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"É preciso mudar os hábitos"

Joaquim Neto Filipe acredita que a mudança de usos poderá melhorar a eficiência energética na casa de cada um de nós. Mas será necessário apostar em melhores habitações

"É preciso mudar os hábitos"
José Miguel Dentinho 31 de Maio de 2012 às 14:25
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Os projectos dos edifícios têm de ser feitos depressa e serem baratos por razões económicas. Isso não permite aos projectistas o tempo e serenidade para escolherem as melhores configurações, soluções e materiais. Joaquim Neto Filipe, CEO do grupo de engenharia Projecto. Detalhe, diz que, por isso, estamos a consumir mais energia do que a necessária para nos aquecermos em casas desorganizadas, com materiais de construção mal escolhidos e janelas mal vedadas. Ou seja, consumimos muito mais energia do que a necessária porque a construção está mal dimensionada desde raiz. Mas acredita que se irá poupar dinheiro quando este estado de coisas mudar e as pessoas estiverem mais despertas para isso. Em Portugal, onde 50% da factura que se paga não diz respeito ao consumo de energia, tudo o que contribuir para diminuir este encargo será certamente positivo.


Quais são as melhores soluções energéticas para assegurar o futuro da Natureza e da humanidade?
Eu aposto essencialmente na eficiência energética e na produção de energia limpa, onde incluo, além das fontes renováveis, o gás natural e o nuclear. Esta é uma opção que deve estar em cima da mesa, independentemente das questões ideológicas e éticas de algumas pessoas. É também por ela que passam as soluções.

O petróleo poderá acabar um dia. Há estudos que referem que se extingue em 2100, pelo menos na forma como é conhecido actualmente. Só que cada vez se descobre mais e mais fundo. É, por isso, mais caro. Por outro lado, o consumo está a decrescer.

Mas a evolução da tecnologia vai permitir produzir combustível a partir das mais diversas matérias-primas que se encontram na natureza. Ainda não se encontrou uma maneira rentável de produzir petróleo a partir delas, mas os desenvolvimentos irão permitir isso no futuro.

Estou-lhe a falar, por exemplo, do uso do "shale gas", que se encontra a grandes profundidades, para o fazer, através de tecnologias como a LTG (Liquid to Gas), que permitem produzir petróleo a partir de gás natural ou de outras matérias-primas. Ou seja, há uma série de desenvolvimentos futuros do ponto de vista tecnológico, que nos permitem recentrar a produção de energia a partir dos combustíveis fósseis para além daquilo que conhecemos actualmente, o crude e o gás natural liquefeito.


Mas serão melhores soluções para o futuro da natureza?
Eu acredito que sim. O aquecimento global e a emissão de dióxido de carbono para a atmosfera, devido ao uso intensivo das fontes de energia convencionais, acabam por condicionar o desenvolvimento da actividade. Primeiro, pela consciência ecológica que começa a existir felizmente nas pessoas. Mas não nos podemos esquecer que temos uma economia muito assente no petróleo. Isso deve-se também ao elevado peso do lobby do sector, que é um dos grandes condicionantes da mudança no paradigma energético. É natural que os detentores de uma matéria-prima desejem que ela seja a base de produção de energia.

A mentalidade está a mudar, mas muito devagar. Primeiro, porque as energias renováveis ainda são caras. Depois, porque a massificação da tecnologia usada para as extrair ainda não é suficiente para o seu preço descer.

Dou-lhe o exemplo dos carros eléctricos. Embora constituam uma aposta de futuro, que eu acredito que venha a ser ganha, além de ainda serem caros, têm limitações tecnológicas. Ou seja, as pessoas, ao trocarem um carro convencional a combustível por outro totalmente eléctrico, não obtêm o mesmo.


As soluções energéticas baseadas em subsídios e/ou distorções de preços da energia constituem alternativas sustentáveis e duradouras?
Julgo que não. A produção das energias renováveis, e pensando apenas nas mais vulgares, como a solar/térmica, a fotovoltáica, eólica a outras, têm uma visibilidade grande em termos globais, que está a ser construída. É uma acção necessária, que deve ser subsidiada, para que ganhem mercado e sejam aceites pelas pessoas.

Mas isso apenas deve ocorrer numa fase inicial. Ou seja, o estado deve investir nestas energias com base numa estratégia de desenvolvimento para o futuro. O subsídio deve servir apenas como alavanca para o arranque do mercado, porque os equipamentos são caros e representam o custo principal do investimento nesta tecnologia. Logo que o mercado estiver desenvolvido deve ser retirado, para que se possa caminhar para uma situação de paridade entre o custo kWh produzido pelas fontes renováveis e convencionais. Tendencialmente irão ser os mesmos. Mas neste momento não são.

Os equipamentos para produção de energia renovável têm muito pouca manutenção. Um sistema solar térmico simples tem um tempo de vida útil de 20 anos. Há fabricantes a dizer que duram 30.

O investimento neles fica pago ao fim de cinco anos com as condições actuais de subsidiação. Mas o prazo de retorno do investimento subirá para 10 a 15 anos se o sistema não for apoiado. Não é possível massificar a produção deste tipo de energia com estes valores e tempos de recuperação do investimento. Por isso, há necessidade de subsidiar na fase inicial para massificar o uso de fontes de energia renovável. Mas mal ela seja conseguida, o apoio deve ser retirado.


Como é que deve ser, então, orientada a política energética mundial? Quais são os princípios a que deve obedecer?
Como disse, devemos diversificar as fontes e procurar usar energia renovável e limpa. Os Brics (acrónimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os cinco países em desenvolvimento mais importantes do mundo) têm uma classe média a crescer. A curto/médio prazo vão ser os grandes consumidores de energia mundial.

Mas as fontes renováveis ainda não suficientes para alimentar o aumento da procura de energia. Há necessidade de alternativas que possam produzir energia em massa.

Em termos mundiais, acredito que a energia renovável é um caminho. Mas estamos longe de conseguir que ela consiga alimentar as necessidades do nosso globo. Temos sempre de procurar alternativas, e o gás e o nuclear são fontes que têm de ser consideradas. Esta última pode ser um sucesso, pois produz energia limpa, barata e a matéria-prima é muito abundante na natureza.

É evidente que tem o contra dos resíduos. E também há provas que pode dar origem a acidentes perigosos, tal como aconteceu no Japão com a Central de Fukushima I, da Tokyo Electric Power, em consequência do sismo Töhoku e tsunami consequente, uma onda de 14 metros que superou facilmente os muros de protecção, de 5,7 metros. De facto houve falhas, mas se estivermos à espera que haja um acidente se calhar não sairíamos de casa. Temos de garantir as condições para não ocorrerem acidentes.


Quais são as medidas de eficiência energética mais importantes a tomar?
Primeiro há que mudar os hábitos de consumo. Há que fechar as luzes quando se muda de compartimento, trocar as lâmpadas incandescentes por florescentes ou outras que poupem energia, como as LED, que têm um consumo quase irrisório, apesar de o seu preço ser elevado.
Custam se calhar 10 a 15 vezes mais que as incandescentes mas gastam muito menos energia e, por isso, o investimento acaba por sair muito mais barato após um período de tempo. Mas é preciso explicar isso às pessoas.


Mas eu mudei todas as lâmpadas para LED e continuo a pagar o mesmo.
Isso é outra coisa e um tema muito actual, porque 50% da factura energética não tem nada a ver com energia. É algo que não é simples. Mas aí estamos a falar de questões políticas nacionais, sobre as quais pouco podemos fazer excepto dizer o que pensamos.

Outra questão muito importante em termos de eficiência energética tem a ver com o modelo e qualidade da construção. Nós temos a preocupação de ter casas muito grandes, mal isoladas e dimensionadas do ponto de vista térmico, acústico e por aí fora.

Estamos muitas vezes a produzir energia para nos aquecermos em casas desorganizadas, com materiais de construção mal escolhidos e janelas mal vedadas. Ou seja, consumimos muito mais energia do que a necessária porque a construção está mal dimensionada desde raiz.
A engenharia tem aqui alguma responsabilidade, para além da arquitectura, porque os projectos têm de ser feitos depressa e serem baratos por razões económicas. Isso não permite aos projectistas o tempo e serenidade para escolherem as melhores configurações, soluções e materiais. Quando essa forma de fazer as coisas mudar, acredito que se irá poupar dinheiro.

Depois ainda há a questão do consumo dos electrodomésticos. Os frigoríficos e máquinas de lavar são equipamentos que têm um consumo elevado de energia. Mas as suas versões mais actuais conseguem produzir a mesma quantidade de frio, calor, etc., com um consumo de energia muito mais baixo. Também se deve ter essa preocupação, que até é mais importante que as lâmpadas.

Hoje é obrigatória a exposição, a quem pretende comprar, da sua classe de consumo. Os equipamentos melhores, os A, gastam se calhar metade dos mais antigos. Por isso vale a pena fazer um esforço inicial, que levará à poupança de dinheiro após determinado período de tempo.

Estou a centrar o tema exclusivamente na habitação, embora haja legislação portuguesa para as áreas industriais e de transportes. Há regulamentos específicos englobados no Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética (PNAEE).


O que é que está a ser feito neste campo em Portugal?
O Plano Nacional de Acção para a Eficiência Energética está subdividido em regulamentos de acordo com os sectores. Inclui, por exemplo, um específico para os edifícios, que caracteriza as soluções a adoptar do ponto de vista técnico para garantir um desenvolvimento equilibrado do consumo de energia. Isso acontece também para os transportes.

Tem-se notado um desenvolvimento muito importante essa matéria. Os veículos são concebidos hoje para terem consumos mais baixos. Mas isso também depende do peso do pé de cada condutor no acelerador.

E há veículos a gás natural ou a consumir energias renováveis, como o biodiesel, biogás ou bioetanol, que são fontes alternativas de produção de energia.

O Brasil tem uma versão, que chama Flex com capacidade para ser abastecido e funcionar com mais de um tipo de combustível. Qualquer mistura é possível.

Portugal é, no campo das energias renováveis e na produção sustentada de energia, claramente um líder mundial e um caso de estudo em agências europeias. O estado actual do sector é um exemplo muito bom daquilo que os nossos governos podem conseguir através de uma concertação estratégica, onde todos tocam pelo mesmo diapasão. E o resultado está à vista.


Ainda há investimento a ser feito em renováveis em Portugal?
Há nos sistemas solar térmico fotovoltáico, hídrico e biomassa. Também há numa fonte de energia que olho com muito carinho, embora apenas se faça investigação experimental e não haja nenhuma actividade comercial, que é a produção de energia a partir do mar. Não só das ondas, mas também das marés.

O mar é uma fonte inesgotável de energia. Por isso, espero que os projectos-piloto actuais na costa portuguesa tenham resultados promissores. Estou a falar de um protótipo a funcionar em Peniche, por exemplo, onde se tenta produzir energia a partir da ondulação. Esses equipamentos, que são flutuantes, têm capacidade para trazê-la para uma central em terra que a distribui para a rede.

Depois também temos a produção de energia eólica no mar. Isso é muito simples nos países do Norte da Europa, porque têm plataformas continentais muito vastas, onde é possível implantar aerogeradores montados directamente no fundo do mar.

Em Portugal a plataforma é abrupta e afunda quase logo. Mas está em experimentação um projecto muito interessante, também de produção de energia eólica com aerogeradores, sustentada em estruturas flutuantes.






Perfil
Engenheiro, académico e marinheiro

Joaquim Filipe Neto, 50 anos, CEO da Projecto.Detalhe, é engenheiro por currículo académico e marinheiro por vocação. Conciliou ambas as facetas na Escola Náutica Infante D. Henrique (ENIDH), onde se licenciou em Engenharia de Sistemas Marítimos, Electrónica e Telecomunicações. Pós-Graduado em Gestão de Projectos e Estratégia Corporativa, pela Universidade Católica, adquiriu novas competências e especializações em países como Holanda, Alemanha e Reino Unido, onde faz um MBA em Gestão Internacional.

Regressou a Portugal devido a um convite da SOTREPE Internacional, O maior desafio, porém, ocorreu no ano 2000 quando, incentivado por amigos e futuros parceiros, constituiu a empresa de engenharia Projecto.Detalhe.



* Joaquim Neto Filipe, CEO do grupo de engenharia Projecto.Detalhe

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