Indústria Luís Onofre: Ano 2019 vai ser "difícil" e "desafiante" para o calçado português

Luís Onofre: Ano 2019 vai ser "difícil" e "desafiante" para o calçado português

Onofre salienta que também os principais concorrentes de Portugal – Itália e Espanha – estão "a ressentir-se" deste cenário internacional:
Luís Onofre: Ano 2019 vai ser "difícil" e "desafiante" para o calçado português
Lusa 10 de fevereiro de 2019 às 14:13

Depois de em 2018 o calçado português ter interrompido um ciclo de oito anos consecutivos de crescimento das exportações, a associação setorial prevê que 2019 será novamente "um ano difícil" face aos "muitos fatores macroeconómicos" adversos.

"2019 não se prevê um ano de muitas facilidades, penso que será ainda um ano desafiante para os nossos industriais", afirmou o presidente da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes e Artigos de Pele e Seus Sucedâneos (APICCAPS) em declarações aos jornalistas no primeiro dia da Micam, a maior feira internacional de calçado, que decorre até quarta-feira em Milão, Itália.

Face ao "ano difícil" em perspetiva, Luís Onofre deixa "um conselho" aos industriais portugueses de calçado, dos quais cerca de nove dezenas estão presentes na Micam: "Que sejam o mais resilientes possível a este problema das políticas internacionais e europeias e dos protecionismos de que não têm culpa, mas que afetaram o desempenho" do setor em 2018.

Segundo os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), no ano passado as exportações da indústria portuguesa de calçado aumentaram 1,54% (para 84,296 milhões de pares), mas recuaram 2,65% em valor (para 1.904 milhões de euros), interrompendo um ciclo virtuoso de oito anos consecutivos de crescimento.

Recordando que o setor "já lidou no passado com situações piores e soube ultrapassá-las", o presidente da APICCAPS atribuiu este desempenho a "muitos fatores macroeconómicos maléficos", desde as incertezas em torno do Brexit, que têm penalizado as exportações portuguesas de calçado para a Europa (que em 2018 caíram 3%), ao protecionismo dos EUA (para onde as vendas recuaram 2%), aos efeitos da crise político-institucional da Crimeia nas vendas para a Rússia e ao arrefecimento de economias europeias como a Alemanha.

De acordo com os números da APICCAPS, só a Alemanha e a França, os dois principais mercados das vendas do setor e para onde as exportações portuguesas caíram respetivamente 6% e 3% em valor em 2018, representaram 50 milhões da quebra total de 55,9 milhões de euros registada em 2018, a que se somaram recuos de mais de cinco milhões de euros em Angola e de quatro milhões de euros na Rússia.

Conforme salientou Luís Onofre, também os principais concorrentes de Portugal – Itália e Espanha – estão "a ressentir-se" deste cenário internacional: Se até agosto as exportações italianas de calçado aumentaram 37% em valor (para 6,5 mil milhões de euros), o facto é que recuaram 3,1% em volume (para 143,6 milhões de pares), enquanto Espanha registou até setembro quebras de 3,6% em valor e de 1% em volume (para 2.018 milhões de euros e 122,7 milhões de pares).

Neste contexto, o dirigente associativo destacou a importância do aprofundamento da estratégia de diversificação de mercados que a APICCAPS vem já desenvolvendo há alguns anos no sentido de diminuir a dependência do setor dos mercados europeus, para onde canaliza atualmente 85% das vendas.

"A nossa ambição é que dentro de três ou quatro anos não ultrapassemos os 80% de vendas para a Europa", afirmou o porta-voz da associação, Paulo Gonçalves, em declarações à agência Lusa.

Neste contexto, garantiu que a aposta no mercado dos EUA "é para dez anos" e "é para manter", apesar da quebra registada no ano passado, e destacou o desempenho das vendas portuguesas do setor para a China, que em 2018 aumentaram 71%, para 23 milhões de euros.

"Já somos o quarto maior fornecedor de calçado da China e em três anos, se tudo correr bem, vamos ser o terceiro", sublinhou Paulo Gonçalves, notando que "as exportações para a China já são o dobro das de Angola" e, "fora da Europa, a China é o terceiro principal mercado" das exportações portuguesas de calçado, depois dos EUA e do Canadá.

Assim, e apesar de também convicto que 2019 "vai ser, de novo, difícil para a generalidade das empresas", Paulo Gonçalves acredita que o novo ciclo de investimentos em promoção externa (num total de 18 milhões de euros) vai fazer deste ano "um ano de afirmação do calçado português nos mercados externos".

Segundo o responsável, para este objetivo irá também contribuir a capacidade de adaptação da indústria portuguesa às novas tendências do mercado, nomeadamente nos produtos alternativos ao couro, ligadas a questões ambientais.

"Continuamos a achar que o couro é um segmento nobre e vamos continuar a fazer aí a nossa aposta, até porque está por provar que não é um produto ecologicamente válido, já que é um subproduto da carne que nós aproveitamos e reciclamos".

Contudo, sustentou, "há todo um conjunto de novos desenvolvimentos na área dos sintéticos e dos plásticos que levaram a que a indústria do calçado diversificasse a sua oferta", nomeadamente com o surgimento de novos produtos de cariz mais desportivo e semidesportivo, sendo que a indústria nacional "soube, num curtíssimo espaço de tempo, adaptar-se às necessidades do mercado".

Paralelamente, rematou, a indústria portuguesa de calçado está "a procurar criar uma nova relação com o consumidor, tornando-se mais rápida e flexível e capaz de produzir calçado par a par".




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