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Leilão online de um convento portuense põe Associação de Fiéis no purgatório

A empresa de Oeiras proprietária do último convento de clausura do Porto forçou em tribunal a saída da Associação de Fiéis do Coração Imaculado de Maria, que ainda tem fé no “resgate” do edifício colocado à venda, em leilão eletrónico, por 2,8 milhões de euros.

Rui Neves ruineves@negocios.pt 06 de Junho de 2020 às 17:00
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O Convento de Francos está ao abandono há quase duas décadas, depois de, em 2001, as irmãs Carmelitas Descalças, que aí estavam enclausuradas, terem saído em busca do silêncio que aquele edifício, situado no centro do Porto, já não conseguia garantir.

 

O imóvel foi então vendido a uma sociedade chamada Globalurbe – Imobiliária, sediada em Oeiras, a qual, de acordo com fonte próxima do processo, tinha como objetivo inicial converter este empreendimento religioso numa residência sénior.

 

Detida em 76% pela imobiliária Rocpor e em 24% pela há muitos anos falida construtora JAOP, a Globalurbe não chegou a avançar com qualquer projeto para o convento, que passou a ser zona de tráfico e consumo de estupefacientes.

 

Entretanto, há cinco anos, Maria Teresa de Meireles Alte da Veiga, familiar da fundadora do convento e do engenheiro que projetou o edifício,  decidiu abraçar a missão de recuperar o último convento de clausura do Porto para ser "um centro de acolhimento espiritual e cultural aberto a todos".

 

Sinaliza então um contrato de promessa de compra e venda, cuja execução, no prazo de três anos, ficaria dependente da angariação de fundos para a aquisição e reabilitação do imóvel, com a sua propriedade a passar para uma associação a constituir e que iria ocupar o edifício em regime de comodato.

Foi o que aconteceu em 2017, quando é criada a Associação de Fiéis do Coração Imaculado de Maria (AFCIM), por decreto episcopal do então bispo do Porto, António Francisco dos Santos. Mãos à obra, multiplicou as iniciativas para angariar os fundos necessários para o efeito.

 

Inclusive, lançou há pouco mais de um ano uma campanha, com o apoio dos CTT, para vender, por um euro, marcadores com um poema de "Louvor do Silêncio", adaptado de São João da Cruz para a canção "The Sound of Silence", de Paul Simon. Mas tudo o que fez não bastou para chegar ao valor necessário, deixando passar o prazo acordado com a proprietária do edifício.

 

Associação de Fiéis "não atira ‘a toalha ao chão’"

 

"A empresa foi para tribunal para resolver o contrato de promessa de compra e venda. O julgamento estava marcado para 10 de março passado, mas foi tudo arquivado, pois a associação decidiu entregar as chaves do convento à sua dona", explicou David Almeida, consultor da AFCIM para esta matéria, em declarações ao Negócios.

 

"Não se conseguiu cumprir o contrato, pelo que empresa tem legitimidade para vender o convento", anuiu o mesmo responsável. A Globalurbe assim fez. O Convento de Francos foi colocado à venda, através de leilão eletrónico, por um valor mínimo de 2,8 milhões de euros.

 

Com o convento à venda em leilão online, é o fim do sonho da AFCIM? "Não é fácil, mas a associação ainda não atirou ‘a toalha ao chão’. Estamos ainda a tentar resgatar o convento para nós", garantiu David Almeida.

 

Como? "Caso não surja comprador neste leilão, a Globalurbe acordou que venderia o convento à associação pelo preço inicialmente estabelecido – 1,6 milhões de euros", afiançou.

 

Para isso, esta terá ainda de conseguir somar a este valor "os 2,2 milhões de euros para as obras de reabilitação".

 

Segundo este responsável, a AFCIM "tem a promessa, caso adquira o edifício, de 1,8 milhões de euros por parte de mecenas, e está a negociar um financiamento bancário de dois milhões de euros".

 

A leiloeira LC Premium, recusou prestar esclarecimentos sobre a operação e a Globalurbe não se mostrou disponível para responder ao contacto do Negócios.

 

Marianna Ignez, a irmã Maria de Jesus, doou toda a sua fortuna

 

A fundadora do Convento de Francos foi Marianna Ignez de Jesus de Mello da Silva da Fonseca de Sampaio, que nasceu nos alvores do século XX no seio de uma família nobre e aristocrata.

 

Cedo começou a cultivar o desprendimento do luxo e ostentação que a sua condição social, cultural e económica lhe proporcionava, para abraçar a pobreza e a entrega à vida religiosa.

 

Aderiu à comunidade das Carmelitas Descalças, adquirindo o nome de irmã Maria de Jesus, após a tomada de hábito.

 

Até que, nos finais dos anos 40 do século passado, a irmã Maria de Jesus decidiu doar toda a fortuna que tinha herdado para custear o terreno e as obras de construção do Convento de Francos, situado na cidade do Porto.

 

Inaugurado a 2 de fevereiro de 1951, aí se enclausuraram algumas dezenas de Carmelitas Descalças, que abandonaram o convento à entrada do novo século, tendo sido distribuídas por vários outros conventos do país, do Norte ao Algarve.

 

Com a estação de metro de Francos à porta, o Convento de Francos tem 6.288 metros quadrados – com 1.688 metros quadrados de área coberta, integrando 55 quartos ao longo do edifício – escondidos por uma igreja, onde se encontram sobre o altar pinturas de José Luís Brandão de Carvalho, avô materno do atual presidente da Câmara Municipal do Porto, Rui Moreira.

 

Festival de música e piscina de cerveja num espaço de retiro espiritual

 

O Convento de Francos tem sido palco, nos últimos dois anos, do No Noise - Festival de Música Experimental & DIY.

 

A 3 de agosto passado, voltou a abrir as portas, para a sua quinta edição, entre as 11 e as 23 horas, para uma série de concertos, como os de Putan Club, Desterronics, Dr. Truna, Amy Knoles ou Vasco Costa & Monika Frichová, atividades festivas, churrasco, minigolfe selvagem, "urban goat-watching" e a tradicional piscina de cerveja.

 

Um festival de sons num espaço cuja entidade gestora queria que fosse um "convite ao silêncio e ao retiro espiritual em plena cidade".

 

O bilhete custava 12 euros em pré-venda e 15 no próprio dia, com um euro a reverter para a então projetada reconstrução do telhado do convento.

 

Já a missão da Associação de Fiéis do Coração Imaculado de Maria é a de recuperar o Convento de Francos como "espaço de acolhimento, espiritualidade e cultura".

 

Diz que quer tornar o convento num "espaço para todos", pretendendo acolher estudantes deslocados e famílias em emergência social, peregrinos e viajantes, assim como promover retiros e encontros sociais.

 

Além deste acolhimento, o projeto da associação visa também dinamizar atividades culturais e sociais ligadas à espiritualidade e à religiosidade, e o "culto ao Coração Imaculado de Maria".

 

E, ainda, dotar o Convento de Francos de uma "loja social gratuita", cozinha solidária e horta comunitária.

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