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Saber ser empreendedor

A ideia de criar um negócio próprio provavelmente já lhe passou pela cabeça. Por brincadeira, em conversa com amigos ou num tom mais sério lançou a ideia para o ar. Mas se alguns embarcam na aventura, muitos acabam, no entanto, por...

Blandina Costa Webtexto 18 de Junho de 2009 às 14:46
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Ensinar a ser empreendedor é uma tarefa a que muitas universidades e escolas do país já aderiram. E querer abrir um negócio próprio não é condição necessária para frequentar os cursos. Afinal, ser empreendedor a trabalhar por conta de outrem é também um factor de sucesso na carreira. O importante é saber escolher. A componente prática dos cursos, em que se testa uma ideia concreta de negócio, e se partilha as experiências de quem já fez o mesmo, permitindo que os alunos auto-avaliem o seu perfil empreendedor, são requisitos importantes

A ideia de criar um negócio próprio provavelmente já lhe passou pela cabeça. Por brincadeira, em conversa com amigos ou num tom mais sério lançou a ideia para o ar. Mas se alguns embarcam na aventura, muitos acabam, no entanto, por deixar morrer a ideia do que poderia ser uma alternativa de vida. Sabendo que a falta de conhecimentos básicos sobre como lançar um negócio e dar-lhe vida é, muitas vezes, um travão ao lançamento de um projecto empresarial próprio, muitas universidades e escolas do país lançaram nos últimos anos cursos de empreendedorismo. Não é difícil encontrá-los de Norte a Sul do país, passando pelas regiões autónomas. Mas afinal o que ensinam estes cursos, a quem se destinam e será que são mesmo uma opção para quem quer lançar um negócio próprio?

Antes de mais, quem já lida com o ensino do empreendedorismo há alguns anos começa por frisar que os cursos de empreendedorismo não são só para quem quer lançar um negócio, mas destinam-se a criar e a fomentar uma atitude empreendedora, seja para quem quer lançar um negócio próprio seja para quem trabalha por conta de outrem. Francisco Banha, presidente executivo da GesEntrepreneur, uma empresa vocacionada para o ensino do empreendedorismo, e que é também responsável pela disciplina de Entrepreneurship no MBA do ISEG, diz que criar "um negócio no futuro é apenas um resultado. Todos os empregadores querem trabalhadores com um espírito empreendedor." E acrescenta: "A educação em empreendedorismo tem como objectivo desenvolver um conjunto de atitudes e competências como a autonomia, a criatividade, o espírito de iniciativa e a inovação."

Pedro Saraiva
Empreendedor é alguém que tem coragem de converter um sonho em realidade
Um curso deve determinar até que ponto se tem ou não um perfil empreendedor. É, por isso, que uma das etapas do curso de empreendedorismo desenvolvido pela Universidade de Coimbra passa pelo preenchimento de um inquérito de auto-avaliação que pretende determinar o perfil de empreendedor de cada aluno. Ser empreendedor, diz Pedro Saraiva, vice-reitor da Universidade de Coimbra, "é ser alguém que tenha capacidade de sonhar, a coragem de converter esses sonhos em realidade, sabendo que vai ser obrigado a tomar decisões em ambiente de incerteza e de risco, que vive em permanente aventura e que vai ter de antecipar mudanças, posicionando-se pela positiva." E é preciso testar e ver se se tem ou não estas características.

Com a experiência de dez anos de ensino do empreendedorismo, a Universidade de Coimbra aprendeu também que a componente prática dos cursos é uma vertente importante. "Tentamos que seja uma aprendizagem prática, em que se trabalha uma ideia concreta e o curso é desenvolvido trabalhando essa mesma ideia", explica Pedro Saraiva. Essa é também a filosofia de ensino da GesEntrepreneur ao importar a metodologia do 'learn by doing' que Chris Curtis implementou no Canadá. "A melhor maneira de formar um empreendedor é proporcionar-lhe condições para que ele possa fazer as coisas acontecerem. Assim, em vez de tentarmos levar o mundo exterior à sala de aula, levamos os formandos ao mundo exterior, fazendo-os sair da sua zona de confiança", acrescenta Francisco Banha.

Um viveiro de ciência
Da formação em empreendedorismo que a Universidade de Coimbra tem desenvolvido nos últimos 10 anos já nasceram 107 empresas - a uma média de mais de 10 por ano -, foram criados 1.110 postos de trabalho quase todos de licenciados e doutorados e algumas já estão mesmo presentes noutros países. São sobretudo empresas de base tecnológica que germinaram nas várias faculdades e institutos da universidade, tendo estas um volume de negócios de cerca de 55 milhões de euros por ano. Empresas hoje muito conhecidas como a Critical Software ou a Crioestaminal contam-se entre estes números. O segredo do sucesso está no facto do ensino do empreendedorismo vir associado a um "viveiro de produção de ciência", explica Pedro Saraiva, vice-reitor da Universidade de Coimbra. O universo de 1.500 cientistas e docentes universitários que trabalham em sectores de actividade como as tecnologias de comunicação, ciência viva, energia e ambiente e materiais - áreas onde se pode criar oportunidades de mercado -, mas também noutras faculdades como a de Letras, juntam-se por exemplo ao Instituto Pedro Nunes (incubadora de empresas) para criar um potencial empreendedor pouco habitual em Portugal. O ensino do empreendedorismo na Universidade de Coimbra faz-se em várias frentes: cursos para a população em geral com uma duração em regra de duas semanas, realizada em várias localidades do país e até fora (Lubango em Angola foi um caso de sucesso), e em que se trabalham ideias de negócios com os formandos; iniciativas de sensibilização, como seminários, com empreendedores que servem de modelo; concursos de ideias de negócio; e os cursos de empreendedorismo tecnológico que partem das tecnologias que saem dos laboratórios das universidades e que são trabalhadas por equipas mistas de investigadores e mentores de outros negócios. Prova de que o trabalho tem dado resultados é que, das últimas edições do prémio BES Inovação, os grandes prémios incidiram sobre projectos de ciência e tecnologia desenvolvidos a partir da Universidade de Coimbra.

Um terceiro factor fundamental apontado por Pedro Saraiva é o facto de os cursos proporcionarem aos formandos a possibilidade de partilharem a experiência com outras pessoas que passaram pelo mesmo, através de testemunhos práticos.

Francisco Banha
Os empregadores querem trabalhadores com espírito empreendedor
"A essência é a atitude empreendedora", resume o vice-reitor da Universidade de Coimbra, explicando que os cursos procuram dosear de forma equilibrada estas componentes com as noções sobre a gestão de um negócio, a análise económico-financeira, a gestão de recursos humanos ou o marketing e estudos de mercado. A componente prática tem sido cada vez mais valorizada e Francisco Banha diz mesmo que essa é a vocação dos cursos de empreendedorismo: "A educação em empreendedorismo pretende esbater a enorme barreira que ainda hoje separa a Escola das restantes organizações sociais" e fazer a ponte entre o campo educativo e o mercado de trabalho.

O ensino do empreendedorismo não se limita a cursos específicos sobre o tema. Cada vez mais, as universidades têm optado por criar a disciplina e torná-la acessível a uma diversidade de cursos, nuns casos como opção, noutros como disciplina obrigatória. "Nós acreditamos verdadeiramente que o empreendedorismo deve ser uma área transversal e tanto assim é que criámos a disciplina e temos tentado oferece-la a todas as licenciaturas da Universidade dos Açores", afirma Gualter Couto, director do Centro de Empreendedorismo da Universidade dos Açores. Criado em 2006, para colmatar a falta de iniciativa empreendedora, dinamismo, inovação e competitividade da região, o Centro concebeu não só cursos específicos sobre o tema, como tem tentado introduzir a matéria nos vários cursos da universidade. Desde o ano lectivo de 2007/2008, a disciplina é uma opção nas licenciaturas de Economia e Gestão e uma cadeira obrigatória na licenciatura de Serviço Social.

Gualter Couto só lamenta que não haja mais adesão interna. "Já oferecemos essa disciplina aos restantes departamentos da Universidade mas infelizmente as mentalidades ainda não estão tão abertas como se desejaria a novas iniciativas como esta."

David Ligeiro
Planeia lançar-se por conta própria no mercado angolano
As opiniões dividem-se quando se fala no impacto que o processo de Bolonha (que implicou uma reestruturação dos cursos universitários) teve no ensino do empreendedorismo. Se para Pedro Saraiva, da Universidade de Coimbra, Bolonha trouxe uma cobertura curricular obrigatória ou opcional que antes não existia nos cursos; para João Carvalho das Neves, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão, ou ISEG, e com larga experiência de ensino nesta área, veio desestruturar muita coisa que existia, nomeadamente, no ensino do empreendedorismo. "Em licenciaturas de três anos não dá para ter tudo. Era uma cadeira de 4º ano e agora ficou para o segundo ciclo de Bolonha e, como há uma grande variedade de mestrados, não foi possível introduzir a disciplina em todos. O que acaba por não ter expressão", lamenta.

Para que o ensino do empreendedorismo no meio académico possa ter sucesso, preparando as gerações futuras, João Carvalho das Neves diz que as várias faculdades e departamentos de uma universidade têm de trabalhar em conjunto, aliando as vertentes da gestão ao trabalho de investigação e tecnologia. Além disso, lança uma ideia: porque é que o Estado, em vez de entregar fundos de capital de risco a uma sociedade gestora, não faz a experiência de entregar esses fundos nas mãos de universidades com um historial comprovado na área do empreendedorismo. O retorno seria, provavelmente, compensador.

A pensar num negócio
David Ligeiro tem 25 anos e, há pouco mais de dois anos, decidiu ir viver e trabalhar em Angola. É funcionário da UniOne, uma empresa de consultoria que apoia empresas que se querem implantar em território angolano, e já tem planos para lançar um negócio próprio no país. Para isso, o curso de empreendedorismo da Universidade de Coimbra, organizado pela primeira vez em 2008 no Lubango, em Angola, tem-se revelado um instrumento precioso para organizar as ideias futuras. "A aprendizagem é fundamental, principalmente para evitar cometer erros básicos que podem facilmente ser evitados utilizando conhecimentos fundamentados, que não sejam apenas empíricos", explica David Ligeiro. E aquilo que aprendeu tem também sido muito útil na organização e desempenho do seu trabalho diário. Sabe que o exemplo é importante e, por isso, decidiu também dar o seu testemunho. A UniOne faz parte do projecto Junior Achievement - uma rede que desenvolve programas de apoio a alunos de diversas escolas a constituir a sua "mini-empresa", ensinando e acompanhando todos os passos de criação e vida de uma empresa - e David Ligeiro é um dos voluntários. Ensina a fazer aquilo que um dia quer pôr em prática: a criação de uma empresa, neste caso, de Imagem, Design e Publicidade. PAlém de ser uma das suas áreas de eleição, sabe que este sector tem pouca oferta em Angola e "o potencial é enorme".
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