Embaixador defende que EDP nos EUA não será vendida à China Three Gorges

O embaixador dos EUA em Portugal defende que o negócio das renováveis da EDP nos EUA não vai estar no negócio entre a portuguesa e a China Three Gorges. George E. Glass alerta para a entrega de "infra-estruturas críticas" de um país a outras economias.
Lusa
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Diogo Cavaleiro 04 de setembro de 2018 às 09:45

É uma palavra norte-americana a opor-se à proposta de aquisição da EDP pela sua maior accionista, a China Three Gorges. O embaixador dos Estados Unidos em Portugal, George E. Glass, deu uma entrevista ao Observador e defendeu que o negócio da portuguesa nos EUA não vai constar da venda ao grupo estatal chinês. 

A EDP "tem activos muito importantes nos Estados Unidos, no sector das renováveis, é o terceiro maior fornecedor de energia renovável nos Estados Unidos. Esse pedaço não vai estar incluído neste negócio", afirmou Glass ao Observador.

Esta é a confirmação de reticências americanas à operação lançada pela empresa estatal chinesa. As ofertas públicas de aquisição da CTG sobre a EDP e a Renováveis obrigam a duas autorizações nos EUA: da comissão reguladora de energia dos EUA (FERC) e do comité de avaliação de investimentos estrangeiros (CFIUS), presidido pelo secretário do Tesouro, cargo ocupado por Steven Mnuchin. 


A própria gestão da EDP Renováveis, liderada por António Mexia e por João Manso Neto, já assumia, em Junho, que os EUA poderiam chumbar a entrada da China Three Gorges naquela economia, ou impor fortes obstáculos, caso houvesse uma avaliação à luz da defesa da segurança nacional. Aliás, a possibilidade de este negócio falhar na economia americana tem levado a China Three Gorges à procura de compradores para os activos americanos da Renováveis, como já noticiou a Reuters.


A actividade americana representa praticamente metade de toda a operação da EDP Renováveis (ainda esta terça-feira foi anunciado mais um negócio nos EUA), pelo que qualquer alienação desta operação poderá alterar o perfil do próprio grupo eléctrico, uma perspectiva que se agrava com a possibilidade de a portuguesa adquirir activos da China Three Gorges no Brasil. A OPA pode, assim, mudar a EDP, como assume a sua administração liderada por Mexia.

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Contra controlo externo de infra-estrutura crítica

"Ter outro país a controlar parte da infraestrutura crítica é um aspeto perigoso, é um caminho perigoso que se está a trilhar". George E. Glass, ao Observador

A ideia de que um outro país, seja a China ou os Estados Unidos da América, pode controlar a rede eléctrica de Portugal, ou de qualquer outro país, é um caminho perigoso, defende o embaixador norte-americano em Portugal, George Glass, na referida entrevista concedida ao Observador. "Ter outro país a controlar parte da infra-estrutura crítica é um aspecto perigoso, é um caminho perigoso que se está a trilhar", concretiza.

"Neste caso [da OPA sobre a EDP] são empresas estatais do governo da China a investir na infra-estrutura de Portugal", continua Glass, dizendo que a transacção "causou um efeito dominó no reconhecimento sobre o que está a acontecer com as empresas detidas pelos Estados, sejam chinesas sejam de outro lado qualquer".

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Neste momento, a China Three Gorges detém 23% do capital da EDP, querendo ficar com a totalidade do seu capital. A participação actual não é vista com preocupação: "Deter 25% da Galp, deter 25% da EDP, seja quem for, não há problema. Isso são investimentos. Podem criar influência e as várias entidades podem ter influência", diz o embaixador norte-americano, acrescentando que é muito diferente quando se fala em 100% do capital.
Em Julho, e em declarações à Lusa, Glass já tinha colocado o tema no panorama político e não tanto comercial. "Uma entidade estatal comprar uma parte de uma empresa é uma coisa, é um investimento". "A compra de uma empresa toda e com importância crítica nas infraestruturas é diferente: é política", diz o embaixador dos EUA, país que tem vindo a dinamizar uma política comercial agressiva em relação a economias que considera actuarem de forma desleal, onde inclui a China. 
A Comissão Europeia, por sua vez, já se posicionou em relação à operação: "a Comissão dispõe de poucos instrumentos para intervir em tais casos e não pode analisar casos individuais de investimento directo estrangeiro e os seus potenciais riscos relativamente à segurança e ordem pública ao nível europeu", respondeu o presidente, Jean-Claude Juncker, numa carta aos deputados ao Parlamento Europeu Ana Gomes e Elmar Brok. Bruxelas colocou o negócio nas mãos dos reguladores. 

Conversas com um Governo confortável


O investimento chinês na EDP, e daí nos EUA, já foi tema de reuniões entre o embaixador e vários membros do Executivo: "Mantivemos discussões a todos os níveis do governo". "Claro que já manifestei essas preocupações. E fizemo-lo em privado e publicamente".

"Tal como todas as coisas no Governo, ‘isso depende’", foi a resposta recebida por George E. Glass nessas diligências, segundo confidencia ao Observador. De qualquer forma, o embaixador ressalva que o Executivo está confortável. "O Governo considera que tem uma longa história de transacções, especificamente com a China, e têm sido parceiros há séculos, há 400 ou 500 anos, e talvez estejam um pouco mais confortáveis com esta situação do que nós. Daí o nosso tom de advertência", conta.

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Foi a 11 de Maio que a China Three Gorges assumiu que queria ficar com a totalidade da EDP e com toda a EDP Renováveis. As operações têm um grande leque de autorizações regulatórias para que se venham a concretizar.
Para já, as administrações das cotadas nacionais já se pronunciaram negativamente em relação ao preço oferecido. No caso da EDP, os chineses querem pagar 3,26 euros por acção, o que é visto como uma contrapartida baixa pelo conselho de administração. Na Renováveis, a recomendação é de rejeição do preço, de 7,33 euros, o mínimo que a empresa poderia ter de despender.

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