PME Bruaá Editora - A vida em letras
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Bruaá Editora - A vida em letras

Encontrar os melhores autores infanto-juvenis, de hoje e de ontem, é a missão da Bruaá, editora da Figueira da Foz. O objectivo do projecto é o de encontrar livros que cortem com a produção massiva e deixem marca nos leitores.
Teresa Gens 22 de setembro de 2011 às 14:46
Hoje aqui, amanhã acolá. Foi a difícil condição de ser professor, sempre itinerante, sempre de casa às costas, que levou o casal Miguel Gouveia e Cláudia Lopes a pensar numa solução profissional que os motivasse e permitisse a junção dos seus saberes e, finalmente, das suas vidas diárias.


Durante sete anos separados pelo trabalho, havia duas certezas que partilhavam: não iriam prolongar a distância por mais tempo e precisavam de uma ideia original que "empregasse" a ambos. Foi assim que, aos 35 anos, o professor de português e de inglês do ensino básico, natural de Santo Tirso, e a "designer" de comunicação, Cláudia Lopes, uma filha da Figueira da Foz, se juntaram criando um espaço único, à beira mar, na terra natal da empreendedora.



Chama-se Bruaá e é uma editora que tenta cortar com as propostas habituais de livros infanto-juvenis. "São livros que tentam alargar o espectro de escolha dos leitores, fugindo de algumas características comuns a uma produção massiva e, aparentemente, diversa, mas que se rege por modas e fórmulas mercantilistas", sublinha Miguel Gouveia. Longe de se interessarem só pela novidade, na Bruaá busca-se "o melhor entre tudo o que é e já foi feito."

Dos 8 aos 80



Já recuaram a finais de 1800 em busca de um bom autor. A aposta é a de divulgar escritores e ilustradores nunca publicados em Portugal, como Shel Silverstein, André François ou Bruno Munari - muitos deles premiados -, para construir "um catálogo de referência" (ver me baixo).



E estes autores especiais 'colam'? Os empreendedores garantem que "sim". E explicam que isto se deve "aos livreiros atentos que se esforçam por filtrar tudo o que lhes chega às mãos". Por isso, dizem que não só foram bem aceites como são as próprias livrarias que começaram a procurá-los.



A Bruáa tem leitores que vão dos 8 aos 80 anos, dizem os promotores do projecto. Hoje, o dia-a-dia do casal passa por escolher, à escala planetária, aqueles que consideram ser os melhores livros e que, amiúde, chegam longe em termos etários por serem histórias, autores e ilustrações de "grande qualidade", reforça o empreendedor.

Fora dos planos



A Bruáa nasceu em Janeiro de 2008 com 15 mil euros - dinheiro do bolso dos empreendedores. Desde essa data, o crescimento tem sido "lento e sustentado" porque o tempo empregado para tomar decisões foi sempre "o necessário".



Daí que, segundo Miguel Gouveia, a Bruaá venha seguindo por "bons caminhos, como planeado." Mas nem tudo. Um desencontro face às ideias iniciais foi o curto tempo de exposição que é atribuído a uma novidade hoje em dia. "O ritmo de edição é tal que não permite dar a devida atenção aos bons livros que vão saindo, empurrando-os na enxurrada de papel que chega todas as semanas a uma livraria".



Também a dificuldade em obter pagamentos de alguns dos clientes estava, claramente, fora dos planos dos dois empreendedores. Tanto mais agora que, com a crise, a situação se agravou e "são raros os que pagam a tempo e horas".



A realidade obrigou os empreendedores a repensarem o planeado a vários níveis: número de edições, expansão, integração de mais pessoal. Um adiamento de planos que não os desanima.



Habituados a pensar e a agir com âmbito internacional, pois negoceiam a compra e a venda de direitos de autor no estrangeiro, anima-os a convicção de que, se continuarem a trabalhar como até agora e se conseguirem não defraudar as expectativas dos seus leitores, o negócio "vai correr bem", tal como no livro "Eu Espero", metáfora para os altos e baixos da vida.


Bilhete de identidade

Catálogo recua no tempo

Nome: Bruaá Edição e Design, Lda.
Início de actividade: Janeiro de 2008
Postos de trabalho: 2
Localização: Figueira da Foz
Endereço: www.bruaa.pt


"Esqueci-me como se chama" é um dos mais recentes lançamentos da Bruaá e explica por que é que os livros da editora figueirense têm um longo alcance em termos etários. A obra reúne 10 textos da obra infantil de uma das vozes mais originais da literatura russa do séc. XX: Daniil Harms. São histórias e poemas humorísticos, dominados por uma visão absurda, subversiva e carnavalesca do quotidiano. Já no livro "Isto ou aquilo?", um livro-jogo encontrado num alfarrabista em Praga, o seu autor, Dobroslav Foll, deixa o pequeno leitor na dúvida sobre o que vê em cada página. Sobrepondo à ilustração um acetato raiado, e deslocando-o para a esquerda ou para direita, descobrem-se duas imagens diferentes na mesma página: uma cegonha que se transforma numa tesoura, uma borboleta em livro, um serrote em crocodilo. É isto ou aquilo, conforme o olhar quiser. 47 anos depois da sua edição original, na Checoslováquia, é um livro intemporal tal como "Lágrimas de crocodilo". André François escreve-o e desenha-o, em 1956, para explicar o que são afinal estas lágrimas num livro que é uma lenda viva da edição francesa. A par da descoberta do ADN das lágrimas de crocodilo, "A grande questão": 'Porque estou eu aqui na Terra?' será respondida, de várias formas, por Wolf Erlbruch - respostas com humor, insólitas e, ao mesmo tempo, pertinentes. O número 3 avança a sua explicação: "Para saberes, um dia, contar até três". A morte também: "Estás aqui para amar a vida"; o pato: "Não faço ideia"... e, depois, os pais : "Porque a tua mãe e eu nos amamos". Todos, livros que vieram a seguir ao primeiro lançamento da Bruaá: "A árvore generosa", obra que, desde 1964, conta a história de uma árvore e de um menino. Com poucas palavras fala da relação entre o homem e a natureza, em que uma árvore oferece tudo a um menino, que a deixa de lado ao crescer e tornar-se num homem egoísta. É o livro mais conhecido do escritor e ilustrador norte-americano Shel Silverstein e já comoveu muitas gerações.




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