Opinião Por que ganha Mourinho

Por que ganha Mourinho

Para quem ainda as tivesse, as dúvidas acabaram em Madrid. O sucesso de José Mourinho em nada se deve à sorte. Oito anos e dezassete troféus depois de ter iniciado a carreira como treinador, Mourinho é um caso de estudo na liderança e no trabalho em equipa, com relevância bem para além do mundo do futebol.
Fernando Ilharco 17 de junho de 2010 às 11:29
Trabalhar muito. ser competente e dedicado pode não chegar para ter sucesso e assegurar um bom desempenho enquanto líder. O percurso de José Mourinho explica porquê.

Para quem ainda as tivesse, as dúvidas acabaram em Madrid. O sucesso de José Mourinho em nada se deve à sorte. Oito anos e dezassete troféus depois de ter iniciado a carreira como treinador, Mourinho é um caso de estudo na liderança e no trabalho em equipa, com relevância bem para além do mundo do futebol.

Mourinho reúne um leque de características difíceis de encontrar na mesma pessoa: a paixão pelo trabalho, o empenho, a competência e a inteligência. Não são, no entanto, estas características que fazem dele um caso paradigmático na liderança. São, talvez, condições necessárias, mas não são suficientes. Há muita gente que trabalha muito, com dedicação, paixão e competência e não consegue mais do que uma vida normal. O que faz a diferença em Mourinho é a inovação que o seu trabalho protagoniza. Não é tanto o trabalhar muito mas trabalhar bem, com bom senso e focado no que conta e não no que os outros focam, indo à frente e fazendo história. E, no mais fundo, o que um grupo espera de um líder é precisamente que faça história.

Em 2006, quando iniciámos a investigação sobre a liderança de José Mourinho, apresentada no "best-seller" em co-autoria "Liderança: as lições de Mourinho", com prefácio do treinador, constatámos estar perante uma mudança paradigmática que marcaria o futebol, em particular, e a liderança e o trabalho de equipa, em geral. Referimos agora de novo o que então escrevemos: enquanto Mourinho continuar a trabalhar como trabalha e não surgirem outros fazendo-o da mesma forma, ele vai continuar a ganhar a maior parte das vezes.

Mourinho trabalha de uma forma diferente: globalmente, interligando e integrando sistematicamente todos os aspectos da sua actividade. Na liderança, nos treinos e no jogo, ele trabalha simultaneamente, de forma integrada e indirecta, os 'tradicionais' aspectos físicos, técnicos, tácticos, psicológicos, motivacionais, etc. Na alta competição são os detalhes, o ambiente, o comportamental, as relações entre os profissionais, a ambição que fazem a diferença. Como Mourinho bem o captou ainda estudante, e operacionalizou com sucesso como profissional, a competição no futebol espectáculo não é física, nem sequer é técnica. O jogador que remate não está lá física, técnica ou tacticamente - está lá todo. Está lá a sua vida, a sua mentalidade e emoções, o seu projecto e o seu futuro. A qualidade, a competência técnica, são ingredientes necessários mas estão longe de ser suficientes.

Sob esta perspectiva de globalidade, a primeira vitória do Real Madrid da era Mourinho já aconteceu. O Inter jogou a final da Liga dos Campeões em casa. Depois de ter eliminado o Barcelona - e o Chelsea, diga-se - para os merengues, os jogadores do 'general Mou' eram a sua equipa. A eliminação dramática do Barcelona em Camp Nou, a final da Champions no Bernabéu e a possibilidade de se transferir para Madrid foram circunstâncias que Mourinho explorou a seu favor.

"Não foi o momento perfeito" disse Moratti, presidente do Inter, comentando a transferência de Mourinho para o Real. Mas Moratti sabe que não foi bem assim. Mourinho aproveitou como ninguém um conjunto extraordinário de circunstâncias. Muitos poderiam ficar diminuídos, pressionados, condicionados. Mourinho pediu o apoio de Madrid para os seus jogadores.

Ganhou pelo Inter e pelo Real. Festejou, olhando o estádio em redor, de mãos nas ancas, firme na relva. A mensagem para os adversários na La Liga está entregue: tenham medo. Como disse uns dias depois: "medo é o que eu quero ver no balneário dos nossos adversários."
A inteligência no aproveitar das circunstâncias e a preocupação com a globalidade do processo competitivo são aspectos marcantes no desempenho profissional de José Mourinho. Os seus comportamentos em campo, as entrevistas e as declarações aos media, tudo faz parte do seu trabalho: preparar, motivar e desafiar a sua equipa, e desmotivar, amedrontar e confundir as equipas adversárias. É também neste contexto que deve ser compreendido o seu comentário sobre as possibilidades de Portugal no Mundial de futebol a decorrer na África do Sul. Disse Mourinho, em entrevista ao jornal desportivo espanhol 'Ás': "Portugal não tem hipóteses no Mundial. Nem com o Cristiano a 1000 à hora…"

Ora, o significado desta frase, evidentemente, são as consequências que ela tem. Entre os muitos comentários que ouvimos à afirmação de Mourinho, só Deco, que trabalhou com Mourinho no Porto e no Chelsea, se aproximou das consequências pretendidas: "se calhar até está a tentar motivar-nos; ele é especialista nestas coisas. Tenho a certeza que deseja a melhor sorte para Portugal."

Mourinho foca os resultados e deixa à sorte o mínimo possível. Os destinatários da frase acima foram os jogadores de Portugal, obviamente; e 'a contrario' os nossos adversários que podem ganhar um perigoso excesso de confiança contra nós. O objectivo de Mourinho foi espicaçar, abanar e motivar os jogadores da nossa selecção. O que cada um deles ouviu foi que ele conta, que Portugal não é só Ronaldo. E Ronaldo ouviu que a 1000 à hora pode fazer coisas extraordinárias. Mourinho desafiou-os, desequilibrou-os, espicaçou-os. Foi isto que ele fez, dias depois de no centro de Madrid, no relvado do Santiago Bernabéu, em directo para centenas de milhões de pessoas em todo o mundo, ter exibido a bandeira portuguesa, com uma autoridade rara nos dias de hoje.

Em termos pragmáticos, com base na investigação apresentada no livro "Liderança: as lições de Mourinho", podemos sintetizar o caso de sucesso de José Mourinho em dez lições para os líderes em geral: (i) paixão pelo que se faz; (ii) competência técnica e em actualização constante; (iii) coerência na liderança e nos desafios, só exigindo dos outros o que exige de si próprio; (iv) foco na equipa, "ninguém está acima do grupo", "o forte das minhas equipas é a equipa"; (v) trabalho, muito trabalho; (vi) comunicação e empatia, as emoções são o meio decisivo da aderência à realidade; (vii) adaptação à situação, tentando tirar partido da propensão das coisas a cada momento; (viii) presença carismática, chave numa sociedade em que a atenção das pessoas é o recurso mais escasso; (ix) inovação e originalidade, com bom senso e inteligência Mourinho está a rescrever o que é o futebol global; (x) liderança e gestão de equipa pela globalidade, focando o todo, as relações entre os profissionais, as implicações, compensações e desequilíbrios entre as várias dimensões do jogo e do profissional.

A perspectiva teórica que melhor explica o trabalho de Mourinho é a do paradigma da complexidade: a explicação das partes a partir do todo. Sob esta perspectiva, por exemplo, nas universidades treinam-se executivos usando 'casos de estudo', e nas escolas primárias, onde tradicionalmente se ensina a ler a partir das letras, ensina-se também a partir da palavra, do seu som para as letras que o gera. Nesta aproximação ao trabalho e à acção, as emoções e a ambição são dimensões de união, que tudo tocam na vida de um profissional e de uma equipa.
Outras noções caracterizadoras do paradigma da complexidade podem descrever o trabalho de Mourinho: a primazia da situação, a prosperidade dos sistemas vivos em situações longe-do-equilibrio, a interacção da vizinhança, a segunda lei da termodinâmica, a sensibilidade às condições iniciais, a teleonomia, etc. Trata-se de uma nova aproximação ao trabalho, e a sua operacionalização em detalhe numa actividade concreta, com potencial de transferência para as organizações em geral - este tem sido aliás o tema das conferências e dos seminários que temos vindo a fazer nos últimos dois anos.

Moral da história? Há muito a aprender com o desempenho de Mourinho. A principal lição, nas palavras do próprio Mourinho, é esta: "nunca oiçam os conselhos de quem vos diz para se ficarem pelas pandeiretas e não tentarem tocar violino".


* Prof. Universidade Católica Portuguesa
Co-autor de "Liderança: as lições de Mourinho". Prefácio José Mourinho. Lisboa, 2007

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