Energia Governo quer incentivar novas centrais de biomassa mas matéria escasseia

Governo quer incentivar novas centrais de biomassa mas matéria escasseia

Do ponto de vista dos operadores do setor, num contexto de escassez de matéria-prima e da recente proliferação de centrais de biomassa, há pouco espaço para o incentivo previsto pelo Governo para a construção de novas instalações.
Governo quer incentivar novas centrais de biomassa mas matéria escasseia
Ana Batalha Oliveira 11 de janeiro de 2019 às 17:24

Na passada terça-feira, o Governo obteve a aprovação de Bruxelas para a criação de novas centrais de biomassa, como medida para a prevenção de incêndios. Contudo, os operadores do setor são críticos em relação a esta iniciativa: acusam dificuldades na obtenção da matéria-prima pelas centrais já existentes, uma pressão confirmada pelo instituto especializado Centro de Biomassa para a Energia. Isto apesar de existirem algumas zonas do país onde a nova atividade possa vir a ter espaço, de acordo com estas mesmas fontes.

"Com os incêndios que ocorreram nos dois últimos anos, a quantidade de biomassa existente reduziu significativamente", afirma o presidente da Associação dos Produtores de Energia e Biomassa (APEB), Carlos Alegria, que é tambem proprietário de três centrais, localizadas em Viseu, Oliveira de Azeméis e Fundão. "Os próprios fornecedores de biomassa (madeireiros) já comunicaram aos seus clientes dificuldades em fornecer biomassa nas quantidades em que estavam a fornecer no passado", continua.

Da parte da indústria da madeira, uma empresa de média dimensão que abastece três centrais, a Ponte Florestal, confirmou ao Negócios a dificuldade em obter biomassa. "No próximo meio ano, a redução poderá atingir entre 30 a 40%, mas 30% seguramente, na região centro", a zona onde se localizam as centrais que a ponte florestal fornece, assegura António Paiva, o responsável pela empresa. Acrescenta que a situação de escassez se poderá agravar se o ICNF não agilizar a replantação dos terrenos ardidos.

 

À recente escassez da matéria necessária ao funcionamento das centrais acresce o recente surgimento de novos operadores no mercado. No último ano e meio, novas centrais surgiram no Fundão, Viseu, Famalicão, Figueira da Foz e Porto Mós. "No fim deste ano devem estar todas operacionais", aponta Carlos Alegria. Juntas, representam um acréscimo de 110 megawatts de produção, o que implica que, por ano, sejam necessárias 1,2 milhões de toneladas de biomassa extra, de acordo com a APEB. Num todo, o setor "vai precisar qualquer coisa como entre 5 a 6 milhões de toneladas por ano, o que começa a ser difícil de encontrar", diz o presidente da associação.

Contactado, um destes operadores de mercado, que preferiu não ser identificado, confirma a posição já referida pela associação: "O número de centrais de produção de energia a partir de biomassa em atividade, bem como as que já se encontram licenciadas permitem antever um agravamento nas condições de laboração, dada a escassez de biomassa em Portugal. Não faz qualquer sentido, onerar a fatura e eletricidade dos portugueses para que se possam construir mais centrais". No comunicado através do qual anunciou a aprovação da iniciativa do Governo, a Comissão Europeia indicava que os novos projetos deverão ser financiados com a ajuda dos consumidores.

A aprovação de licenças para a instalação das centrais de biomassa mais recentes foram assinadas pelo anterior Secretário de Estado de Energia, Jorge Seguro Sanches, com o qual a APEB chegou a encontrar-se, para alertar para a corrente situação de pressão, mas ainda não existiu um contacto semelhante com a nova secretaria.

Então, onde há espaço?

O Centro de Biomassa para a Energia (CBE), que tem na composição dos órgãos sociais representantes dos vários eixos da atividade – desde a APEB e a Direção Geral de Energia e Geologia até grandes operadores, como a Navigator – está a realizar neste momento um estudo acerca das necessidades do setor.

Apesar de ainda não estar pronto a publicar, esta entidade de investigação confirma que existe "pressão sobre o recurso (biomassa)". Contudo, ressalva que, caso os critérios para a localização das novas centrais sejam respeitados "a questão da pressão do recurso irá ficar salvaguardada" e o objetivo de limpar áreas críticas em termos de risco de incêndio concretizado. Estes critérios têm em atenção não só as zonas mais vulneráveis a incêndios como a proximidade a centros de consumo, e estão definidos no decreto-lei que aprova o regime para a construção destas instalações, o 64/2017, anterior aos incêndios de julho e de outubro que devastaram a floresta e fizeram dezenas de vítimas nesse ano.   

O presidente da APEB confirma a possibilidade de novos operadores em zonas limitadas e vê dois exemplos possíveis: "há efetivamente zonas ainda não totalmente cobertas para o consumo dos resíduos florestais, nomeadamente no Algarve e na zona nordeste de Portugal", informa.




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