Web Summit Snowden elogia regime de proteção de dados mas considera-o "insuficiente"

Snowden elogia regime de proteção de dados mas considera-o "insuficiente"

O regime geral de proteção de dados (RGPD) é "um bom primeiro esforço" mas "não é a solução", disse esta segunda-feira Edward Snowden no dia inaugural do Web Summit.
Snowden elogia regime de proteção de dados mas considera-o "insuficiente"
Miguel A. Lopes/Lusa
Pedro Curvelo 04 de novembro de 2019 às 19:43
O regime geral de proteção de dados (RGPD) é "um bom primeiro esforço" mas "não é a solução", disse esta segunda-feira Edward Snowden - no dia inaugural do Web Summit. O problema, considerou o informático que expôs práticas do governo norte-americano em termos de vigilância mundial, está "na recolha de dados, não na proteção".

"É uma legislação que vai no bom sentido, mas o problema reside na recolha de informação. E não apenas se essa informação depois vaza", sublinhou.


Mas, advertiu, "até vermos as multas serem aplicadas às grandes empresas, é apenas um tigre de papel, algo que nos dá um falso sentimento de confiança".

Snowden iniciou a sua intervenção no Web Summit, através de vídeoconferência, explicando por que motivo decidiu tornar públicas as práticas de vigilância das agências secretas norte-americanas.


"Quando se entra para a CIA presta-se um juramento de defender os valores da Constituição. Mais tarde, preenche-se um formulário sobre confidencialidade. Quando, muitos anos mais tarde, descobres que o que fazes, o que a organização a que pertences faz, é uma conspiração gigante contra os valores que juraste proteger... lutei com isso internamente durante algum tempo, mas a primeira lealdade é para com a Constituição dos Estados Unidos", justificou.


O que se passou, explicou Snowden, foi que deixou de haver a "vigilância tecnológica dirigida a alvos específicos". Em vez disso, "passou-se a vigiar toda a gente, em todo o lado e a toda a hora". "As leis deixaram de importar, os tribunais deixaram de importar, os nossos direitos deixaram de importar. O que fazer quando as instituições mais poderosas da sociedade se tornam as que menos contas prestam à sociedade?", reforçou.

Seis anos após ter divulgado informações secretas, Snowden considera que "o mundo está a mudar, as pessoas estão frequentemente zangadas com as pessoas certas, mas pelas razões erradas". "Quer estejamos a falar do Facebook ou da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos EUA, estamos a falar de abuso de pessoas. Falamos de um sistema que abusa das pessoas em benefício dos mais privilegiados", declarou.

Tecnológicas fizeram "acordo com o diabo"

Para Snowden, as companhias tecnológicas, ao fornecerem dados aos governos ou agências governamentais, fizeram um "acordo com o diabo". "As empresas queriam acreditar que os governos vão usar a informação para combater o crime e o terrorismo. Mas, em muitos casos, estas ferramentas foram armas para atacar o público e não para proteger o público", defendeu.

A tecnologia, salientou ainda, "é em grande medida neutral", mas "é uma amplificação do poder individual". "Quando é usada por governos e grandes empresas o que vemos é uma concentração de poder, de controlar ou influenciar, que levante questões reais sobre se os benefícios compensam os verdadeiros custos", advogou.

É preciso que todos se apercebam que "os dados não são inofensivos, não são algo abstrato quando se tratam de pessoas. Não são os dados que são explorados ou manipulados, são as pessoas. São vocês", atirou.

A terminar a sua participação no evento, Edward Snowden deixou um recado aos presentes no Web Summit: "Nós somos a única coisa que nos pode proteger. E para nos protegermos a nós próprios temos de proteger toda a gente".




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