Imobiliário Para muitos brasileiros ricos, Portugal é quase uma nova Miami

Para muitos brasileiros ricos, Portugal é quase uma nova Miami

Portugal está a conseguir captar investimento de brasileiros ricos. Os benefícios fiscais e a segurança são dos pontos mais destacados.
Para muitos brasileiros ricos, Portugal é quase uma nova Miami
Reuters
Bloomberg 21 de maio de 2019 às 14:15

O empresário brasileiro Ricardo Bellino sabe reconhecer um bom negócio. Por isso, depois de mais de uma década a morar em Miami, Bellino decidiu atravessar o Atlântico rumo a Portugal, onde um mercado imobiliário em expansão e incentivos fiscais estão a atrair um número crescente de brasileiros de rendimentos elevados.

 

O multimilionário de 53 anos, que construiu a sua fortuna em áreas como agência de modelos, comprou um imóvel no ano passado num resort exclusivo, localizado numa serra nos arredores de Lisboa, onde planeia os seus próximos empreendimentos. Em Portugal, Bellino vai beneficiar de um imposto de rendimento fixo de 20% e poderá ter direito a uma pensão isenta de impostos quando se aposentar.

 

"Foi uma oportunidade de viver num paraíso fiscal que não é uma ilha no Caribe", disse Bellino, cujo avô era português. "Estamos na Europa, num país que passou por um renascimento nos últimos anos."

 

Portugal implementou os incentivos fiscais há uma década com o objetivo de atrair estrangeiros de rendimentos elevados para o sul da Europa. Em 2012, um ano depois de pedir um resgate internacional, o país de 10 milhões de habitantes começou a oferecer vistos de residência para não europeus que comprassem imóveis no valor superior a 500 mil euros.

 

Os incentivos concedidos por Portugal a imigrantes abastados contrastam com os esforços do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para limitar a imigração, embora na semana passada tenha proposto um sistema baseado no mérito destinado a favorecer imigrantes com qualificações especiais.

 

Em Portugal, o boom do turismo e do mercado imobiliário, aliado aos incentivos oferecidos aos imigrantes, ajudou a economia a registar o maior crescimento em quase duas décadas em 2017. Também levou a uma reação negativa de portugueses que sentiram o impacto da subida dos preços dos alugueres de casas com a nova procura.

 

Os franceses, que possuem uma das maiores cargas tributárias entre 34 países desenvolvidos, lideraram as compras de imóveis em Portugal em 2017, respondendo por 29% do investimento em imóveis por estrangeiros, segundo a Associação de Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal. Os brasileiros ficaram em segundo, com uma parcela de 19% do investimento estrangeiro total, seguidos pelos britânicos, com 11%, e por chineses, com 9%.

 

Os brasileiros estão a avançar depressa e já são os maiores investidores estrangeiros no mercado imobiliário na capital e no Porto.

 

"Estão a comprar casas em todo o lado", afirmou Luís Lima, presidente da
 Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP). "Estes brasileiros são completamente diferentes daqueles que vieram para Portugal no passado. Pertencem a uma classe social mais elevada."

 

A imigração entre Brasil e Portugal sempre fluiu de acordo com os altos e baixos da economia. Há décadas os brasileiros mais abastados têm preferido Miami, considerada jovem e moderna em contraste com Portugal, visto como um país melancólico, nostálgico pelo seu passado glorioso.

 

"Vim para Portugal pela primeira vez em 1970 e fiquei impressionado com a pobreza que
havia", disse Cláudio Madureira, um brasileiro reformado que se mudou para Portugal no ano passado, depois de fechar a sua construtora. "As minhas lembranças de Portugal são como imagens de uma TV a preto e branco."

 

Tudo começou a mudar depois de Portugal concluir o seu programa de resgate internacional em 2014 e um boom imobiliário e turístico transformou cidades inteiras com hotéis boutique, restaurantes com estrelas Michelin e apartamentos e lojas de luxo dirigidos a estrangeiros. Os incentivos fiscais e a perceção de Portugal como um lugar seguro - o país ficou em quarto lugar no Índice de Paz Global 2018 - foram a cereja em cima do bolo para muitos brasileiros.

 

"Perdi a esperança de que as coisas vão melhorar no Brasil", disse Madureira, que agora relaxa a jogar ténis com outros brasileiros expatriados em Cascais, uma cidade à beira-mar nos arredores de Lisboa.

 

No Chiado, um dos bairros mais caros de Lisboa, alguns moradores dizem que a vizinha brasileira Regina de Camargo Dias é a mulher mais rica de Portugal. Camargo, uma das três irmãs que controlam a construtora e cimenteira Camargo Corrêa, está entre os brasileiros de rendimentos elevados que compraram imóveis na capital portuguesa, onde o preço pode chegar a 10 mil euros por metro quadrado.

 

Bellino, que diz ter levado três minutos para convencer Trump a investir num resort de golfe de 500 milhões de dólares em São Paulo em 2003, que nunca foi construído, vê Portugal como um país cheio de oportunidades. O empresário, que comprou a sua residência em Key Biscayne, na Flórida, no início da crise financeira em 2007 e quando o real estava mais forte em relação ao dólar, diz que agora quer investir em vários negócios em Portugal, como educação e empreendimentos imobiliários.

 

(Texto original: For Many Wealthy Brazilians, Portugal is Becoming the New Miami)




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