"


Natural da região de Setúbal, António Afonso de Melo Pires tornou-se, no dia 1 de Setembro de 2010, no primeiro português a liderar os destinos da fábrica portuguesa da Volkswagen, ao suceder a Andreas Hinrich.

Antes de assumir a Autoeuropa, o engenheiro, formado pelo Instituto Superior Técnico em Engenharia Aeronáutica, conta com 19 anos "de casa". Começou em 1992 na unidade de carroçarias da fábrica de Palmela, onde permaneceu durante 11 anos, e de onde saiu para dirigir a área de carroçarias da fábrica de Navarra, Espanha.

Em 2006 assumiu a liderança da fábrica de São Bernardo do Campo, São Paulo, tendo sido nomeado director-geral da fábrica de Curitiba, no ano seguinte.

Entre os trabalhadores é muito apreciada a simplicidade e acessibilidade com que lida com todos os quadros. A política da fábrica prevê mesmo o "Café Com O Director" - período em que é dada aos trabalhadores a possibilidade de exporem ao líder as suas preocupações.

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